Degustação às Cegas Parte 3 – O “Intruso” na Degustação ás Cegas

Amigos, na sequência a terceira parte dos Posts que falam sobre Degustação às Cegas. Nessa etapa Reginaldo Azevedo fala sobre incluir um “intruso” para testar o grau de percepção dos participantes. Para ler as partes 1 e 2, basta clicar nos links a seguir:

Degustação às Cegas – Parte 1: Uma Viagem pela Essência do Vinho
Degustação às Cegas – Parte 2: Exceto em degustações verticais

No início dos anos 80, organizei em casa, com minha família, a primeira degustação às cegas da qual participei. Na época, colocamos apenas vinhos brasileiros (existiam poucas e caras opções de vinhos importados por aqui) e foi muito divertida a reunião, com minha esposa (que não bebia) servindo os vinhos nas taças, sem que nós soubéssemos qual era. No final, já com a sensibilidade alterada, cada um julgou qual tinha gostado mais. Lembro até hoje que o vinho vencedor foi o Lejon, que era produzido a partir de Riesling Itálica pela Heublein, sob a mão do grande mestre Dante Calatayud.

De lá para cá participei de várias degustações desse tipo. Entre elas, hoje participo de uma confraria de Sommeliers Profissionais pela ABS (Confraria Taninos Finos), que regularmente se reúne para fazer degustações às cegas no restaurante Praça São Lourenço.

 

As Degustações às cegas podem ser realizadas com diversas finalidades e em muitas situações. Duas delas podem ser:

  1. Reunir amigos, e degustar vinhos, sem especificação de casta, idade ou origem, com o objetivo de se divertir, comer, conversar, e ao final dar uma opinião descompromissada sobre o melhor vinho da noite.
  2. Fazer uma reunião formal, onde cada um recebe uma lista dos vinhos a serem degustados.Nesse caso, os procedimentos devem ser rígidos e deve existir extrema seriedade e honestidade por parte da pessoa encarregada do serviço dos vinhos. Eles não poderão participar da avaliação e devem atentar para detalhes importantes como: abertura das garrafas ao mesmo tempo, garantir a ocultação dos rótulos, serviço e identificação das taças, entre outros.
    O ideal é que você tenha taças exatamente iguais para todos os vinhos e convidados (a taça padrão ISO é sempre uma boa opção), e que você disponibilize água e pão. Importante se hidratar bem antes das provas e usar o pão para limpar o paladar entre um vinho e outro.
    Muito importante que sejam feitas anotações sobre os vinhos degustados (desde um simples bloco de anotações até uma ficha de degustação padrão normatizada com pontuação), isso ajudará a lembrar todos os detalhes.

Vinho “intruso”

A colocação de um vinho intruso (pegadinha) na lista, torna a degustação muito mais interessante. Algumas sugestões:

  • Colocar um vinho “intruso” que não faça parte da lista  e que seja de uma faixa de preço diferente dos demais (pode ser mais caro, ou mais barato).
Flight
Degustação de vinhos italianos até R$ 100,00. O “Intruso” foi um Sassicaia 2012, que ficou em segundo lugar.
  • Se o tema for vinhos de determinada região, colocar um vinho “intruso” de outra.
  • Utilizando taças negras ou tapa-olhos, colocar um vinho branco encorpado “intruso” entre vinhos tintos.
Luiz Argenta
Degustação às cegas, com vinho branco como “Intruso”, realizada na Cave da Vinícola Luiz Argenta

Diversas outras possibilidades podem ser exploradas e os resultados na maioria das vezes será surpreendente. Há várias histórias de degustações com esses “intrusos”, que modificaram preços e estoques de vinhos no mercado, tamanho seu impacto e repercussão.

Enfim, a degustação às cegas faz com que agucemos nossos sentidos, ao prestar mais atenção no que estamos provando e que fiquemos isentos de pré-conceitos relativos ao produtor, casta, safra, pontuações e preço. A inclusão dos ‘intrusos” ajudará, ainda mais,  o desenvolvimento da capacidade de avaliação, quebrando paradigmas.

Reginaldo Azevedo é sommelier profissional pela Associação Brasileira de Sommeliers (ABS – São Paulo). Se estiver interessado no assunto e quiser saber mais detalhes, escreva para reginaldotfazevedo@gmail.com

14 comentários em “Degustação às Cegas Parte 3 – O “Intruso” na Degustação ás Cegas

  1. Muito interessante. Sempre havia associado a degustação às cegas com provas de vinhos ou campeonatos de paladar. Boa ideia essa de se fazer uma degustação às cegas mais caseira, acessível e informal. A inserção do vinho intruso deve ser bem divertida mesmo. Excelente post, tio Rê.

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  2. Degustação às cegas é o melhor dos aprendizados no mundo vinícola, pois aprendemos a nos desfazer de preconceitos! Parabéns pela iniciativa do blog que me foi apresentado hoje pela Ana Lucia (que também comentou sobre esse mesmo post acima)!

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  3. Muito legal!
    Acrescentaria ainda outro aspecto: como nossa percepção sofre interferências conforme a sequência que provamos. É o que tenho observado pela minha experiência.
    Tenho a impressão que as papilas fiquem impactadas na série e mesmo um vinho tecnicamente pior não seja tão mal avaliado por estar entre os bons, nem um vinho de alta qualidade possa se sobressair tanto quando incluído entre vinhos medianos.
    Além disso, deixar o intruso para o fim pode dar um resultado diferente daquele que ocorreria quando ele fica no início da série.
    Então concluo que a ordem dos fatores pode, numa degustação, alterar o resultado final e que o intruso tende a ser ajustado à média dos demais.

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