Um Novo Vinho Chileno – Parte 5

Amigos,
Chegamos a última parte deste fantástico trabalho produzido pelo amigo Carlos Mazon sobre as novas tendências da vitivinicultura chilena. Com certeza essa foi a primeira de muitas contribuições dele aqui no Blog. Muito obrigado Mazon!!
E pra quem ainda não viu todas as anteriores, os links estão abaixo:

Um Novo Vinho Chileno – Parte 1

Um Novo Vinho Chileno – Parte 2

Um Novo Vinho Chileno – Parte 3

Um Novo Vinho Chileno – Parte 4

No capítulo anterior, iniciamos nossa abordagem das mudanças e dos avanços pelos quais passa a vitivinicultura chilena, com resultados expressivos e comprováveis. Agora, concluiremos essa análise e esse artigo.

Experimentos Múltiplos e Constantes (continuação)

Ao longo das visitas, provamos também ótimos espumantes (todos sem amargor, muito equilibrados, de caráter autolítico e mineral), tais como o Bouchon Extra-Brut (País e Cinsault), o Montes Sparkling Angel (PN e Chardonnay) e o Casa Silva FERVOR del Lago Ranco Extra-Brut (Chardonnay e Pinot Noir). Esses vinhos seguramente credenciam o Chile a competir num mercado que, segundo a OIV, cresce globalmente há 25 anos.

Ainda no campo das novidades e experimentos, provamos dois vinhos Rosés muito interessantes, sendo o Cool Coast Rosé da Casa Silva, produzido a base de Syrah de Clima Frio de Colchágua e um Rosé de Pinot Noir da Casas del Bosque, que honestamente me lembrou um Marsannay pela sua estrutura, corpo e acidez.

Boas surpresas nos vinhos de sobremesa, com destaque para o Casa Silva Late Harvest (Sémillon e Gewurztraminer), untuoso, com damascos, mel e cera de abelha, assim como o Noble Late Harvest da Casas del Bosque, um maravilhoso late harvest de Riesling do Vale de Casablanca que surpreendeu a todos pela delicadeza e profundidade, com excelente acidez e equilíbrio.

Na Casa Silva, Mario Geisse nos apresentou uma técnica muito interessante. Faz fermentação de alguns vinhos tintos em barris pequenos e usados de carvalho e, no lugar da tampa de silicone dos barris, existe uma tampa de rosca, para suportar a pressão. De tempos em tempos o barril é girado 360°, simulando uma remontagem/pigeage, mas de forma mais delicada.

Novas Variedades e Resgate das Antigas

Castas Mediterrâneas têm encontrado cada vez mais seu espaço no Chile. Vinhos como Carignan Gran Reserva e Disidente (Carignan, Mourvèdre e Garnacha), ambos da Terranoble, ou os Outer Limits da Montes, de Cinsault e CGM (Carignan, Garnacha e Mourvèdre), têm todos excelente qualidade e equilíbrio, sem falar na própria associação de produtores, chamada VIGNO, formada hoje por 17 vinícolas que produzem vinhos de Carignan de parreiras muito antigas.

Ainda há experiências muito interessantes e já consolidadas, como o Chaski, Petit Verdot da Perez Cruz, e o Petite Sirah Bougainville da Viña Santa Rita, um vinho de alta gama muito diferenciado, com aromas de frutas negras e vermelhas e excelente complexidade.

Nas castas brancas, provamos vinhos secos de Sémillon, tais como GRANITO e Las Mercedes, ambos da Bouchon, com uma tipicidade própria e fruta bem evidente, ou os Riesling da Casa Silva (Lago Ranco), de fundo delicado, mineral e muito intenso, assim como o da Casas del Bosque, com notas defumadas e muito marcantes.

Ainda nos brancos, o Gewürztraminer La Joya Gran Reserva da Bisquertt, o vinho laranja Disidente, de Pinot Blanc e Pinot Gris da Terranoble, são todos experimentos muito interessantes, gerando vinhos de personalidade, excelente concentração e que não exibem fruta sobre-extraída ou carregada pela madeira. Esses resultados oferecem uma perspectiva nova e empolgante para vinhos brancos de castas não tradicionais do Chile.

Além do resgate das vinhas antigas de Carignan e Sémillon, projetos como o da Casa Silva para resgatarem as castas Moscato Nero (Moscatel de Hamburgo) e Romano (César), são muito novos, mas muito promissores, com vinhos de caráter diferenciado, de tipicidade própria e com uma proposição de diversidade que cativa ao primeiro contato. Há também um interessante Sauvignon Gris, de Paredones em Colchágua, com aromas florais, frutas cítricas e tropicais bem pronunciadas e de excelente complexidade.

Para completar, o trabalho feito pela Bouchon, resgatando vinhas centenárias e vinhas selvagens da casta País, que crescem em meio as árvores e sequer é possível encontrar seu início no solo (semelhante a condução Enforcado no Minho), é um exemplo de consideração e respeito pela tradição da vitivinicultura chilena. As linhas País Viejo e País Salvaje (tanto branco quanto tinto), são vinhos delicados, de pouca cor, mas com caráter interessante de fruta e acidez que oferecem uma experiência diferenciada a quem os prova.

Conhecendo Melhor as Variedades Tradicionais

E o que dizer da Sauvignon Blanc, da Chardonnay, da Cabernet Sauvignon e Carmenere?
Nunca estiveram melhores. É visível o avanço de qualidade dos vinhos dessas castas, quer sejam varietais ou cortes. Os brancos com mais delicadeza, mineralidade e profundidade, fruto das pesquisas de solos, novos terroirs, investimentos em novas técnicas sendo pesadamente realizados e que estão gerando resultados. Vinhos de Sauvignon Blanc mais frescos e minerais, com muita pureza de fruta, e vinhos de Chardonnay cada vez mais equilibrados, com menos interferência de madeira e mais tipicidade.

Os vinhos de Syrah do Chile estão mais atraentes e sedutores. Talvez seja essa a casta mais promissora depois das já consagradas. Com variações de climas frios e de climas mais quentes, cada uma das expressões possui caráter marcado e tipicidade, gerando vinhos de excelente concentração, acidez, equilíbrio, permitindo ao enófilo que faça a sua escolha numa ampla gama de opções. Vinhos como Syrah Pequeñas Producciones da Casas del Bosque ou Montes Folly da Viña Montes, são notáveis, complexos, profundos, com expressão clara de fruta, excelente concentração e acidez.

Para concluir, os vinhos de Cabernet Sauvignon (carro chefe da vitivinicultura chilena) e Carmenere evoluíram muito em sua tipicidade. Nitidamente, a fruta está sendo mais bem trabalhada no vinhedo e na adega, permitindo uma maturação mais adequada de cada casta e reduzindo aquele excesso de aromas vegetais e herbáceos, que no passado era uma característica não apreciada por muitos consumidores.

Essa viagem foi uma experiência incrível e permitiu-nos ter uma ideia clara do atual estágio da indústria vitivinícola chilena. Fiquei muito feliz em comprovar, na prática, que tudo o que tem sido anunciado ao mercado é real e não só uma invenção de Marketing para promover o vinho chileno. Como em toda área de atuação humana, credibilidade é fundamental.

Parabéns a Indústria Vitivinícola Chilena e nosso agradecimento a Wines of Chile pela oportunidade.

Agradecimento especial ao Rodrigo Sitta por aceitar essa contribuição no V3. Grande abraço e um brinde a todos (com Vinho Chileno, é claro!!).

Carlos Eduardo Mazon
Consultor Independente de Vinhos
Sommelier ABS-SP | WSET 3 | EVP | FWS

4 comentários em “Um Novo Vinho Chileno – Parte 5

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