Jerez, um Vinho Muito Singular

Olá,
É com imenso prazer que anuncio a primeira contribuição para o Blog do amigo e confrade Renato Nahas. Ele tem larga vivência no mundo dos vinhos e grande conhecimento técnico e é instrutor da ABS. O texto fala sobre os vinhos de Jerez, aproveitando o início da Sherry Week hoje. Espero que seja a primeira de muitas contribuições do Renato!!
Boa Leitura!

Os vinhos do Jerez, denominação de origem localizada na Andaluzia, sul da Espanha, são singulares. Uma combinação única de história, forma de produção, condições climáticas e, acima de tudo, tradição explicam essa particularidade. Nesse período do ano em que é celebrada a Sherry Week, ou semana do Jerez (de 04-11 de novembro), vale a pena explorar as razões que fazem do Jerez um caso tão singular e fascinante no universo do vinho.

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A História do Vinho:

Entender a história é fundamental para entender o Jerez. Começamos pelo nome. Afinal é Jerez ou Sherry? Ou melhor, será que Jerez e Sherry são a mesma bebida? Para explicar isso, faz-se necessário dar um passo atrás, para entender o que a história tem a nos ensinar.

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A região onde está localizado o “Marco de Jerez”, região delimitada que produz o vinho em questão, ocupa um território estratégico na história da civilização ocidental. Localizada no extremo sul da Europa, na Península Ibérica, a região é banhada pelo Oceano Atlântico e o Mar Mediterrâneo. Apenas 14 km separam a Espanha do Marrocos, na África. Dada essas condições geográficas, ao longo de sua história, uma série de povos passaram pela região, ocupando-a e deixando suas marcas e influências.

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Os Fenícios introduziram o cultivo de uva na região (Cádiz 1.000 a.C e Xera 800 a.C). Há registros de atividades vinícolas ininterruptas de todas culturas posteriores que dominaram a região, Gregos, Cartagenos e, principalmente, dos Romanos.

O Romano Columela, o primeiro Engenheiro agrícola da história, teve uma finca em Ceret (antigo nome de Jerez). Os vinhos lá produzidos gozavam de grande popularidade em Roma, para onde eram exportados e conhecidos como Vinum Ceretiense. Começou aí uma vocação importante da região: a exportação.

Após a queda do império romano, a região da Península Ibérica foi ocupada por povos mulçumanos, oriundos da África e a região passou a ser foi conhecida como “A terra de Sherish” (uma boa pista de onde surgiu o termo “Sherry”). No século 15, os Mouros foram expulsos e a região, por sua localização estratégica, passou a ocupar um lugar de destaque nas grandes navegações. Foi de lá que Cristovão Colombo partiu, em 1492, rumo ao continente americano.

Como o vinho era um item essencial na alimentação das tripulações e como a região de Jerez era um ramal logístico importante, surgiu uma grande demanda pelos vinhos da região, que passaram a abastecer os navios de diferentes nacionalidades. Foi nesse período que o vinho da região passou a gozar de enorme prestígio na Inglaterra, onde era conhecido como “os vinhos de sherish” e que mais tarde virou Sherry.

Dessa forma, Jerez e Sherry são sinônimos. Na década de 1930, quando foi criada Denominação de Origem do Jerez, os dois nomes foram registrados, pois já naquela ocasião eram observados usos indevidos do nome e falsificações. Assim, na Espanha e em algumas partes do mundo, como o Brasil,  o nome do vinho é Jerez, em outras como a Inglaterra e Estados Unidos, o nome é Sherry.

Os Tipos de Jerez:

O Jerez (ou Sherry) é um vinho de grande diversidade. Há os secos que passam pelo envelhecimento biológico (Fino e Manzanilla) ou Oxidativo (Oloroso, Amontillado e Palo Cortado). Os vinhos secos são, de longe, os mais consumidos na Espanha e em todos mercados, com exceção do Reino Unido e Países Baixos, que preferem o Jerez doce. Curioso observar que essa particularidade de consumir mais o tipo doce de Jerez surgiu em Bristol, Inglaterra. Visando ampliar o consumo, um distribuidor local resolveu misturar o vinho seco com o doce, criando um estilo que encantou o público local. E passou a ser conhecido como o “Bristol Milk”, o que é uma grande ironia, pois não há nenhum rastro de leite na bebida.

Voltando a história, exportar vinhos em épocas remotas, como no período das grandes navegações, era um enorme desafio. As precárias condições de transporte e inexistência de processos de estabilização na vinificação, gerava vinhos que oxidavam e perdiam suas qualidades em pouco tempo. Para contornar isso, os produtores recorriam a fortificação, que nada mais é do que a adição de álcool durante a fermentação. Como consequência, os vinho tornam-se resistente a oscilações de temperatura e demais fatores que poderiam prejudica-lo. O mesmo processo acontece no Vinho do Porto.

Por conta disso, os vinhos de Jerez tornaram-se muito populares e exportados mundo afora. Porém os vinhos não eram envelhecidos, pois a demanda era elevada e toda a safra era vendida tão logo era vinificada.

A partir do final do século 18, um grande número de comerciantes ingleses, bem como espanhóis que retornavam da América após a independência das antigas colônias, se estabeleceram na região. Com a chegada desses comerciantes, em conjunto com a exigência dos mercados consumidores cada vez mais exigentes, surgiu a necessidade de aprimorar a qualidade do vinho e sua consistência ao longo de diferentes safras. Para responder a essa demanda a região inovou e criou o famoso processo de envelhecimento conhecido como Solera. Vinhos de safras diferentes são misturados com o objetivo de criar um líquido homogêneo. Vale registrar que se trata do mesmo conceito utilizado na região de Champagne.

 

 

Mas Jerez tem uma outra particularidade em seu processo de produção. Dada as condições climáticas únicas da região, as leveduras locais formam uma espécie de filme sobre o líquido durante a fermentação, conhecida como flor. A flor protege o vinho do contato como o oxigênio, e portanto evita oxidação. Durante o processo de envelhecimento, novas parcelas de vinhos são adicionadas ao barril (para substituir o que foi retirado – o chamado sistema solera), fornecendo nutrientes para as leveduras que consomem toda a glicerina do líquido, liberando como subproduto o acetaldeído, substância que lembra o removedor de unha, é gerando um vinho extremamente seco, de pouco corpo, mas com grande intensidade de sabor. Os  aromas apresentam toques pungentes, amendoados e salinos. Esse tipo de Jerez é conhecido como Fino e Manzanilla. Há também o Jerez oxidado, que também é envelhecido no sistema de solera e que mostram uma coloração que caminha para o âmbar e castanho. Seu aroma é intenso, com toques amendoados, com boa torrefação e uma série de outros aromas terciários.

A diversidade do Jerez o qualifica com um dos vinhos mais versáteis para acompanhar pratos diversos. No site do Consejo Regulador de Jerez há uma relação de harmonizações sugeridas. Vale a pena explorar pois, pratos que raramente encontram vinhos capazes de harmonizarem, como ovo e alcachofra, podem muito bem serem combinados harmonicamente com vinhos de Jerez.

Construído numa antiga bodega do século 19 em Jerez, o restaurante La Carboná (http://www.lacarbona.com) oferece menus de até 9 pratos, todos eles preparados e harmonizados com os vinhos locais. É um deleite e uma das melhores experiências enogastronômicas que já tive a oportunidade de vivenciar.

E para quem quiser saber um pouco mais sobre os vinhos de Jerez, o Blog tem dois outros artigos e os links estão abaixo:

Jerez, Por Que Não? – Parte 1

Jerez, Por Que Não? – Parte 2

Renato Nahas é um apaixonado por Jerez e, em setembro de 2019, foi certificado como Formador homologado de Jerez, pelo Consejo Regulador de Jerez. Sommelier formado pela ABS-SP é instrutor nessa instituição. Possui também as certificações WSET3, FWE e CWS.

 

 

 

9 comentários em “Jerez, um Vinho Muito Singular

  1. Belíssimo artigo. Parabéns, Renato e Rodrigo pela matéria. Uma pena que esses vinhos tão complexos e gastronômicos não sejam tão conhecidos no Brasil. Essa semana do Sherry tem alguns eventos em SP já agendados. Vale conhece-los e participar.

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  2. Até semana passada não tinha degustado um Jerez ou Sherry, nesta grande variação de vinhos que temos alguns específicos de uma certa região com similaridades acabam por ser os escolhidos quase sempre. Mas foi o tal Jerez oxidado minha experiência. Além do texto que carrega esta bela história e isso é o que me atrai nos vinhos, logicamente após degustá-los, a experiência que tive foi inusitada e atraente, neste caso não passei de meia taça, mas de tudo ficou mais um momento marcante deste mundo tão rico. Parabéns pela matéria e abraços ao Renato que com precisão enriqueceu meu conhecimento .

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