Eu Bebo Vinho. Isso Pode Ser Usado Contra Mim em um Tribunal?

Amigos,
Abrimos um justo espaço para uma de nossas autoras falar sobre um assunto importante e preocupante. As opiniões do texto não refletem necessariamente a opinião do Blog, são de responsabilidade da autora. Entretanto quero manifestar meu profundo repúdio em relação ao tratamento dispensado à vítima durante seu o julgamento.

Por Ana Carolina Sitta

O título até pode parecer engraçado, mas o assunto é delicado.

Gostaria de pedir licença, antecipadamente, por que pela primeira vez minhas palavras aqui no blog vêm com profunda tristeza e indignação…

Com o passar dos anos (e a chegada da idade) passei por processo, uma conscientização de um direito e uma forma de entender o meu papel, como mulher, na sociedade. Tive a sorte de ter nascido e de ter sido criada por homens que mesmo sem saber, me criaram para ser independente, segura e bem resolvida. Cresci com meu pai e meu irmão me dizendo que eu poderia ser quem eu quisesse ser, independente do meu gênero. Que não era por ser mulher que eu não poderia construir uma carreira, viajar (principalmente sozinha), dirigir, votar, degustar meu vinho, me vestir como eu me sentisse melhor e sobretudo, ter uma voz. Meu pai me criou da mesma forma pela qual ele criou meus dois irmãos. Eu não sabia na época, mas hoje vejo que Seu Sitta, talvez fosse feminista!

O porquê de eu ter resolvido falar sobre isso hoje no blog? Porque acredito que não tenha uma única pessoa aqui que não tenha tomado conhecimento do caso Mariana Ferrer nesta semana. Mariana trabalhava como hostess em um Beach Club em Florianópolis, quando, aos 21 anos, foi estuprada. Nesta semana, saiu na mídia um veredito que se não causou revolta em você também, ao menos te fez refletir sobre como as mulheres vítimas de abuso podem ser tratadas na sociedade. Mas o que me provocou profunda revolta e até mesmo me fez me colocar na posição dela, foi a maneira como ela foi tratada pelo advogado de defesa e pelo silêncio dos outros que estavam assistindo e nada fizeram para cessar àquele abuso. Mariana foi, do meu ponto de vista, violada pela segunda vez. Na sessão, o advogado usou fotos tiradas por Mariana muito antes do ocorrido e a alegação de que ela estaria bêbada para culpar a vítima!

E você pode me perguntar: mas o que eu, leitor do blog, tenho a ver com isso? Eu respondo: O assunto pode ser pertinente! Aqui no blog nós falamos sobre o vinho, uma bebida alcoólica! Eu bebo, e você provavelmente bebe. Apesar de o vinho, normalmente, ser uma bebida apreciada com moderação, esse episódio me fez perceber que, se um dia algo acontecer comigo, o fato de ser mulher e falar sobre vinho, afirmando que bebo, nas mãos dos mesmos “péssimos profissionais”, como os que participaram desse julgamento, seria o suficiente para que isso fosse usado contra mim! Ou sobre contra qualquer leitora aqui.

Infelizmente, isso pode ser mais comum e corriqueiro do que você pensa. Acredite quando digo que você conhece SIM uma mulher que já foi estuprada. O estupro acontece de diferentes formas. Acontece quando os nossos direitos são violados, acontece quando a gente diz não e não é respeitada, acontece quando rola aquela passada de mão boba, acontece quando somos julgadas pelas nossas roupas, pelas bebidas que tomamos… Por isso o meu post, que além de um desabafo, é para pedir que você que está lendo pense se em algum momento já se pegou achando que a vítima é culpada.

Não quero fazer da exceção uma regra, até porque considero que tenho sorte! Fui criada e estou rodeada por grandes homens. Homens que respeitam, que incentivam, que se orgulham, que defendem, que não se calam, que empoderam! Também tenho exemplo de mulheres incríveis à minha volta, que dizem o que pensam, que são fortes, independentes, que têm carreiras brilhantes, que criam e contribuem com a sociedade.

Mas acima de tudo, escrevo porque tenho certeza que se não nos calarmos e seguirmos sempre buscando mudar a nossa forma de pensar, de evoluir, de educar, poderemos fazer uma sociedade mais justa para os futuros homens e mulheres! Pode ser que essa sociedade mais justa demore a acontecer? Pode. Mas deixo aqui com vocês a frase da Emma Watson, que me lembra que essa mudança começa pela gente, e começa agora.

“Se não eu, quem? Se não agora, quando?” – Emma Watson

17 comentários em “Eu Bebo Vinho. Isso Pode Ser Usado Contra Mim em um Tribunal?

  1. Muito bom o alerta Ana!
    Não devemos aceitar nunca qualquer tipo de violência à mulher, bem como, jamais permanecermos silentes.
    Quantos episódios desta natureza ocorrem diariamente e não são denunciados? Muito preocupante!
    Esta violência não é só contra a mulher em si, é uma violência contra a dignidade da pessoa humana e vai de encontro aos princípios da humanidade.
    Grato pela partilha. Paz e bem!

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    1. Parabéns pelo texto. O título já é uma bela “provocação”. O machismo se propaga por pequenos atos diários e pode atingir situações escabrosas como essa.
      Vejo muito machismo no mundo do vinho, sendo sutis ou não. Desde a categorização de vinhos mais leves como femininos, dizer que vinhos feitos por enólogas são mais delicados, achar que mulher só gosta de espumante/rose/brancos (onde já se viu, uma mulher tomando um Tannat!!!!!!), e claro, sommerliers ou garçons geralmente perguntando diretamente ao homem na hora da escolha do vinho, finalizando com o ato de dirigir a taça para o homem na hora de avaliar se o vinho está bom.

      Curtido por 2 pessoas

      1. Oi Leandro, obrigada pelo apoio! E realmente, você tem que ver a cara que alguns garçons fazem quando eles percebem que eu vou escolher e provar o vinho. São coisas pequenas, mas que precisamos mudar urgentemente!

        Curtido por 1 pessoa

  2. Muito importante nos indignarmos com o ocorrido, é algo que não podemos aceitar jamais! Foi revoltante assistir o tratamento dado a ela. Ninguém pode ser tratado assim. Parabéns pelo texto e posicionamento. Um abraço.

    Curtido por 3 pessoas

  3. Ana, texto excelente. Muito ainda a caminhar para mudar essa realidade atroz. Os homens fomos criados com mentalidade de que não há nada demais em dar uma “investida”. Temos que mudar isso

    Curtido por 3 pessoas

  4. Parabéns Ana Sitta pelo seu belo texto e por sua indignação que trouxe a inquietação e nos chamou a atenção para essa situação absurda que aconteceu com a Mariana! Siga sempre em frente defendendo os seus direitos bem como de todas as melhores de serem sempre respeitadas! Parabéns novamente!!

    Curtido por 2 pessoas

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