Um Novo Vinho Chileno – Parte 4

Amigos,
Chegamos a parte 4 do artigo onde falaremos das inovações que geram vinhos de grande caráter. E pra quem ainda não viu as primeiras partes, o link está abaixo:

Um Novo Vinho Chileno – Parte 1

Um Novo Vinho Chileno – Parte 2

Um Novo Vinho Chileno – Parte 3

Durante as visitas e degustações, muitas novidades foram observadas. Meu objetivo maior era comprovar se o discurso e a prática estavam realmente alinhados.

A Constante Busca por Novos Terroirs

Essa tem sido uma das bandeiras da indústria vitivinícola Chilena e foi fácil comprová-la.

No extremo Sul do Chile, na região Austral, sub-região Osorno, encontra-se o maior lago do Chile: o Lago Ranco.  As margens desse lago, a Casa Silva produz vinhos impressionantes, num estilo Velho Mundo, de Sauvignon Blanc, Riesling e Pinot Noir.  Todos muito equilibrados, com acidez marcada, sem fruta sobre-madura, com complexidade de aromas, intensidade e notas minerais, que remetem a terroirs europeus dessas variedades (Sancerre, Mosel/Rheingau e Borgonha).  As medidas de ABV já dão uma pista do estilo: o SB com 12%; o Riesling com 11,5%; e o Pinot Noir com 13%.  A região é mais chuvosa (pluviosidade de 1.800 mm/ano) e a experiência de Mario Geisse no Sul do Brasil contribuiu muito para esse sucesso.

A Terranoble possui um Carmenere de Colchágua Costa (área mais fria), chamado de CA2.  Impressiona pelo equilíbrio e principalmente por ser de um clima mais fresco.  Provar lado a lado o CA2 e o CA1 (Colchágua – Andes) é uma experiência muito interessante.   Em Casablanca, a Terranoble tem produzido vinhos de altíssima qualidade.  O melhor Pinot Noir que provei, depois do Lago Ranco, foi o Gran Reserva Las Dichas, com somente 12,5% ABV.  O Sauvignon Blanc e o Chardonnay, da mesma linha, impressionam pelo equilíbrio e tensão, com fruta e acidez muito balanceadas.

Na Bouchon, no Vale do Maule, estão plantados dois de seus melhores vinhedos, na fronteira Oeste da Área Entre Cordilheiras, em uma faixa denominada Secano Interior, que possui solos antigos e graníticos (vinhedos Mingre e Batuco).  Neles são produzidos os vinhos da linha GRANITO, um branco Sémillon de solos antigos (com mais de 120 milhões de anos), absolutamente fantástico e um tinto, corte de Cabernet Sauvignon e Carmenere.  São vinhos muito elegantes, muito complexos, com notas minerais pronunciadas, toques defumados, de fumaça, salinos, de pedras molhadas e pedras moídas.  O corte tinto MINGRE (65% Carmenere, 25% CS e 10% Malbec) é outro exemplo incrível da força do terroir do Secano Interior.  Tinto elegante, com fruta pronunciada, sem exageros, com notas de tabaco e grafite.

 O Conhecimento dos Seus Terroirs

Muitos investimentos têm sido feitos para conhecimento detalhado de seus solos, microclimas e suas vinhas.  Vimos vários mapeamentos de solo, produzidos através de computadores com uso de sensores, drones, sob monitoramento constante, que mostram diferenças relevantes em uma mesma parcela com precisão de poucos metros de distância.  É possível identificar onde tem-se mais ou menos necessidade de água, onde a temperatura é mais alta, onde a incidência de luz é maior ou menor, onde é argila, onde é granito e assim por diante.

Com essas informações, os viticultores podem definir as melhores áreas para cada variedade, as necessidades de irrigação em cada setor, as podas adequadas, o momento correto da colheita, os melhores aspectos (orientações), permitindo que parcelas distintas, ao serem vinificadas da mesma forma, expressem espontaneamente suas diferenças (a expressão dos seus terroirs).

Na Bouchon, o enólogo Christian nos pediu para provarmos dois Cabernet Sauvignon diferentes, um de solo argiloso e outro de solo granítico, advindos da mesma vinha e nos pediu para comentarmos as diferenças.  E elas eram nítidas.  Um mais frutado, concentrado, enquanto o outro mais terroso e mineral.

Experimentos Múltiplos e Constantes

Essa tem sido outra frente importante da vitivinicultura Chilena.  Experimentar e experimentar, com o intuito de ganhar conhecimento e melhorar a qualidade dos produtos.  E realmente, os enólogos têm levado essa vertente muito a sério.

Na Bisquertt, o enólogo Felipe Gutiérrez nos apresentou em primeira mão a safra 2017 de um dos seus vinhos ícones, o QClay, (blend de Syrah) que também é um vinho de microterroir, resultado de estudos detalhados de solos do vinhedo costeiro de Chequen em Marchihue (Colchágua).  Pudemos comparar com a safra 2015 e constatar, na taça, que as mudanças feitas em seu processo de vinificação privilegiaram a riqueza da fruta, passando a fermentar parte em concreto e parte em fudres novos de carvalho francês.  Ele aboliu os barris de carvalho francês novos e com isso conseguiu mais pureza de fruta, ressaltando a intensidade, expressão e complexidade do corte.

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Aliás, vinhos fermentados em ânforas e em fudres novos de carvalho francês, viraram uma tendência para os vinhos de alta-gama, ou de pequena produção, em praticamente todas as vinícolas que visitamos.

Na Terranoble, Marcelo Garcia inovou ainda mais, com um Fudre de formato elíptico.  O objetivo com esse formato é aumentar a quantidade de vinho em contato direto com as borras (lias), incrementando sua textura e complexidade.

Provamos vinhos laranja (linha Disidente – 87% Pinot Blanc e 13% Pinot Gris da Terranoble), que apresentou textura, complexidade, persistência, com boa carga de frutas e muitos aromas minerais.  O outro vinho laranja que provamos era da Bouchon, ainda estava na ânfora e sequer havia sido nomeado ainda.  Puro experimento.

Aliás, voltando a Terranoble, vale ressaltar que toda essa linha chamada Disidente é um experimento muito bem-sucedido em si.  Além do Naranjo (Laranja), têm-se um corte tinto de Mourvédre (de ânfora), Grenache (de ânfora) e Carignan (de fudre) e mais um outro corte tinto de Syrah com Tempranillo, ambos muito interessantes e com boa carga de frutas e mineralidade.

Na próxima e última parte, continuaremos descrevendo as novidades e mudanças da indústria vitivinícola chilena e concluindo nossa jornada. O link está abaixo:

Um Novo Vinho Chileno – Última Parte

Carlos Eduardo Mazon
Consultor Independente de Vinhos
Sommelier ABS-SP | WSET 3 | EVP | FWS

13 comentários em “Um Novo Vinho Chileno – Parte 4

  1. Muito interessante esse novo estilo de vinho Chileno, isso muito me interessa, gostei dos vinhos descritos do Mario Geisse. Esse branco Sémillon da Bouchon deve ser espetacular.
    Bela matéria Mazon!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Alan, a liberdade para inovar e experimentar está sendo muito bem explorada pelos mais talentosos enólogos Chilenos. Gostei muito de ver como essas experiências estão se materializando e influenciando até o que se faz nas linhas mais comerciais. Vale muito provar. Abraço.

      Curtido por 2 pessoas

    1. Muito obrigado, Wagner! Foi uma experiência muito educativa e interessante pra mim. Espero que tenha conseguido partilhar as impressões minhas e do grupo fantástico de profissionais que acompanhei. Grande abraço.

      Curtido por 1 pessoa

  2. Excelente publicação, Mazon!
    Extremamente rica em conteúdo e muito bem escrita.
    Eu gosto muito da Terranoble. Um ótimo custo x benefício aqui no Brasil. Essa linha CA deles é muito interessante.
    Parabéns!
    Grande abraço, meu amigo.

    Curtido por 2 pessoas

    1. Obrigado, Gustavo! O enólogo Marcelo Garcia é um dos mais talentosos, com certeza. Essa linha Disidente é incrível, dentro da nova realidade de vinhos mais balanceados e elegantes. Vale conhecer. Abraço, meu caro!

      Curtido por 2 pessoas

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