Uma Única Região de Vinhos, pelo Resto da Vida!

Amigos,
O tema abordado neste próximo Post do confrade Renato Nahas, já foi discutido inúmeras vezes nos eventos do Blog, sempre de uma maneira curiosa e divertida. A minha região escolhida seria Bolgheri, na Itália! E a sua, qual seria? Nos conte nos comentários e boa leitura!

Há um tema clássico nas conversas de amigos enófilos, sempre que se reúnem em jantares, confrarias, ou em simples encontros em torno de uma garrafa e taças e que pode ser resumido na seguinte questão: “Se você tivesse que escolher uma região do mundo para beber seus vinhos pelo resto da vida, qual seria?”. Como não há restrições orçamentárias na discussão, afinal trata-se de uma simples conversa entre amigos, a resposta é conduzida pelo coração. Assim, ficamos livres para escolher aquela que nos encanta, sem pensar em coisas como a malfadada relação de preço e qualidade.

Quem me conhece já sabe a minha resposta. Nunca escondi que a Borgonha é minha paixão. Nesse artigo não tenho a pretensão de justificar minha escolha, afinal paixão cada um tem a sua. Meu objetivo é mostrar que essa minha escolha, independente de gostos pessoais, é aquela que resultará no menor risco de repetições ao longo da vida, pois os detalhes e complexidade na Borgonha são tantos, que mesmo que se viva 120 anos, todo santo dia haverá algo novo para experimentar.

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Sonho de consumo da maioria dos enófilos, não é exagero afirmar que a Borgonha ocupa posição única no mundo do vinho. De um lado, por sua aparente simplicidade, visto que a quase totalidade de seus vinhos tintos são 100% à base de Pinot Noir, assim como os brancos de Chardonnay. De outro pela complexidade, porque seus vinhedos (e respectivas denominações) constituem uma enorme colcha de retalhos, difícil de entender (melhor, decifrar) até por quem é especialista no assunto.

O terroir da Borgonha é tão particular e heterogêneo, que resulta num número de apelações proporcionalmente superior a qualquer outra região do mundo. A guisa de ilustração, se compararmos com Bordeaux, temos uma clara indicação dessa complexidade. A área cultivada em Bordeaux é cinco vezes maior que a Borgonha. Apesar disso, enquanto a Borgonha possui 84 AOC (Apelação de Origem Controlada), Bordeaux possui 57 AOC. E essa disparidade se dá porque, de fato, os vinhos da Borgonha variam muito, mesmo que em espaços separados por poucos metros.

Um bom exemplo é o caso de duas AOC emblemáticas da Côte de Nuit: Gevrey-Chambertin e Chambolle-Musigny. Esses dois minúsculos vilarejos (a população de Gevrey é 3.106 habitantes, enquanto Chambolle tem apenas 315, segundo o censo de 2010) que estão separados por apenas 5 km, sendo que entre eles há ainda outro vilarejo, Morey Saint-Denis. Mas apesar dessa ínfima distância o estilo dos vinhos oriundos em cada um deles é antagônico. Enquanto Gevrey-Chambertin produz vinhos de caráter mais austeros, Chambolle-Musigny produz os de maior finesse e elegância, aromáticos e absolutamente encantadores.

Mas o que faz vinhos produzidos em pequenas distâncias como essa de nosso exemplo serem tão distintos? E a resposta é “o terroir”.  Em nenhum outro lugar do mundo o terroir varia tanto, quanto na Borgonha. E os monges já tinha descobertos isso na Idade Média e passaram a mapear os vinhedos de acordo com a qualidade do vinho produzido com a uva de cada vinhedo. Pacientemente, mapearam cada um deles, definindo as delimitações e classificações que praticamente vigoram até hoje. E voltando ao nosso exemplo, os vinhedos de Chambolle-Musigny localizam-se atrás de uma falha no solo conhecida como “La Combe”, riquíssima em calcário. Os solos são pouco profundos e cobertos por uma fina camada de calcário, depositadas ao longo dos anos da erosão dessa formação rochosa. Já o solo de Grevrey tem relativamente mais argila em sua composição, o que impacta o estilo do vinho, conforme já mencionado.

Em Bordeaux, apesar do Terroir variar em suas diversas sub-regiões, podemos afirmar que há maior homogeneidade e, devido a isso, dentre outros fatores, há menos AOC. Por isso, Bordeaux é relativamente mais fácil (ou menos difícil) de ser entendido. Além disso, os rótulos são mais claros, portanto é mais fácil escolher. Em Bordeaux, desde sua origem, o setor do vinho foi conduzido por empresários e voltado ao mercado externo, aproveitando sua localização privilegiada de transporte, que é o oposto da Borgonha de séculos atrás. Assim, Bordeaux aprendeu melhor a “explicar” seus vinhos ao consumidor. Enquanto na Borgonha, uma região rural e formada por fazendeiros, o setor surgiu como negócio familiar e desenvolveu sua vocação comercial apenas na segunda metade do século 20.

Na Borgonha as 84 AOC estão organizadas numa classificação que, teoricamente, indica qualidade. Mas como na Borgonha, como em nenhum outro lugar do mundo, regras foram  feitas para serem quebradas e nem sempre um vinho de uma classificação Grand Cru (teoricamente a de maior qualidade) é superior ao de outro Premier Cru (teoricamente a de segundo maior prestígio). Há uma série de vinhedos Premier Cru, como o Les Amoureuses em Chambolle-Musigny e Les Genevrières em Meursault que muitos críticos consideram melhores do que alguns Grand Crus. E cujos preços estão no mesmo patamar dos melhores Grand Crus.

Há 640 climats na Borgonha, ou single vineyard, se preferirem uma linguagem mais internacional. Detalhe e diversidade é o que não falta nessa região francesa. E por conta disso, não há outro lugar no mundo em que o risco de pagar muito e beber mal seja tão grande.

+ Os Villages “Menos Caros” da Borgonha

Por essas e outras, não faltarão opções para quem, por acaso, escolher beber apenas Borgonha, pelo resto da vida. A próxima pergunta que poderia surgir na conversa dos enófilos poderia ser: “e se você tivesse que beber apenas uma AOC da Borgonha pelo resto da vida, qual seria?”. Eu teria uma grande dificuldade de escolher, mas acho que ficaria com Chambolle-Musigny para os tintos e Puligny-Montrachet para os brancos. A justificativa para isso ficará para um próximo artigo.

E você, se tivesse que escolher vinhos de uma única região para beber pelo resto da vida, escolheria qual ?

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Renato Nahas é Sommelier formado pela ABS e já obteve as seguintes certificações: WSET3, CWS e FWE, além de ser Formador homologado pelo Consejo Regulador del Vino de Jerez. Atualmente é Professor dos Cursos de Introdução ao Vinho e de Formação de Sommelier Profissional na ABS-Campinas

115 comentários em “Uma Única Região de Vinhos, pelo Resto da Vida!

      1. Eu escolheria a Região do DOURO em Portugal, pela sua grande diversidade de castas autóctones e também porque outras castas não autóctones que também se dão bem por lá. A panóplia de escolha de vinhos é tão grande, que poderia dizer que ao Domingo escolheira um excelente Vinho do Porto Vintage ou Tawny, ao sábado poderia optar por um excelente Vinho do Porto branco ou Moscatel do Douro. À segunda-feira um excelente Tinto, à terça-feira um excelente Branco, à quarta-feira um excelente Rosé, à quinta-feira um excelente Espumante e à sexta-feira um excelente Licoroso e uma bela Aguardente. Se juntar a isto tudo a Maravilhosa Paisagem que a região proporciona juntamente com a sua gastronomia, diria que “Estou no Céu”.

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  1. Que belo artigo do Mestre Renato, dando mais um show de conhecimento e bom gosto. No meu caso, se eu tivesse que escolher uma região somente, talvez eu escolhesse uma do Novo Mundo, já que a diversidade de castas, estilos de vinhos e qualidade são mais marcantes, até porque as regras de denominação costumam ser mais flexíveis e as áreas muito maiores. Já se fosse pra escolher um país, aí provavelmente eu escolheria do Velho Mundo, sendo hoje a França (já foi a Espanha). Essa é uma bela discussão, sem dúvidas. Abraço.

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      1. Excelente artigo do Mestre Nahas, parabéns! Eu já fiz essa pesquisa com amigos perguntando qual o país que escolheriam se só houvesse um, agora escolher a região já complica a brincadeira… Bem, não tenho dúvidas que França é minha escolha e a região, apesar de adorar Bordeaux e Rhone, é a Borgonha. Só não tenho experiência suficiente para escolher uma AOC específica.

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  2. Top! Tema que da pano para a manga, não? Kkkk…
    Eu tenho como uvas prediletas a PN e Merlot. Uvas que fazem belos vinhos em regiões totalmente distintas tal qual bem exposto no artigo. Por outro lado, tem uma região que amo e que não envolve as minhas uvas favoritas, mas que talvez, como região, fosse uma daquelas selecionadas como única, sendo ela Piemonte. Barolo e encantador.
    Mas resumindo, neste momento, eu ficaria também com a Borgonha.

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      1. Muito boa a matéria. Parabéns! Entretanto, pelas minhas contas, o Sitta já indicou 6 regiões top 5! Kkkk mas com tanta opção ta valendo. Pergunta bastante difícil, principalmente porque muitas não conheço, e outras tantas tomamos vinhos de baixa qualidade, não nos permitindo avaliar o potencial da região. Contudo, dentro do que conheço, já me encanta a bastante tempo o potencial vitivinícola de Mendoza e do Alentejo. Mas pra variar vou de uma região que esta sendo descoberta recentemente mas que tem uma personalidade incrível, mostrando um potencial muito grande e que tem muito a evoluir: Salta.

        Abraços, e quem sabe um dia fechar anos algo juntos

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  3. Excelente artigo, mestre Nahas! Mas, eu fico com a elegância dos Rioja. Estou para provar um vinho mais ou menos da região, ao contrário de várias outras, em que há uma grande dependência de conhecimento ou do preço. Provei um Pinot Noir da Borgonha extraordinário outro dia, mas fui ver o preço. Desanimador, ainda mais porque o que estava à venda era de safra recente e teria de esperar 15 anos para abri-lo.

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    1. Fernando, sem dúvida a Borgonha carrega esse problema: não há região onde o risco de pagar muito e beber mal seja tão grande. Safra faz toda diferença. Produtor faz toda diferença. E produtor excepcional numa apelação não garante que os vinhos dele em outras apelações sejam excepcionais….. mas tudo que é complicado é mais intrigante . Assim é a Borgonha. E nem tudo precisa de 15 anos de espera não …. abraçào

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  4. Adoro PN da Borgonha mas não visitei a região, também sou apreciador de Mendoza provavelmente pela grande oferta e facilidade que temos aqui no Brasil para provar alguns dos melhores. Douro sou apaixonado. Mas para escolher uma só é o Napa Valley, onde grande variedade de castas é cultivada e em muitas delas com altíssima qualidade.

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  5. Talvez daqui uns 10 anos terei condições de definir uma região! Todos os dias estudo um pouco e ao longo de um pouco mais de 12 anos, que tenho o real interesse por vinhos observei muitas possibilidades e estilos. Logicamente não há como negar a diversidade e possibilidades de Borgonha, mas como os novas fronteiras dos aproximados últimos 100 anos nos trouxe ótimas surpresas; varietais cada vez mais completos, cada vez mais evolução e dedicação de enólogos a novos ambientes. Tudo isso é muito rico. Viajei por alguns países, mas longe, muito longe do que espero fazer para tomada de uma definição, degustei muito poucos vinhos para tal. E infelizmente os bons Franceses ainda estão bem longe de nós brasileiros. Enquanto isso vou evoluindo em minha futura descisão ! Ótima matéria, sempre ricas. Saúde a todos

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  6. Buena pregunta Rodrigo, yo pensaría en la Toscana; además de ser una región con una tradición vitivinícola que nos ha mimado ofreciéndonos su famoso su Chianti, nos invita a tomar excelentes vinos de las regiones vecinas, Piamonte, Lombardía, Véneto y Sicilia, con variedades de cepas tintas únicas, Sangiovese, Nebbiolo (el Barolo es único), Barbera, Lambrusco, Carignan, por supuesto Cabernet Sauvignon Montepulsiano y Bonarda; vinos blancos especialísimos como Chardonnay, Trebbiano, Pinot Grigio y Cortese.
    Además los italianos son unos rebeldes dentro de la industria y rompen reglas para sorprendernos con unos vinos verdaderamente diferentes y exclusivos, vinos para el día a día y vinos para guardar…
    En resumen, variedad, calidad, innovación y potencial para disponer de buenos vinos el resto de mi vida

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  7. Primeiramente preciso parabenizar o Sitta pelo blog, cada dia mais eclético, trazendo artigos de muitos colaboradores de diversos prismas para nossa leitura e aprendizado! Muita informação útil demais para quem como eu ainda é um neófito nesse universo! Quanto a matéria do Nahas, simplesmente irretocável, uma pequena aula introdutória sobre a Borgonha, paraíso que ainda levarei tempo para descobrir, desvendar. Parabéns a ele também pelo primor de texto!

    Quanto a minha região preferida no mundo, seria lógico eu citar Mendoza, por tudo que tenho degustado atualmente e pelo que já pude conhecer da região. Mas é importante lembrar que Mendoza é uma enorme região não demarcada que se estende por mais de 160 mil hectares, mas que se divide em muitas outras sub-regiões; dentro dessas sub-regiões a minha preferida é o Valle de Uco, pela excelência dos vinhos que Já pude degustar. Também seria fácil falar da Toscana, mas como Mendoza é também uma região vasta demais e que engloba diferentes terroirs, de diversas castas.

    Depois desse pequeno preâmbulo (kkk), e dessas observações, minha escolha recai sobre uma região que conheci muito pouco, mas que me apaixonei demais pela beleza natural e pelos vinhos estupendos: Douro! E ainda há muito para conhecer e degustar dessa região…

    Ah, só pra finalizar: ainda pretendo (e irei se Deus quiser) conhecer um pouco mais dos maravilhosos vinhos da Borgonha!

    Saúde, confrades!!!🍷🍷🍷

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  8. Ja experimentei vinhos de diversas regiões no mundo. Mas essa pergunta direciona para onde ficar para o resto da vida. Sem desmerecer as demais regiões, fico no Pais Portugal que tem perto de 250 castas autóctones e da uma miríade de possibilidades de blends fantástica, desde espumante, brancos, roses, tintos e fortificados. A cada região desse pais temos vinhos diferentes e apreciáveis, Setubal, Dão, Alentejo, Douro, Minho, etc para não esquecer alguma nesse País tao pequeno mas grande na alma vinícola. Se tiver q escolher uma, fico com o Douro que além de ser a primeira região vinícola demarcada do mundo, para ser DOC tem que ser elaborado unicamente com uvas locais, diferentemente do Alentejo, por exemplo, que usa castas francesas no blend. Um abraço

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