As Diversas Faces do Vinho Italiano

Por Renato Nahas:

A pandemia do Covid trouxe uma enorme mudança em nossas rotinas. Nas primeiras semanas eu consumi todo o meu tempo que “ganhei”, ao não precisar sair de casa, com as tarefas domésticas. Além disso, no começo, consumi – “horas e horas” – acompanhando as inúmeras notícias na TV e mídia social sobre a doença e seus impactos na sociedade.

Cansado disso tudo, resolvi limitar o tempo gasto em frente a TV e celular.  Então “investi” o tempo ganho para estudar os vinhos da Itália. Já das atividades domésticas não consegui escapar, mas isso é uma outra conversa.

Minha paixão pela França sempre me levou a priorizar os vinhos franceses. Confesso que a Itália sempre me despertou um certo receio. Receio, diga-se de passagem, que nasce do desconhecimento da diversidade italiana, e seu mosaico de regiões, apelações e uvas de um país tão fragmentado.

E aí, aproveitei o tempo de isolamento forçado, e mergulhei fundo no rico universo dos vinhos italianos, lendo e assistindo inúmeros vídeos sobre o tema. E me encantei. Nada como se aprofundar um pouco para perder o receio. Essa é a premissa básica para nós, enófilos, aproveitarmos melhor a nossa paixão.

Amparado pelo conhecimento adquirido, tenho arriscado comprar coisas diferentes e encontrado boas surpresas, assim como algumas (poucas) decepções. E saindo dos rótulos comercialmente consagrados, os “Brunelos, Barolos e Amarones” da vida, descobri que é sim possível encontrar muita coisa com boa relação de preço e qualidade.

Por outro lado, essa busca também me levou a descobrir coisas absolutamente inusitadas sobre os vinhos italianos. E esse é o foco desse artigo.  Gostaria de compartilhar alguns desses achados.

Importante dizer que ainda, eu disse “ainda”, não provei nenhum dos vinhos que citarei a seguir. Além disso, poucos estão disponíveis no Brasil. Mas todos estão devidamente registrados na minha “wish list” de enófilo, que irei prazerosamente perseguir daqui para frente.

Itália, a terra dos vinhedos

Vinhedos da Itália – em toda península é possível cultivar uvas viníferas

Foi grande a surpresa dos antigos gregos, no longínquo século VI antes de Cristo, quando chegaram pela primeira vez na península itálica e encontraram uma imensidão de vinhedos espalhados por todo território. Por conta disso, deram o nome ao lugar, no sul da Itália, de “Oenotria”, ou “terra dos vinhedos”.

Esse é apenas um pequeno exemplo da enorme vocação vinícola italiana. Enquanto os gregos desenvolveram o Sul, os Etruscos ocuparam o Norte e também produziram e aperfeiçoaram a produção vinícola. Alguns séculos mais tarde, os romanos fundiram a experiência desses dois povos. Quando o império romano expandiu seus domínios para além das fronteiras italianas, espalhou a cultura do vinho por todos territórios conquistados.

A vocação italiana para produzir vinhos é inequívoca. Junto com a França, a Itália alterna anualmente o topo do ranking na produção mundial. Mas enquanto a França conta com regiões incapazes de produzir uvas viníferas, como por exemplo a Normandia, com um padrão mínimo de qualidade, todas regiões italianas foram abençoadas com uma enorme vocação para tal.

Mas a história italiana é conturbada e isso se reflete nos vinhos do país. Como se sabe, a Itália só foi unificada na segunda metade do século XIX. Até então o país era fragmentado em mais de 20 reinos, independentes, com dialetos próprios, costumes e, vinhos e uvas particulares.

Por essas e outras, entender a Itália não é fácil. O país conta com 526 apelações de origens, sendo 74 DOCG, 334 DOC e 118 IGT. Bem, pelo menos contava com 526 apelações até o início de 2018. E se tratando de Itália é bom tomar esse cuidado, pois as coisas mudam rapidamente. Junto com Portugal, a Itália possui um enorme plantel de uvas nativas. Muitas delas preservadas e restritas a pequenos territórios.

Listarei a seguir alguns achados dessa minha pesquisa recente, todos esses concentrados no norte da Itália. O Centro e sul do país ficarão para uma próxima oportunidade:

Barolo Chinato – Barolo DOCG

Vinho fortificado e doce preparado com uma essência de ervas com vinho base de Barolo

Barolo todo mundo conhece. Mas poucos sabem que a DOCG Barolo permite a vinificação de um vinho doce. O Barolo Chinato é um tipo raro de vinho, aromatizado e fortificado, produzido em pequena quantidade e consumido, em sua maior parte, localmente.

No Brasil a Importadora Decanter distribui o Barolo Chinato produzido pelo Pio Cesare (valor no site no dia 03/07/2020: R$ 1.134,00). É feito com base numa infusão de diversas ervas, dentre as quais o quinino, e especiarias que são adicionados ao vinho base, composto integralmente por Barolo.

Esse vinho é normalmente consumido como digestivo e tem a fama de harmonizar muito bem com chocolate amargo. Eu fico imaginando a surpresa de quem vê um vinho com o rótulo de Barolo na prateleira e decide compra-lo, pagando mais de mil reais a garrafa, sem saber do que se trata. E, pior, comprar imaginando ser um Barolo tradicional.

Já imaginaram a surpresa desse desavisado consumidor ao abrir, certamente com muito orgulho, sua garrafa armazenada com muito carinho e reservada para uma ocasião especial?

Pior ainda se decidir abrir numa ocasião cercado de amigos, familiares ou confrades, e descobrir só depois de provar que se trata de um vinho doce. Por essas e outras vale a pena estudar e pesquisar. Ou, pelo menos, consultar o Sommelier da loja.

Ice Wine Italiano – Blanc de Morgex et La Salle, Valle d’Aosta DOC

FOTO ICE WINEIce Wine produzido no Vale d’Aosta

Muito provavelmente o leitor do Vaocubo já provou os “Ice Wines” produzidos na Alemanha ou Canadá. Pois eu não sabia que a Itália também produz esse tipo de vinho tão especial, cujas uvas congelam no vinhedo e são submetidas a um processo de vinificação que concentra sabores, sem prejuízo da acidez. Quem já provou sabe como eles são divinos.

Na Itália esses vinhos são produzidos no Valle d’Aosta. Trata-se de uma província que tem a característica única de ter a integralidade do seu território formado por montanhas. Fica no canto noroeste do país, na região conhecida como Alpes Italianos. Faz fronteira com a França a Oeste, Suiça ao Norte e Piemonte ao Leste e Sul. Abriga o famoso Mont Blanc, ou Monte Bianco, o pico mais alto dos Alpes com a impressionante altitude de 4.810 metros, local muito procurado por quem gosta de esquiar. Ou seja, o clima é propício para a produção do Ice Wine.

Os incríveis vinhedos encrustados na montanha a partir de terraços estreitos – Valle d’Aosta

É produzido com a uva branca Prié Blanc, nativa da região. Cultivada nos entornos do Mont Blanc, ou Monte Bianco (detalhe, o Valle d’Aosta é bilíngue, sendo o francês uma das línguas oficiais), tem o diferencial de ser produzida em altitudes elevadas, onde poucos vinhedos são capazes de sobreviver (acima de 1.200 m).

Outra curiosidade é que nessa área o clima é tão hostil que nem a filoxera, a famosa praga que devastou os vinhedos Europeus no século 19, é capaz de sobreviver. Por conta disso, a Prié Blanc é um caso raro de vinhedo plantado em pé franco.

No Valle d’Aosta há apenas uma DOC, o Valle d’Aosta DOC. Mas essa apelação possui 7 subzonas. Esse vinho é produzido na subzona Blanc de Morgex et La Salle, nas áreas próximas a essas duas cidades. Não encontrei esse vinho a venda no Brasil. Achei numa loja da Inglaterra custando 33 Libras a garrafa de 500ml

Erbauce di Caluso (ou simplesmente Caluso) DOCG

Erbaluce di Caluso, o vinho doce de maior prestígio no Piemonte até o século 19

Historicamente, o passito (feito com uvas desidratadas) produzido com a uva Erbaluce, nas proximidades da cidade de Caluso, na província de Carema, era considerado o vinho doce de maior prestígio no Piemonte. Seguindo a tendência observada a partir da segunda metade do século XIX, o vinho dessa área entrou em decadência e quase desapareceu do mapa.

Recentemente, no início desse século, a tradição foi recuperada e a uva Erbaluce voltou a ganhar importância, a ponto de ser elevada a DOCG em 2010. Essa apelação produz vinhos brancos secos e doces. A uva Erbaluce se destaca pela elevada acidez e casca fina, características importantes para o processo de produção dos passitos. Além disso, apresenta notas florais e aromas fragrantes de cítrico e maçã.

Esse é um belo exemplo da diversidade e riqueza cultural da Itália, a qual o norte do país se esforça para resgatar e proteger. Enquanto regiões como a Toscana utilizam cada vez mais as chamadas castas internacionais, o Piemote resiste teimosamente a essa tendência, preservando e resgatando uvas nativas.

Não encontrei nenhum exemplar desse vinho comercializado no Brasil. Na Inglaterra (ah a Inglaterra, como deve ser bom ser enófilo por lá) encontrei o Erbaluce di Caluso Passito, Ferrando, 375 ml por 33,6 Libras. Um vinho de faixa de preço, portanto, elevado.

Sforzato di Valtelina DOCG, um “Amarone” feito com Nebbiolo

De todos vinhos relacionados aqui, esse talvez seja o mais conhecido, ou melhor, o “menos desconhecido”. Produzido na Lombardia, que é mais conhecida pelos espumantes da região de Franciacorta. E lá a Nebbiolo tem outro nome: Chiavennasca.

Valtelina é a região da Lombardia mais ao norte e faz fronteira com a Suiça. Os vinhedos estão situados nas colinas, aos pés dos Alpes. Para a Nebbiolo, ou melhor, para a Chiavennasca amadurecer  faz-se necessário uma exposição que maximize a insolação, portanto, voltada para o sul. São cultivadas em estreitos terraços que tornam heroica a prática da viticultura.

Cachos super maduros de Nebbiolo, ou melhor Chiavanneasca (eu sempre me confundo), são colhidos e acomodados em superfície própria, em armazéns com condições adequadas para secagem. Ao secarem, ganham concentração. Esse é o famoso processo de appassimento, através do qual o famoso Amarone é produzido.

O Sforzato é descrito como similar aos Amarones, diferenciando-se por ser menos potente e mais elegante. No Brasil encontrei o do produtor Aldo Rainoldi por R$ 295 na Winelands.

Nebbiolo não faz só vinho tinto

E qual não foi minha surpresa ao descobrir que a uva Nebbiolo, famosa por produzir tintos secos ícones, como o Barolo e Barbaresco, também é usada na produção de vinhos brancos, espumantes e rosados, além do Barolo Chinato (que já falamos aqui), que é fortificado e aromatizado com ervas.

De todas as surpresas, saber que há um vinho branco feito com a Nebbiolo, foi a maior. Aliás, feito com a varietal Chiavennasca, que é como a casta é conhecida na Lombardia, A produção acontece na denominação de origem “Terrazze Retiche di Sondrio IGT” localizada em Valtelina, aos pés dos Alpes. Encontrei esse vinho a venda na Itália por 8 Euros.

Já o Rosado e espumante não são tão inusitados, afinal é comum a produção a partir de qualquer uva tinta, mas eu nunca tinha ouvido falar. O Rosado é produzido na “Colline Novaresi DOC”, no Alto Piemonte (norte) e o espumante é feito em Alba.

Enfim, a Itália não é para amadores. Produz e exporta um volume elevado de estilos e tipos de vinho. Diferente da França, que se consolidou como estado nacional há séculos e, por isso foi capaz de disciplinar as regras para produção de vinhos, incluindo as uvas utilizadas por região, na Itália o processo foi muito diferente. Na segunda metade do século XIX mais de 20 reinos foram unificados. E o país passou por uma enorme turbulência até o final da segunda guerra mundial. Nesse contexto, a indústria vinícola renasceu na segunda metade do século 20, trazendo à tona a enorme riqueza e diversidade dos vinhos italianos.

Conhecer para melhor desfrutar vale para todas regiões vinícolas. Mas para Itália vale um pouco mais.  Aprecie com moderação.

Renato Nahas é Sommelier formado pela ABS-SP e Professor nos cursos de Introdução ao Mundo de Vinho e Formação de Sommelier Profissional na ABS-Campinas. Possui as seguintes certificações internacionais: FWS, CSW e WSET3. Além disso é Formador Homologado de Jerez, certificado pelo Consejo Regulador de Jerez.
Serviço:
Decanter – www.decanter.com.br/
Winelands – www.winelands.com.br/

19 comentários em “As Diversas Faces do Vinho Italiano

  1. Simplesmente fantástica a matéria. Eu amo vinhos Italianos, esse Nebbiolo Bianco eu nem imaginava que existia. Dicas valiosas para os amantes de vinhos italianos, anotei tudo! Parabéns ao Renato e ao blog!

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  2. Mais um texto extremamente interessante e instigante. Parabéns, Nahas! E, como sempre, muito bem escrito. Provei o Barolo Chinato, da Marolo (Distilleria Santa Teresa, Alba) e gostei demais. Agora, é um verdadeiro xarope, daqueles de infância. Provavelmente, muitos não gostarão. Também conheci por lá um vinho à base de Nebbiolo, que é o Nebbiolo di Carema (o mesmo vale onde é cultivada a uva do Caluso, citado por você, que eu não conhecia): https://www.caremadoc.it/nebbiolo_carema.php?lang=en.

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    1. Legal Procópio. Bem lembrado, Carema é fica na divisa do Piemonte com o Valle d’Aosta. Faz vinhos a base de Nebbiolo (que é conhecido como Spanna por lá). Seus vinhos são conhecidos como “Vini di Montagna” fazendo alusão a topografia local. Pena que não achei nenhum para comprar aqui no Brasil. Esse tem que provar por lá . Abração

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  3. Parabéns caro Renato. Gostei muito do seu artigo e ele desvendou, de certo modo, meu receio e cautela em relação ao vinho italiano, por conta de sua complexidade e diversidade. É como se, ao começarmos essa trilha, isso nos subjugaria a um vício, impossível de ser debelado, absorvendo por completo nossa alma. Abraços

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