Nova Geração de Sommeliers – Gabriel Raele

Por Carlos Mazon

Atendendo a pedidos, estamos recobrando a série de entrevistas com os novos talentos da Sommellerie no Brasil e o entrevistado dessa edição é o renomado Sommelier paulistano Gabriel Raele, um dos mais respeitados do país.

IMG-20201005-WA0060

Gabriel acumula reconhecimentos de imenso prestígio e um desenvolvimento de carreira muito interessante. Flexibilidade e adaptabilidade são características diferenciadas desse jovem profissional de 31 anos, que já foi eleito o melhor Sommelier de 2018 pela ABS–SP e que começou na indústria de hospitalidade (hospitality) muito cedo, aos 18 anos de idade.

Trabalhou em importantes casas paulistanas e, tendo mudado de lado, agora é consultor de restaurantes, sommelier e representante da Wine&Co Importadora, em São Paulo. Nessa entrevista, Gabriel destaca a relevância de um Sommelier para os estabelecimentos de hospitalidade e conta-nos um pouco de sua inspiradora trajetória.

Em tempos de COVID, a conversa foi por telefone, em um dos seus raros momentos de pausa, já que, mesmo com essa situação, continua ativamente visitando clientes e produtores.

Fica evidente durante a conversa, que apesar de jovem, Gabriel tem uma experiência ampla e consolidada, articulando com segurança e propriedade um pouco do seu vasto conhecimento da indústria no Brasil.

Boa leitura!!

Gabriel, por favor, conte-nos um pouco sobre a sua origem, onde nasceu, onde cresceu, sua família etc.  Além disso, qual foi sua formação educacional?
Sou Paulistano, mas cresci em Campinas e voltei pra Capital em 2013. Sou recém-casado, tenho uma irmã mais nova e meus pais vivem em Campinas. Sempre tive vontade de trabalhar com hospitalidade. Fui atrás de faculdades que envolvessem esse lado de contato com pessoas, atendimento, servir bem, cuidar de gente, e fui fazer Hotelaria na UNIP de Campinas.

E no Mundo Do Vinho?  Quais os cursos que realizou e que certificações possui hoje?
Sou formado pela 1ª turma de Sommelier Profissional da ABS-Campinas (2009-2010), quando o curso sequer era dividido em módulos, concluindo-o em 1 ano e 8 meses.  Quando voltei a São Paulo, conheci o WSET e fui até o nível 3 pela Eno Cultura.

Poderia nos contar como desenvolveu a atração pelo vinho e ingressou na carreira de Sommelier?
Eu era cumim (auxiliar de garçom) nos restaurantes do Royal Palm Hotéis em Campinas, trabalhando para pagar minha faculdade.  Na minha primeira semana de trabalho, servimos um jantar harmonizado por um Chef francês, com estrela Michelin. Para esse jantar todo especial, o Hotel comprou taças novas e servimos um menu harmonizado com várias etapas. Minha função naquele evento era cuidar das taças. Acho que nunca lavei tanta taça na vida. Mas me fez pensar: para que tudo isso?  Por que cada vinho tem uma taça?  Por que cada prato tem um vinho?  E comecei a observar o trabalho do Sommelier.  Eu nunca tinha tido contato com vinhos finos antes disso, foi minha primeira vez e foi uma epifania.

Você tem uma experiência profissional diferenciada, tendo trabalhado em vários setores dentro da indústria de hospitalidade, como hotéis, restaurantes, bares etc. Poderia nos dar uma rápida visão dos estabelecimentos por onde passou e as funções que desempenhou?
Como comentei, comecei nos restaurantes do Royal Palm Hotéis em Campinas. Nos três anos que passei trabalhando nos hotéis, eu pude frequentar os cursos e degustações da ABS.  Assim que me formei em Hotelaria, matriculei-me no curso profissional de Sommelier da ABS-Campinas.  Depois, passei outros três anos em uma loja de vinhos em Jundiaí, a Rosso Bianco, que tinha um bom empório e que me proporcionou um grande aprendizado sobre chocolates, destilados, cervejas, queijos e embutidos.
Voltei pra SP em 2013, para inaugurar o Spaghetti Notte da Vila Nova Conceição, onde saiu minha primeira carta de vinhos, negociando com importadores e fazendo um serviço de vinho mais tradicional.
Após um ano no Spaghetti Notte, fui para o Bardega onde fiquei também três anos e onde mais aprendi sobre vinho, pegando boas referências de degustação.  Em 2017, entrei no Fleming’s com a ideia formada de ser gerente de restaurante, onde a carta de vinhos seria uma das minhas funções.  Ali eu aprendi a importância de liderar uma equipe e gerir pessoas. As minhas cartas de vinhos entraram em um padrão mais corporativo, com planilhas complexas, cálculo de CMV, muitos importadores e organização de jantares harmonizados (wine dinners).
Agora eu estou em uma nova fase, como representante da Wine&Co, uma importadora exclusivamente B2B. Focamos em restaurantes, hotéis, bares e lojas especializadas.  Minha bagagem ajudou a criar importantes relacionamentos, conhecer os preços dos vinhos no mercado e saber articular as vantagens que a Wine&Co oferece aos seus parceiros.

Tive o privilégio de conhecê-lo no Bardega (Bar de Vinhos em SP), onde tivemos longas e animadas conversas.  Aquela foi a época que consolidou o Bardega na noite paulistana.  Foi essa posição que o projetou no cenário da Sommellerie em SP?  Que tipo de experiência e aprendizado essa posição lhe proporcionou?
O Bardega é parte importante da minha história e sou grato por tudo que construí lá dentro.  O atendimento no Bardega tem que ser muito ágil.  É muita gente falando com você ao mesmo tempo e as conversas precisam ser rápidas e assertivas, sem deixar de ser simpático.
Eu aprendi a entender o que o cliente precisa fazendo poucas e curtas perguntas.  Uma das dificuldades de vender vinho, na minha opinião, é oferecer um produto a um cliente que, muitas vezes, não sabe o que pretende comprar ou até o estilo de vinho que gosta.  Então, antes de vender, eu precisava ler o cliente e identificar qual era o gosto dele, para só depois sugerir alguma coisa.

IMG-20201005-WA0074

Posteriormente, você assumiu uma posição de destaque no Fleming’s Prime SteakHouse.  Como foi retornar ao setor de restaurantes, trabalhando numa casa renomada e badalada da noite paulistana? O Fleming’s tinha muito mais características de corporação do que de pequeno negócio?  Como foi essa transição e a sua jornada nesse desafio?
Foi muito prazeroso devido a confiança depositada em mim para fazer a seleção e administrar a carta de vinhos. No Fleming’s eu era Wine Manager, cuidava da equipe e era responsável pela carta de vinhos.  Em três anos lançamos duas cartas, com temas distintos.  A criação era exaustiva por conta dos moldes da corporação, mas me fez entender o custo de uma operação inteira.
A adaptação não foi difícil e acredito que fui bem aceito pela equipe pois mantenho contato com muitos deles até hoje. Lidar com pessoas e produtos de qualidade é sempre mais fácil.  Somada à experiência do Bardega, posso dizer que esses foram os anos mais importantes na construção da minha carreira. 

Com base em sua experiência, quais as vantagens que um estabelecimento obtém ao contratar um Sommelier?  Por exemplo, o que um restaurante tem a ganhar se tiver um Sommelier com a correta formação profissional e a função formalmente reconhecida?
Um Sommelier pode contribuir com melhorias em todos os setores do restaurante. Ele pode elevar a experiência do cliente com os vinhos, pode melhorar a rentabilidade da carta, pode treinar os garçons, pode interagir com o Chef para harmonizar um menu e pode interagir com o Barman para criar novos coquetéis.  Mas acima de tudo, o bom Sommelier é um estudioso que vai tentar encantar o cliente, enriquecendo a experiência e buscando uma fidelização.  Esses benefícios seguramente existem, mas são intangíveis.
Quando bem preparado e experiente, o Sommelier é um profissional completo, capaz de ir além de suas funções de curadoria e serviço do vinho. Os grandes profissionais do mercado, que são referências para muitos, auxiliam e influenciam em outras áreas da operação de um estabelecimento, sempre presando pela excelência do serviço e da experiência.

A ABS-SP o elegeu Melhor Sommelier de Vinho de SP de 2018.  Houve muita repercussão do seu trabalho na mídia especializada e, muita gente que ainda não o conhecia, teve um pouco mais de informação sobre o seu trabalho e suas competências.  Quais foram os aspectos mais importantes desse prêmio?  Mudou algo na sua trajetória ou carreira?
Confesso que fiquei surpreso com o prêmio.  Eu nem sabia que estava concorrendo.  Foi uma votação aberta, com mais de 70 formadores de opinião.  Os votos poderiam ser dados para qualquer profissional da área, mas meu nome foi o mais lembrado.  Fiquei feliz demais e a gratidão explodiu dentro do peito, pois ser reconhecido por quem conhece do assunto é ainda mais gratificante.  O prestígio aumentou e guardo meu prêmio com o maior carinho do mundo.

IMG-20201005-WA0073

Você faz parte de uma Confraria muito exclusiva de profissionais (#EgosFora).  Como é fazer parte de um grupo tão seleto e renomado da Sommellerie do Brasil?  Como são os encontros?  Que tipo de experiências vocês trocam?
É uma honra fazer parte dessas mesas de degustação.  Nós somos amigos, além do vinho. Antes da pandemia, estávamos nos encontrando mensalmente, com temas pré-definidos, onde podíamos compartilhar algo mais além das fichas técnicas. Escolhemos sempre temas que nos levem a estudar e que possam nos preparar para provas de degustação.
Já tivemos temas envolvendo solos, regiões com legislações recém atualizadas, variedades de uvas, harmonizações etc. Muitas vezes o vinho é só um pretexto para nos encontrarmos e matarmos a saudade, que aliás só cresce nessa fase.

Agora que você mudou de lado na mesa, sendo representante e Sommelier da importadora Wine&Co, você passou a vender para os colegas que estão à frente dos estabelecimentos de hospitalidade.  É muito diferente oferecer produtos e serviços aos colegas de profissão?  Qual é o tipo de situação mais comum e inusitada com que você se depara?
Sim, é muito diferente. Esse lado da profissão que estou agora exige mais disciplina, organização, tato e foco para não perder nenhuma oportunidade de venda.  Antes eu vendia para quem vinha ao meu encontro e queria comprar, agora eu preciso ir até o cliente.  E essa abordagem é um aprendizado enorme todos os dias.
Eu preciso falar a língua do garçom para ensiná-lo a vender nossos vinhos e ao mesmo tempo fazer negócios com o Sommelier ou Dono do Restaurante. São linguagens opostas e complementares e eu preciso dominar as duas.  O inusitado para mim, que trabalhei a vida toda aos finais de semana, é poder almoçar todo Domingo com a minha esposa e planejar um fim de semana em família.

O impacto da pandemia foi algo avassalador para a indústria de hospitalidade.  A seu ver, quais serão os reflexos disso na indústria (hotéis, restaurantes, bares) e como o profissional de Sommellerie pode aproveitar essa situação para se desenvolver e crescer?
Uma pandemia não dura para sempre.  Uma hora isso vai acabar e novos hábitos serão criados.  Esse momento é ideal para buscar novos vinhos, novos parceiros e conhecer pessoas com propostas comerciais diferentes.  Conhecimento ninguém tira de você, busque-o e perceba quem estará ao seu lado nesse momento. 

E no seu caso, quais os seus planos para continuar o seu desenvolvimento?  Cursos?  Treinamentos?  Viagens?  Essa situação toda causada pelo COVID-19, mudou algo no seu planejamento?
Viagens adiadas, com certeza. Minha rotina agora é buscar novos parceiros e reativar quem estava parado durante a pandemia.  O diploma WSET ainda está longe para mim, mas alguns outros cursos e certificações me interessam como o FWS e a Certificação da ABS-SP.

Para finalizar, que conselhos você daria aos profissionais da Sommellerie? Que futuro você vê para a profissão no Brasil?
Eu sou pequeno e não me atrevo a dar conselhos, mas eu acredito que é muito mais difícil encontrar boas pessoas do que bons negócios. Oportunidades aparecem a todo momento, mas ninguém compra lealdade, respeito e gratidão. Se você encontrar isso em alguém ou em algum lugar que te dê oportunidade, agarre com todas as forças. A profissão promete bons caminhos no futuro para quem não quiser ficar limitado.

IMG-20201005-WA0064

Durante toda a nossa conversa, mesmo por telefone, Gabriel impressiona pela autoconfiança e conhecimento com os quais expõe seus pensamentos e credos.  Transparece que, apesar de muito jovem, possui uma experiência sólida e diversificada, digna da elite dessa profissão no Brasil.

Gabriel une juventude e experiência, uma combinação poderosa para alavancar um talento nato ao caminho do sucesso.

E se você ainda não leu as outras entrevistas desta série, os links estão logo a seguir!

Nova Geração de Sommeliers – Luís Otávio Cruz.

Nova Geração de Sommeliers – Marina Bufarah de Souza

Nova Geração de Sommeliers – Robson Dos Santos Venâncio

Até a próxima …

Serviço:
Wine&Co Importadora: wine-co.com.br
Telefones: (11) 2769.8843 / 2768.8846
Instagram: @winecoofficial
Carlos Eduardo Mazon
Consultor Independente de Vinhos
Sommelier ABS-SP | WSET 3 | EVP | FWS

19 comentários em “Nova Geração de Sommeliers – Gabriel Raele

  1. Muito bom Mazon. Interessante o como você conseguiu “dissecar” a contribuição que passo da carreira do Gabriel representou em temos de adição de competências à sua prestigiosa carreira. Parabéns pelo artigo.

    Curtido por 1 pessoa

  2. Mais uma bela entrevista dessa série muito oportuna, voltada a dar visibilidade a essa nova geração de Sommeliers. . Não conhecia o Gabriel e gostei muito de conhecer a trajetória desse profissional brilhante. Parabéns Carlos Mazon e o Blog por disponibilizar mais esse conteúdo de qualidade. Grande abraço a vocês

    Curtido por 1 pessoa

  3. Parabéns, ótima entrevista. Como é bom conhecer pessoas tão jovens, batalhadoras, competentes e sensíveis. Bela trajetória, que com certeza será coroada com muito sucesso. Abraços! 🍷

    Curtido por 1 pessoa

  4. Excelente entrevista. Que bagagem o Gabriel já acumulou, passando por tantas e tão diversas funções no mundo do vinho! Nosso pessoal o conheceu no Fleming’s: além da competência, um profissional afável, sempre pronto a atender. Espero que volte logo a atender o público para que possamos desfrutar desse lado tão marcante que ele mesmo revela: a hospitalidade.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Comendador, fizestes uma definição perfeito do nosso entrevistado. Não sei se ele retornará ao On-trade, mas tem ajudado a formar outros Sommeliers lecionando em cursos como o da SBSomm. De fato, ele precisa compartilhar esse vasto conhecimento em prol do crescimento do vinho, não é mesmo? Abraço, meu caro!

      Curtido por 1 pessoa

  5. Excelente matéria, mestre Carlos Mazon! Nessa matéria vimos que o que faz a diferença é a dedicação de cada um para crescer tanto na vida pessoal quanto na vida profissional. Grande abraço.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s