Como Enganar Especialistas e os Consumidores de Vinhos.

Amigos,

Nem sempre é fácil distinguir um vinho bom de um vinho ruim. Trata-se de uma classificação até certo ponto subjetiva e cercada de fatores que influenciam essa análise como principalmente pré-conceitos e preços.

Basta vermos as médias no Vivino dos vinhos mais caros! Quantas e quantas vezes eu não vejo avaliações superlativas baseadas no preço da garrafa. Difícil é dizer que o caro não agradou!

Portanto é um grande erro pensar que o vinho é um elixir complicado, cheio de sabores sutis que somente um especialista pode realmente distinguir e provadores experientes são imunes ao engano. A verdade é que especialistas em vinhos e consumidores podem ser enganados da mesma maneira por se alterar (ou até manipular) suas expectativas. Isso explica o sucesso dos grandes falsificadores de vinhos como os mostrados no Post abaixo.

Os Vinhos Mais Falsificados do Mundo

A degustação de vinhos é um grande negócio para muitas pessoas. Pode até ser uma carreira profissional. Ela se iniciou há milhares de anos, mas a versão moderna com toda a terminologia, como anotações, lágrimas, integração e conectividade, remonta a algumas centenas de anos. Os degustadores de vinho mencionarão todo tipo de coisas que podem provar em um bom vinho, como se fossem um espectrógrafo humano com a capacidade de sentir a composição molecular de sua bebida. Os experimentos abaixo mostram, no entanto, que essa percepção pode ser alterada e enganada e pode estar completamente errada.

Em 2001, Frederic Brochet realizou dois experimentos na Universidade de Bordeaux.

Em um experimento, ele reuniu 54 estudantes de graduação em enologia e os fez provar um copo de vinho tinto e um copo de vinho branco. Ele pediu que descrevessem cada vinho com o máximo de detalhes que seus conhecimentos permitissem. O que ele não disse a eles foi que tratava-se do mesmo vinho. Ele acabara de tingir o branco de vermelho. Nenhum dos 54 estudantes soube dizer que tratava-se na verdade de um vinho branco, todos descreveram os tipos de frutas, uvas e taninos que podiam detectar no vinho tinto, como se realmente fosse tinto.

tinto1

No outro experimento, ele pediu aos especialistas que classificassem duas garrafas diferentes de vinho tinto. Um era muito caro, o outro era barato. Mais uma vez, ele os enganou. Desta vez ele colocou o vinho barato em ambas as garrafas. Os estudantes classificaram o vinho barato na garrafa de rótulo caro (falsificado) como complexo e arredondado. Ao mesmo tempo, classificaram o mesmo vinho na garrafa como sem corpo e acidez.

falso2

Outro experimento na Cal-Tech colocou cinco garrafas de vinho uma contra a outra. Eles variavam de preço de US $ 5 a US $ 90. Da mesma forma, os pesquisadores colocam vinho barato nas garrafas caras, mas desta vez eles colocam os degustadores em um scanner cerebral. Enquanto degustavam o vinho, as mesmas partes do cérebro se acendiam na máquina toda vez, mas com o vinho que os provadores consideravam caro, uma região particular do cérebro tornou-se mais ativa.

Outro estudo fez com que os degustadores classificassem queijo harmonizado com dois vinhos diferentes. Um deles foi dito que era da Califórnia, o outro da Dakota do Norte. O mesmo vinho novamente estava em ambas as garrafas. Os provadores classificaram o queijo que comiam com o vinho da Califórnia como sendo de melhor qualidade, e comeram mais.

Caro

Então, o mundo chique de degustação de vinhos é todo pretensioso? Não exatamente. Os provadores de vinho nos experimentos acima estavam sendo influenciados pelo desagradável “monstro” da expectativa. A objetividade e os poderes do paladar de um especialista em vinho sob circunstâncias normais podem ser surpreendentes, mas as manipulações de Brochet do ambiente enganaram seus alunos o suficiente para diminuir sua perspicácia. A expectativa de um especialista pode agir como criptonita em seus superpoderes. A expectativa, como se vê, é tão importante quanto a sensação crua. A construção de uma experiência pode mudar completamente como você interpreta a informação que chega ao seu cérebro a partir de seus sentidos objetivos. Na psicologia, a verdadeira objetividade é praticamente considerada impossível. Memórias, emoções, condicionamentos e todo tipo de experiência negativa contaminam cada nova experiência que você ganha. Além de tudo isso, suas expectativas influenciam fortemente o voto final em sua cabeça sobre o que você acredita ser a realidade. Então, ao provar um vinho, assistir a um filme, ir a um encontro ou ouvir um novo aparelho de som por meio de cabos de áudio de US $ 300, parte do que você experimenta vem de dentro e alguns vêm de fora. Vinho caro é como qualquer outra coisa cara, onde a expectativa de que se trata de algo melhor, realmente o fará melhor.

 

Fonte:
https://www.theatlantic.com – ‘You Are Not So Smart’: Why We Can’t Tell Good Wine From Bad

20 comentários em “Como Enganar Especialistas e os Consumidores de Vinhos.

  1. Um dia, fizemos provas de três vinhos tintos em taças diferentes. O mesmo vinho foi servido em três tipos de taças: Bordeaux, Borgonha e vinho branco. Em nenhuma delas os aromas do mesmo vinho eram iguais. Por incrível que pareça até o sabor foi influenciado por conta dos aromas. Na minha opinião a taça que mais entregou aromas e sabores foi a Bordeaux. Realmente, esse tema deve ser levado a sério. Bela matéria, Sitta!

    Curtido por 1 pessoa

  2. Realmente uma questão bastante delicada, na medida em que muitos degustadores, especialmente os amadores, pensam estar imunes ou isentos aos fatores que, inconscientemente, nos sugerem gostar mais ou menos de um vinho, ou avaliá-los de forma mais positiva ou negativa. Recentemente, em degustação às cegas com vinhos chilenos, alguns de alta gama, dois ícones chilenos ficaram na metade de baixo da tabela. Um deles recebeu 100 pts de um crítico. Enfim, um tema muito relevante e oportuno Sitta. Parabéns!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Pois é Luis. A degustação às cegas faz exatamente o contraponto dessa situação. Incrível como uma simples mudança de taças pode influenciar na avaliação.

      Curtir

  3. Parabéns pelo tema! Frente a vasta gama de fatores que influenciam nossa percepção do vinho, deve-se notar q não existe o dono da verdade, talvez estejamos valorizando demais críticos e deixando de simplesmente termos prazer em beber um vinho em ótimas companhias. Grande momento para reflexão!

    Curtido por 1 pessoa

  4. Sitta… muito bom o tema. Acho que bate aquele medo de dizer que o “rei está nú” depois de pagar US$ 200 numa garrafa… aí é um desfile de elogios rasgados prá justificar a fatura do cartão. Pura hipocrisia! Vou repensar a “programação mental” na próxima “garrafa incrível” que eu derrubar…

    Curtido por 1 pessoa

    1. Exato. Uma vez tomei um Seminare que custa 600 reais aqui no Brasil. Detestei e publiquei, mesmo assim acho que dei uma nota ruim mas maior do que o vinho merecia.

      Curtir

  5. Excelente artigo Sitta. Vc sabe que já sou crítico há tempos dessas avaliações de enólogos “notáveis”. Muitos aspectos influenciam o vinho temperatura, guarda em local apropriado, transporte e outros já citados aqui.

    Curtido por 1 pessoa

  6. Muito interessante e de ótima escolha essa Matéria! Parabéns Sitta! Eu sou apenas um apreciador e confesso que fico empolgado e com alta expectativa nos vinhos pontuados pela crítica e geralmente com preços mais caros mas procuro ser bem sincero com meus sentidos. Sou usuário do Vivino e se não me agradar ou não valer o preço pago eu falo mesmo, coloco minhas impressões e principalmente o custo benefício. Acredito que como todos nós apaixonados pelo vinho já tivemos gratas surpresas e também muitas decepções… Abrir a garrafa de um vinho conceituado é sempre muito excitante mas procurar ser isento na hora da prova e ser sincero com os sentidos, pra mim é essencial.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Pois é Paulo. Mas nem todos são tão isentos. Parabéns pela postura.
      Agora, todos corremos o risco de ser enganados, eu mesmo já fui por algumas vezes. Tínhamos uma pessoa na turma que costuma trocar o vinho da garrafa por outro mais barato e servir nas confrarias. Até que provamos que isso acontecia muitos foram enganados.
      Abraços e obrigado pelo comentário

      Curtir

  7. Sem dúvida o caminho para diminuir as influências de rótulo, preço e avaliações de especialistas, é a prática constante em degustações às cegas de vinhos de diferentes categorias e estilos. Sempre achei que a grande diferença de vinho para outras bebidas alcoólicas é a surpresa que cada garrafa deve nos proporcionar. Tento o tempo todo incentivar as pessoas a provarem novos estilos de vinhos sem preconceitos, porque logicamente o gosto não pode ser único. Existe uma questão pessoal e individual, que faz com que lhe agrade mais um determinado tipo de vinho do que outro, tal como odiar ou amar coentro.
    Importante entender a lógica de estilo, qualidade e preço. Acho que você poderia escrever sobre isso num próximo post.
    Parabéns e continue nos brindando com bons assuntos.
    Abraço!

    Curtido por 2 pessoas

    1. Regi.
      Refaço o convite para você escrever sobre o assunto. Com certeza seria mais uma grande contribuição para o Blog.
      A propósito, excelente comentário!!

      Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s