Entrevista com Fábio Góes – Enólogo da Vinícola Góes

Por Ivan Ribeiro

Tivemos a oportunidade de entrevistar o enólogo Fábio Góes, que hoje é responsável pelo comado técnico da vinícola Góes, localizada em São Roque – SP.

Ao longo de 17 perguntas, Fábio nos contou sobre a origem da vinícola, sobre o estágio atual da produção e, principalmente, sobre o desafio de consolidar São Roque como um produtor de vinhos finos de qualidade, buscando mudar a imagem da vinícola perante o público, visto que ainda existe forte ligação com os vinhos de mesa.

Alguns bons frutos dessa mudança na Góes já vem sendo colhidos: em 2019 o vinho Philosophia 2017 foi premiado pela prestigiada revista britânica Decanter com uma Menção Honrosa e o Sauvignon Blanc recebeu em 2020 a Medalha de Prata. Um grande feito para os vinhos de São Roque.

Participaram da entrevista: Ivan Ribeiro – DuVale Wine Tasting & Projeto Novos Terroirs do Brasil, João Carlos – Sommbrothers, Rodrigo Sitta – Blog Vaocubo e Samuel Prado – Vinhos Brasil 2020.

1 – Quem é Fábio Góes?
Faço parte da quarta geração da família Góes, os imigrantes portugueses que chegaram ao Brasil no início do século XX e, em 1938, se instalaram na cidade de São Roque, iniciando o processo de plantio de videiras com intuito de fazer vinhos de mesa para o consumo da própria família.

2 – Qual é a sua formação?
Faz 21 anos que me formei em enologia pela antiga faculdade Juscelino Kubitschek em Bento Gonçalves (RS). Também cursei Gestão da Qualidade em São Roque para me aperfeiçoar ainda mais. Após a faculdade, fiz um estágio no grupo Martini, detentora das marcas Chateau Duvalier e Baron de Lantier. Esse estágio era para ter duração de 3 meses mas acabei ficando 8 meses, ganhando com isso experiência para em janeiro de 2002 assumir o comando técnico da vinícola e toda parte enológica.

3 – Qual é a história da vinícola?
Meu avô Gumercindo Góes teve 8 filhos e seu irmão 7. Como tenho dito, desde a década de 1930, eles cultivavam uvas para fazer vinho de mesa para o consumo familiar. Houve uma separação da família de forma amigável, quando em 1963, meu avô fundou a vinícola Góes, oficializando-a e até onde permanece hoje. Essa separação se fez necessária pois a empresa não suportaria tanta gente. No final da década de 1980 fizemos a parceria com a Casa Venturini em Flores da Cunha (RS), para buscar a opção do próprio vinho de mesa, buscando e pregando pela qualidade dos produtos.
No final da década de 1990, começou o plantio com uvas finas em São Roque, buscando adequar o mercado. Trouxemos várias variedades para fazer o teste em São Roque, e mais de 40 foram testadas. As que melhor se adaptaram a Lorena, Cabernet Franc e Cabernet Sauvignon. Recentemente lançamos a Malbec e a Sauvignon Blanc.
Hoje a nossa capacidade é de 40 a 50 mil litros por dia, totalizando 6 milhões de litros por ano, isso falando na produção de sucos, vinhos de mesa, vinhos finos, frisantes e espumantes.

4 – Como e quando iniciou o cultivo na cidade de São Roque?
Bem, o início de tudo ocorreu em 1938, mas foi somente em 1963 com a fundação da vinícola que se oficializou a marca Góes. Até a década 1990, somente produzíamos vinhos de mesa e a partir dos anos 2000, iniciamos a produção de vinhos finos.
Ao longo da nossa história, a Góes se levantou e se consolidou no mercado somente com os vinhos de mesa, os conhecidos vinhos de “garrafão”, com 70% de uva Bordô e 30% de Isabel. Nos anos 2000, iniciamos o cultivo de uvas finas citadas acima.

5 – Como surgiu a ideia sobre a dupla poda?
Até o ano de 2014, só fazíamos a colheita de verão e em 2015, iniciamos um projeto com o engenheiro agrônomo Murilo Regina, fazendo a dupla poda para a colheita de inverno.
A uva que teve uma boa adaptação nesse novo método de plantio foi a Cabernet Franc. Testamos também a Syrah, testamos alguns porta enxerto, mas tivemos possíveis problemas com a luminosidade, não obtendo com isso um bom resultado para a Syrah. Hoje temos um rótulo cuja uva é a Syrah, mas o plantio é 100% na serra da Mantiqueira em Minas Gerais. Acreditando que a incidência da luminosidade na Serra da Mantiqueira, por ser mais forte na videira da Syrah, tenha feito com que ela se adaptasse melhor nessa região.

6 – Quantas pessoas estão envolvidas com a vinícola?
A Góes possui cerca de 200 colaboradores, nas fazendas, logística, sede e restaurantes, com seus 30 hectares. Na Venturini possuímos cerca de 20 hectares, além disso, mantemos parceria adquirindo as uvas que se encaixam no perfil pretendido pela Góes.

7 – Por tratar-se de um experimento, quais foram os obstáculos encontrados nas primeiras colheitas e vinificações?
No início houve dificuldade para implantar a mudança de vinhos de mesa para vinhos finos, principalmente na cultura interna das pessoas que conduziam a Góes. Outro problema foi a micro-vinificação, pois a Góes sempre trabalhou com grandes volumes e essa adaptação nos deu trabalho.
Como não podia ser diferente, um outro obstáculo é ainda a qualidade de matéria-prima, se a matéria-prima tiver boa qualidade, o produto terá boa qualidade. Tivemos problemas com algumas adaptações da uva Bordô, mas adquirimos 6 varinhas de mudas de um produtor de Santa Catarina, fizemos o enxerto e houve boa adaptação e dessas 6 varinhas, hoje temos 15 mil pés.
Todas as uvas viníferas são colhidas no inverno, deixando as uvas de mesa Bordô, Magna e Lorena (essas duas últimas são híbridas) para a colheita de verão.

8 – Além das tarifas e preconceito com o produto brasileiro, quais são as dificuldades para colocar os vinhos da Góes no mercado?
Existem 2 paradigmas: um deles é ser vinho nacional e outro é degustar vinhos finos em São Roque. A maioria das pessoas pensam que não há vinhos finos de qualidade em São Roque.
Estamos fazendo um trabalho de formiguinha, trazendo o público para conhecer os vinhos aqui na Góes, pois se colocarmos diretamente nas gôndolas dos grandes mercados, seria mais um produto e se as pessoas vissem que é de São Roque, sem conhecer o nosso trabalho, não surtiria o efeito desejado. Essa proximidade é muito importante.
Com a pandemia houve uma somatória de fatores positivos, tanto para os vinhos finos e vinhos de mesa. No entanto, nos vinhos de mesa houve um crescimento muito grande nos meses de maio, junho e julho, que causou até espanto e surpresa geral, já que nunca tinha havido tanta procurar como neste período.
Mas enfrentaram diversos problemas com embalagens, garrafas, caixas, que acabou ficando sem itens de reposição face a baixa produtividade da indústria em relação ao necessário para o mundo do vinho.

9 – A Góes se consolidou no mercado com os vinhos considerados de mesa, como está sendo a estratégia para mudar o paladar desse público, fazendo-o migrar para os vinhos finos?
Bem, isso faz parte de uma estratégia, pois atualmente nem sempre é fácil mudar a cabeça do público, com esse crescimento de vinhos finos, mudamos efetivamente de público, pois a ideia é ter produtos que atendam diversas partes do mercado.
A estratégia é propagar o consumo dos vinhos de entrada como o Cabernet Sauvignon que temos: um seco, meio seco e suave, pois pelo fato de ser leve e frutado, fica mais fácil ter uma boa aceitação.

10 – Qual a linha de vinhos completa hoje da Vinícola?
A linha mais conhecida é Góes Tradição e Quinta do Jubair, sendo que esta última é uma marca adquirida no final da década de 1980, quando fazemos vinhos de mesa 100% Bordô cultivadas aqui em São Roque.
Partindo para o vinhos finos, temos o Tempos de Góes Clássico, um Cabernet Sauvignon seco, leve e frutado, ideal para o dia-a-dia. Também contamos com a linha Tempos de Góes Reservado, fazendo um páreo para os vinhos importados, pois na minha opinião, é melhor unir-se a brigar contra eles. Em agosto deste ano, lançamos o Tempos de Góes Sauvignon Blanc e Malbec.
Outra linha é a Pétalas Rosé (feito com Cabernet Franc) e também temos um Syrah com as uvas trazidas de Andradas (MG) e vinificado aqui em São Roque. Essa linha se chama Miniries.
O ícone é o Philosophia, um 100% Cabernet Franc com uvas cultivadas em São Roque.
Temos uma linha de frisante elaborado com a uva Prosseco (meio seco), um suave de Moscato e um Lambrusco. Ainda na parte de espumantes temos a linha Vívere, onde contamos com um Brut elaborado com as uvas Chardonnay através do método Champenoise e um Moscatel.
Finalizando, temos a linha Saint Tropez, um Moscatel branco e um rosé, um Brutrosé elaborado com as uvas Chardonnay cultivadas em Divinolândia (SP) e Cabernet Franc (São Roque) e Brut branco 100% Chardonnay (Divinolândia).

11 – Quais são as perspectivas para o futuro? A dupla poda é algo que veio para ficar?
As perspectivas são promissoras, acredito que a dupla poda veio para ficar. Houve uma boa adaptação no terroir paulista.

12 – Qual é o tratamento feito pela vinícola para que a parreira não tenha um estresse?
Não é feito um tratamento específico para a dupla poda, pois se uma parreira durar uns 20 anos, ela já pagou os investimentos com essa vida útil.
Se for necessário, podemos refazer o plantio, pois não acredito que com o processo de dupla poda, teremos “vinhas velhas”.

13 – Existe algum estudo para elaborar um produto natureba? Qual seu pensamento em relação aos vinhos biodinâmicos e veganos? Pensam em produzir?
Nenhuma chance (0%). A Góes segue a filosofia de trabalho familiar desde o seu princípio e não passa pela minha cabeça fazer algo desse tipo, ainda que seja uma tendência de mercado seguindo a linha de pensamento de diversas pessoas ligadas ao mundo do vinho, sejam elas avaliadores, influencers, etc.

14 – Há algum estudo para o plantio de outras cepas além das que estão no portfólio?
Como a Góes é de origem portuguesa, temos interesse em acertar alguma casta portuguesa. Recentemente adquirimos algumas mudas de Alvarinho de um produtor na cidade de Vacaria (RS). Também lançaremos um corte de Petit Verdot, Cabernet Sauvignon e Cabernet Franc.

15 – Além dos vinhos que já estão no catálogo, existe algum estudo para elaborar um espumante tinto, um vinho de sobremesa ou um laranja?
Sim, temos dois projetos. Temos duas fileiras de Pinot Noir, aonde vamos elaborar um espumante 100% método tradicional (Champenoise) em São Roque, mas se trata de um espumante Blanc de Noir. Não temos a intenção de elaborar um espumante tinto.
Também vamos lançar um licoroso de Lorena, esse vinho está na barrica desde 2011.
Em 2023 está previsto o lançamento do vinho comemorativo para o aniversário de 85 da Góes, será um vinho com 5 ou 6 safras do Philosofia que será um Reserva de Família. Estamos trabalhando com um vinho 100% Cabernet Franc das safras 2016, 2017, 2018, 2019, 2020 e talvez 2021, isso vai depender da evolução do vinho no próximo.
Vale frisar que adquirimos barricas de 500 litros para este vinho. Hoje a Góes trabalha com 90% de barricas francesas e 10% americanas.

16 – Além dos lançamentos que vinícola está fazendo, existe algum trabalho para ampliar ou diversificar o enoturismo existente ou algum outro atrativo para os visitantes?
Bem, entre os atrativos que a Góes pretende oferecer, estão o novo restaurante, um novo lago artificial, uma nova loja com venda de vinhos em taça e uma cafeteria gourmet, onde o cliente poderá escolher diversos tipos de grão de café, que serão moídos na hora e fazer uma degustação.
Temos um passeio pela vinícola na vindima de verão, com almoço no meio dos vinhedos e agora vamos implantar a colheita noturna de inverno com um churrasco fogo de chão e música ao vivo e tudo servido, também, no meio dos parreirais.
Temos um projeto para uma nova sala de degustação exclusiva dentro de uma pileta de vinho.
Ainda não há planos para uma hospedagem, devido à falta de espaço para construir um empreendimento desse porte, mas a cidade oferece algumas opções próximas à vinícola que podem atender o público que queira nos visitar e conhecer os demais atrativos da região.

17 – Além da parceria com a faculdade de enologia em São Roque, a Góes pretende estendê-la para outras entidades? (Senac, por exemplo)?
Não há propostas, mas a Góes está aberta para diversas entidades que tenham interesse, bem como oferecemos palestras. Recentemente fizemos algumas apresentações em unidades da escola Senac em São Paulo (capital) com degustações dos nossos produtos. Acreditamos que isso gera uma proximidade com o consumidor gerando uma fidelidade com os nossos produtos.

Aproveitamos a oportunidade para agradecer ao Fábio Góes e desejar todo sucesso a essa tradicional vinícola localizada a poucos quilómetros da capital do Estado.

+ O Terroir Paulista e seus Vinhos e Vinícolas.

Ivan Ribeiro do Vale Junior.
Advogado / Sommelier / Professor / Escritor
WSET / ISG / FACSUL / UFRGS
@duvalewinetasting

2 comentários em “Entrevista com Fábio Góes – Enólogo da Vinícola Góes

  1. Parabéns por esta excelente entrevista e matéria. Da qualidade e abrangência das perguntas à densidade das respostas, tudo muito útil e agradável de ler. Mas, acima de tudo as felicitações vão à persistência e resiliência da família Góes. Exemplo de empreendedorismo e dedicação.

    Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s