Desafio Chile x Argentina – Parte 2

Olá,
Conforme eu havia escrito aqui há alguns dias, o confrade Ivan Ribeiro também realizou um desafio entre vinhos Malbec do Chile e da Argentina. O resultado e algumas curiosidades apresentaremos abaixo. A para quem ainda não leu a parte 1 desse desafio, o link está a seguir:

Desafio Chile x Argentina – Parte 1

Durante a 48º Exposição Agropecuária de Itapetinga na Bahia, no Stand dos Criadores de Mangalarga, fui convidado para ministrar uma palestra sobre vinhos e criar algo interessante sobre o tema. Sugeri então que fizéssemos um embate entre a casta Malbec do Chile e da Argentina, com dois vinhos excelentes e com processo de vinificação semelhante, inclusive no tempo e tipo de barrica.

Por mais que pareça inusitado um evento de vinhos numa Exposição Agropecuária, tornou-se corriqueiro e já estamos na segunda edição, planejando o terceiro evento para 2020.

No evento tratamos das características da Malbec, sua origem, sua evolução no Chile e na Argentina, e as características dos dois Terroirs da Viu Manett e da Terrazas.

Origem da Malbec

A origem do Malbec encontra-se no sudoeste da França, onde também é conhecida como Côt. Ali era cultivada e com ela se elaboravam vinhos denominados de “Cahors”, devido ao nome da região, reconhecidos desde os tempos do Império Romano. Estes vinhos foram consolidados na Idade Média e acabaram de se fortalecer na modernidade.

A conquista do mercado inglês foi um passo decisivo na valoração desta cepa na Inglaterra e no mundo. No final do século XIX, a praga de filoxera destruiu a viticultura francesa deixando o “Cot” no esquecimento, porém, a cultura de apreciação do Malbec já havia sido construída.

Na Argentina:

A uva Malbec chegou à Argentina em 1853, pela mão do francês Michel Aimé Pouget (1821-1875), agrônomo contratado por Domingo Faustino Sarmiento para levar adiante a direção da Quinta Agronômica de Mendoza. No final do século XIX, e pela mão dos imigrantes italianos e franceses, a vitivinicultura cresceu exponencialmente e, com ela, o Malbec, que rapidamente se adaptou aos diversos terrois da Argentina, inclusive, se desenvolveu melhor do que em sua região de origem. Desta forma, com o passar do tempo e com muito trabalho, perfilou-se como uva insigne da Argentina tendo, já há alguns anos, o dia 17 de Abril como o dia da Uva Malbec (Malbec Day) instituído para celebrar a transformação dessa casta na vitivinicultura da Argentina.

Malbec World Day – Degustação da Wines of Argentina.

No Chile:

A vitivinicultura começou a ser instalada no Chile em meados do Século XVI, com a plantação da Uva Espanhola de nome País.

Com o tempo e com as viagens, cada vez mais presentes no século XIX, com o inicio do intercâmbio cultural dos Chilenos pelo mundo, a busca por vinhos cada vez melhores e de mais agrado ao palato foram se tornando exigências entre os Chilenos. Nessa época, foram plantados novos vinhedos com outras variedades (Malbec, Cabernet Sauvignon, Merlot, entre outras).

Malbec é uma variedade que os antigos enólogos chilenos usavam para melhorar mesclas e dar cor, mas nunca foi considerada suficiente para produzir um vinho varietal, como a Cabernet Sauvignon ou Merlot, por exemplo. Quando o Chile começou a modernização de seus vinhedos, muitas vinícolas começaram a arrancar seus vinhedos de Malbec. E, no caso da Viu Manent, foi um momento para apostar no Malbec, um dos vinhedos antigos da vinícola com mais de 80 anos e que dava, ano a ano, os melhores vinhos da bodega. A Viu Manent foi a primeira vinícola chilena a etiquetar um vinho como varietal de Malbec, em 1992. Logo começou a melhorar a qualidade e técnicas vitícolas e enológicas, até chegar à colheita de 1999, a primeira edição de Viu 1, que saiu com 90% de Malbec.

Os Participantes do Desfaio:

Os vinhos escolhidos para esse embate foram o Viu Manent Single Vineyard 2009 e o Terrazas Single Vineyard Las Compuertas 2012.

As séries de vinhos Single Vineyard são extraordinários exemplos da definição de sua região e de sua variedade, isto contribui à complexidade e personalidade de cada vinho.

No caso da Viu Manent correspondem a pequenas produções elaboradas com as melhores uvas da vinícola, provenientes de setores específicos dos seus três vinhedos localizados no Valle de Colchagua. Rendimentos controlados, fruta muito madura e concentrada e colheita à mão, são a origem destes vinhos de características diferenciadas que envelhecem em barris franceses por um período de 14 a 18 meses.

No caso do vinho deste desafio, as uvas provém dos melhores setores dos quarteis 5 e 6 de Malbec do Fundo San Carlos, localizado nas proximidades de Cunaco, no coração do Valle de Colchagua. O vinhedo foi plantado há mais de 100 anos.

Viu Manent Single Vineyard 2009: cor cereja intensa e brilhante, a complexidade deste vinho aparece no nariz com notas de ameixa, flores silvestres e violetas além de um inconfundível e complexo aroma a couro. Uma vez no paladar o vinho é saboroso e tem grande caráter com essa amabilidade que alguns grandes Malbec possuem, um paladar longo e um potencial de adega muito grande considerando seu preço. Ideal para beber com carnes grelhadas como a carne de gado ou cordeiro entre 16 e 18 graus e decantado.

 

No caso da Terrazas, os vinhedos estão rodeados pelos picos altíssimos dos Andes,  e ficam nos vales de Luyan de Cuyo e do Uco, bem no coração de Mendoza. Os vinhos produzidos nessa belíssima vinícola são a história do envolvimento com a terra, onde são empenhadas as forças extremas da natureza para criar uma harmonia única.

Com baixos índices pluviométricos e solos rochosos bem pobres em elementos orgânicos, o clima de altitude elevada força as videiras a trabalhar em dobro para conseguirem hidratação e nutrientes. Por causa disso, as uvas desenvolvem sabores intensos e concentrados.

O fato de estarem no alto das montanhas significa que há dias quentes e ensolarados nos quais as uvas prosperam, seguidos por noites gélidas que desaceleram o amadurecimento. Ainda assim, os níveis de acidez continuam sendo limitados. A seleção da altitude mais adequada para cada variedade, que cria uma bela paisagem com vários terraços, serve para chegarem na expressão mais pura de cada vinho.

Após analisar todas as especificidades das terras, são selecionados cada parcela para explorar o aroma de cada variedade de uva, da melhor forma possível. A configuração em terraços possibilita que trabalhem, não apenas com um terroir, mas oito “micro-terroirs”, o que ajuda a criar uma expressão extremamente diversificada do vinho.

Lançado apenas nos anos mais excepcionais, esses vinhos são originários de dois dos vinhedos mais valorizados das terras de Mendoza: as propriedades de Las Compuertas e Los Aromos.

Terrazas Single Vineyard Las Compuertas 2012: Esse belíssimo Malbec é produzido por viñas de mais de 80 anos, dentro de um dos melhores terroirs da Terrazas, o vinhedo Las Compuertas, que fica a mais de 1067 metros de altitude. Com 14,5% de teor alcoólico, esse vinho tem um poder de guarda de até 20 anos, tendo passagem de 16 a 18 meses de barricas novas de carvalho francês.

Conclusão:

Foi um belíssimo embate, tendo o Chileno ganhado com maestria e tendo evoluído melhor em taça do que o Argentino. No que pese a diferença de safras entre os vinhos degustados, o tempo de evolução em taça e a proposta apresentada, demonstraram uma melhor consistência do Viu Manent do que a Terrazas. Dois Malbecs excepcionais, que demonstraram os seus terroirs e suas características.

Eu, particularmente, sou fã da Malbec do Chilhe e da Cabernet Sauvignon da Argentina. Na minha opinião elas se adaptaram bem de forma inversa. E, nesse embate, em particular, ficou clara a evolução do vinho chileno e do argentino. Mesmo com 9 anos de vida, o Viu Manent tinha muita estrutura, boa acidez, frutas maduras, madeira bem integrada, harmonioso e elegante. O Terrazas, tinha frutas mais novas, com um toque de evolução inicial, frutas vermelhas vibrantes, equilibrado, com chocolate, leve tostado, e um retrogosto com leve toque dulçor.

Uma bela experiência. Valeu a prova.

IVAN RIBEIRO DO VALE JÚNIOR –
ADVOGADO – SOMMELIER – WSET NÍVEL 2.
EMBAIXADOR ISG – COLUNISTA DO BLOG VAOCUBO.
DuVale Wine Tasting.
@duvalewinetasting

4 comentários em “Desafio Chile x Argentina – Parte 2

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