Jerez, Por Que Não? – Parte 1

Amigos, 
Nova contribuição do Confrade e Profissional do Mundo do Vinho, Reginaldo Azevedo, que nos traz a história e o detalhes sobre os vinhos Jerez. Boa leitura a todos!!

Você sabia que Xerez, Jerez e Sherry são três denominações atuais, para a mesma bebida? Provavelmente você já deve ter lido algum livro de autor estrangeiro no qual um personagem tomava uma taça de Sherry. Vamos contar de uma maneira simplificada, um pouco de sua história, onde é produzido, quais os processos utilizados, os diversos tipos e denominações, algumas harmonizações e serviço adequado, desse vinho que tem alguns apaixonados (me incluo nesse grupo) e ainda pouco conhecido no Brasil.

Jerez 1

Se mil filhos tivera, o primeiro princípio humano que lhes ensinaria, seria fazê-los abjurar de toda bebida insípida e dedicar-se por inteiro ao Jerez” (Enrique IV – Shakespeare)

Durante o mês de outubro comemoramos a Semana do Jerez em todo o mundo. Basicamente, Jerez é um vinho branco fortificado com um processo de envelhecimento,  que não é único, mas que lá, tem sua máxima expressão no mundo.

Breve História.

O Jerez tem aproximadamente 3.000 anos de história, que se inicia com os fenícios introduzindo o cultivo de uvas na Espanha e com a fundação de Xera em 700 a.C.

Columela, que pode ser considerado o primeiro agrônomo da história (por volta de 200 a.C.), possuía uma propriedade em Ceret (antiga Xera, atual Jerez de la Frontera). Os vinhos lá produzidos começaram a ganhar popularidade e ser exportados. O lendário vinum Ceretiense, muito popular na Roma antiga, era um Jerez.

Com a invasão islâmica no ano de 711 d.C., a região recebeu grande influência cultural por mais de 500 anos, passando a ser conhecida com La Tierra de Sherísh. O cultivo das uvas para produção de passas para alimentação e obtenção de álcool para uso medicinal prosseguiu, mas o consumo do vinho se restringiu a pequenos grupos de elite (os sarracenos não eram muçulmanos e por isso era permitido o consumo de álcool).

Com o final da dominação islâmica em 1264, volta-se a produzir vinho em grande quantidade. Em função de seu método de produção (vinho fortificado, assim como o vinho do Porto), a Inglaterra torna-se um grande consumidor (Sherry), e com isso no século XIX já são fundadas algumas das vinícolas mais conhecidas nos dias de hoje, como Pedro Domecq (1812), Gonzalez Byass (1835) e Williams & Hubert (1877).

Jerez 2

Jerez 3
Barrica de 600 litros de carvalho usado, chamada de bota. São pintadas de preto  por tradição.

Região de Produção, Solo, Clima – El Marco de Jerez.

O Jerez é a D.O. (Denominação de Origem) mais antiga da Espanha. Toda garrafa é obrigatoriamente identificada individualmente.

Os vinhos de Jerez só são produzidos na região vitivinícola conhecida como “El Marco de Jerez” situada num triângulo formado pelas cidades de Jerez de La Frontera, Sanlúcar de Barrameda e El Puerto de Santa Maria, no extremo sul da Espanha.

Jerez possui características especiais de clima e solo. Tem em torno de 300 dias de sol por ano, com invernos moderados (4oC) e verões bem quentes (40oC), com moderada quantidade de chuvas e os ventos “Levante” (quente e seco) e “Ponente” (frio e úmido).

Os vinhos superiores são produzidos no solo típico da região, chamado de Albariza, que é extremamente branco (nos dias de sol  é melhor usar óculos escuros para olhar para ele, por conta da claridade refletida), formado a partir da sedimentação de algas diatomeas, com alto nível de carbonato de cálcio (giz) e pobre em matéria orgânica e nitrogênio. Esse solo tem alto grau de retenção de umidade, o que possibilita o desenvolvimento das videiras, apesar da pequena quantidade de chuva durante a temporada de crescimento..

Jerez 4
Albariza – solo típico da região do Marco de Jerez

Uvas.

Existem três variedade de uvas autorizadas, sendo que a principal é a Palomino. As outras duas são a Moscatel (usada para vinhos doces naturais) e a Pedro Ximénez (secada e usada para vinhos doces naturais).

 

 

 

Vinificação e Envelhecimento.

Vinifica-se um branco seco neutro chamado de vinho base com 11 a 12 GL. Nos meses de outono são classificados em dois tipos. Os mais leves, mais pálidos e mais refinados criam a flor de leveduras (véu de leveduras) na superfície após 6 a 8 meses da fermentação. A flor de leveduras protege o vinho da oxidação, pois forma uma espécie de tampa na superfície do vinho. Ele é fortificado com álcool até 15 GL. Esse processo é chamado de Crianza Biológica.

 

 

Os vinhos base mais escuros, mais ricos e mais pesados são fortificados com álcool a 17 GL. Dessa forma o véu de leveduras não se forma pois acima de 16 GL as leveduras morrem. O vinho estará em contato permanente com o oxigênio durante seu envelhecimento, pois os barris têm capacidade de 600 litros (botas) e são preenchidos com apenas 500 litros de vinho. Este processo é chamado de Crianza Oxidativa.

Solera: mecanismo de barris com envelhecimento permanente do vinho. Método onde o vinho que é engarrafado é obtido de uma fila de botas (barricas) que está sobre o solo (daí o nome de solera), a qual contém os vinhos mais velhos. A quantidade retirada das soleras é reposta pelo vinho mais jovem que está na fila de cima da solera (primeira criadera), e esta é resposta pelo vinho ainda mais jovem que está na segunda fila de cima da solera (segunda criadera), e assim sucessivamente. Desse modo se mantém a qualidade e homogeneidade ano após ano.

O tempo mínimo de envelhecimento (crianza) de qualquer tipo de Jerez é de dois anos, podendo chegar acima de 30 anos. Assim como o vinho do Porto temos classificações especiais de idade, como VOS 20 anos, VORS 30 anos, por exemplo.

 

 

Serviço:
Algumas importadoras onde você pode encontrar vinhos de Jerez:
Decanter – enotecadecantersp.com.br
Mistral – mistral.com.br
Vinissimo Importadora – vinissimostore.com.br
Reginaldo Azevedo é sommelier profissional pela Associação Brasileira de Sommeliers (ABS-São Paulo) – WSET Level 3 (Wine, Spirits, Education Trust)
Se estiver interessado no assunto e quiser saber mais detalhes, escreva para reginaldotfazevedo@gmail.com
Me siga no instagram: @vinhos_com_alma

27 comentários em “Jerez, Por Que Não? – Parte 1

  1. Excelente texto meu amigo Regi !!! Se vc me permitir contribuir, o envelhecimento via solera é que fica restrito à tríade Jerez de la Frontera, Sanlucar de Barrameda e Puerto de Santa Maria. É isso aí amigo !!! Vamos difundir o mundo do vinho !!! Parabéns !!!!

    Curtido por 2 pessoas

  2. Parabéns, e obrigada pela excelente aula, Reginaldo! Muito interessante conhecer a história e todo trabalho que existe por trás dessa, que é considerada “a bebida dos deuses”!
    Aguardando a próxima aula!

    Curtido por 2 pessoas

  3. Que texto didático! A leitura flui. Achei super interessante a parte da história e a explicação sobre vinificação e envelhecimento. Posso testemunhar que depois de ter provado o Jerez uma noite dessas em ótima companhia, também me apaixonei pelo vinho. Parabéns!!!!

    Curtido por 2 pessoas

  4. Como sempre, um ponto de vista muito instrutivo e interessante. História, técnica e prazer pelo vinho foram tópicos apresentados que, com certeza, me cativaram a apreciar com outros olhos meu próximo Jerez. Muito obrigado por mais esse conteúdo, Reginaldo. Parabéns pelo trabalho.

    Curtido por 2 pessoas

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s