Champagne: do Luxo à Tradição.

Amigos,
Durante essa semana, falaremos bastante sobre espumantes aqui no Blog, com a cobertura do 3º Festival do Espumante do Empório Frei Caneca. E para abrir a semana, estou muito feliz em anunciar a primeira colaboração do confrade Luiz Bernardes, que nos conta uma incrível história da região de Champagne nos tempos da 1ª Guerra Mundial. Boa leitura!!

A safra de 1914 era espetacular em qualidade. E, com os homens às armas, idosos, mulheres e crianças realizavam o trabalho nas vinhas geralmente à noite, sempre sob o sibilo das balas cruzando os ares e os trovões das bombas que caíam como gotas de uma impiedosa chuva.

Era setembro de 1914 e, a menos de 10km de Reims, a capital da Champagne, os alemães se instalaram nas famosas colinas do Departamento de Champagne-Ardénnes. Nas trincheiras defensivas montadas pelos franceses ao longo do Rio Marne desenrolava-se a Primeira Batalha do Marne.

Uma ofensiva para acabar com a guerra, liderada pelo Marechal Joseph Joffre, foi lançada ao final do mesmo ano. O fracasso pode ser medido em números: sem avanços territoriais e 100.000 soldados aliados mortos. Seis meses depois nova ofensiva levou mais 145.000 soldados. Em um único dia mais de 1.500 bombas caíram sobre a cidade de Reims. A belíssima e histórica Catedral de Notre-Dame de Reims foi reduzida a um esqueleto em chamas.

Catedral 1
Catedral em chamas
Catedral 2
Catedral em 1918

Enquanto as bombas explodiam sobre o famoso solo de calcário, os habitantes da região precisavam encontrar formas de se proteger. Diferentemente de Londres durante a Segunda Guerra, as pequenas cidades e vilas de Champagne não possuíam sistema de metrô para servir de abrigo. O patrimônio histórico formado pelas caves e crayères escavados no solo pelos romanos séculos antes e que servem para a guarda de milhões de garrafas de Champagne foi a chave para salvar seus habitantes.

Catedral 3
Declaração de amor em tempos de guerra na cave da Taittinger, em Reims

A cidade estabeleceu-se no subterrâneo e mais de 20.000 habitantes estabeleceram escolas, igrejas, clínicas, padarias, cafés, para manter a vida na melhor forma possível, a despeito da guerra acima. À noite, emergiam como criaturas sinistras com máscaras de gás para colher suas uvas e continuar fazendo seus vinhos.

Surpreendentemente as safras de 1915 e 1916 ocorreram. Mas foram bastante ruins. Os efeitos do gás sobre ar, solo e as próprias videiras foi desastroso. A chuva também foi volumosa na vindima de 1916, trazendo fungos e impedindo o amadurecimento adequado das uvas.

O ano de 1918 foi marcado por uma contraofensiva alemã, conhecida como a segunda Batalha do Marne. Isso prejudicou sobremaneira o manejo e a colheita. Ainda assim, houve safra. O suficiente para celebrar o fim da guerra, no dia 11 de novembro de 1918. O saldo foi a catastrófico com a perda de mais de 17 milhões de vidas; mais de meio milhão perdidas nas batalhas nos arredores de Reims. Marte jogou seus dados sobre o tapete de giz: todos perderam.

O Champagne, visto como símbolo de luxo e celebração, foi uma obra de resistência, uma maneira de manter viva a tradição local. Uma verdadeira questão de sobrevivência. O luxo era manter a vida e a tradição. E os habitantes de Champagne conseguiram.

Luiz Bernardes
Amante dos Vinhos e Viagens | Entusiasta de Champagne | WSET3
Fontes:
White, DAVID. But first, Champagne. A modern guide to world´s favorite wine. New York: Skyhorse Publishing. 2016.
https://www.theatlantic.com/photo/2014/04/world-war-i-in-photos-the-western-front-part-i/507197/

6 comentários em “Champagne: do Luxo à Tradição.

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