Qual Vinho Levar para a Ceia de Natal

Por Renato Nahas

Não seria um equívoco afirmar que a imensa maioria dos frequentadores do blog são enófilos. Apaixonados por vinho, que somos, temos a tendência de priorizar o vinho no momento da harmonização, ou seja, escolhemos o vinho primeiro e depois a comida para harmonizar. Mas a ceia de natal tem um outro significado e talvez a lógica de harmonização seja outra.

Este ano de 2020 foi muito difícil. Enfrentamos muitas restrições e, infelizmente, o ano se encerra com o aumento no número de casos do Covid. Nesse contexto, convém relembrar o verdadeiro significado da noite do dia 24.  Não tenho aqui a intenção de abordar nenhum aspecto religioso ligado ao evento. Respeitar as crenças de cada um é, para mim, um princípio básico e inegociável. E como veremos mais adiante, apesar de ter sua origem numa religião, a celebração do dia 24 de dezembro é um evento que abrange a todos, independente do credo.

A origem da Ceia de Natal

Uma rápida pesquisa na literatura revela que a origem da Ceia de Natal foi o antigo costume europeu de deixar as portas das casas abertas, no dia de Natal, para receber viajantes e peregrinos. A proposta era uma grande confraternização entre a família hospedeira e os peregrinos, em homenagem àquela data tão significativa para os cristãos. Para essa comemoração era preparada bastante comida, composta por diversos pratos.

Há um menu padrão da ceia de natal?

Essa tradição, baseada na elaboração de vários pratos, foi se espalhando pelo mundo e cada região acrescentando uma particularidade local, como, por exemplo, a adição do peru na ceia norte-americana, peculiaridade que logo passou a fazer parte dos costumes. Dessa forma há uma grande variação.

Para essa nossa “brincadeira de harmonizar” vamos considerar o seguinte cardápio, já lembrando que cada família tem sua variação. Esse cardápio foi elaborado com base numa rápida pesquisa na internet com as receitas padrões:

Aperitivo com frutas secas oleaginosas, como nozes e castanhas, além de outras com figo e damasco secos.

Entrada: saladas como salpicão de frango e ervilha com bacalhau. Além disso, o tradicional tender com fios de ovos e outras frutas secas.

Prato Principal. Aqui vão as aves, como Peru e Chester, acompanhadas de farofas com frutas secas e em calda. Não pode faltar arroz, que pode ser preparado com diversos ingredientes e normalmente vai ao forno.

Sobremesa: Rabanada, Panettone (de frutas secas, por favor, com chocolate é uma aberração), pavê de chocolate, pudim de leite condensado e manjar de maracujá.

E agora? Que vinho, ou quais vinhos escolher?

A primeira constatação é que se trata de uma “farra gastronômica”. São vários elementos a serem harmonizados, o que torna árdua a tarefa do enófilo metido a sommelier e encarregado pela família de escolher (e geralmente levar) os vinhos.

Chama a atenção que vinhos tintos terão muita dificuldade de “encarar” esse jogo. Especialmente os mais encorpados, com teor alcoólico acima de 14% e taninos marcantes. Esse cardápio pede, aliás clama, por vinhos com boa acidez. Lembrando que, no Brasil, a data é marcada por clima quente, o que dificulta ainda mais a apreciação de vinhos com essa característica.

Então, vamos para cada etapa:

Começando pelo aperitivo, o espumante larga na frente. Além de harmonizar com as frutas secas (oleaginosas ou não), combina demais com a ocasião de “início dos trabalhos”. Outras opções interessantes seriam vinhos rosés, desde que os produzidos através da prensagem direta, como os típicos da Provence. Vinhos brancos de médio a pouco corpo e aromáticos, como alguns Rieslings, Vinhos Verdes, Rias Baixas e Sauvignon Blancs (especialmente os da Nova Zelândia), dentre outros, dariam bem conta do recado. Se preferir tinto, a opção deve recair sobre vinhos com baixo teor de álcool, corpo médio para baixo e servidos a temperaturas mais baixas, como Bardolino e Beaujolais Village.

Na entrada, a recomendação de espumantes continua válida. Mas eles precisam de mais estrutura, assim como os Rosés. Os brancos ganham mais espaço, com a versatilidade do Riesling se destacando, abrindo espaço para aqueles com um pouco mais de corpo, especialmente na harmonização com o Tender. O salpicão pede brancos de Corpo médio para alto.

E chegamos ao prato principal. Essas carnes brancas de sabores mais intensos, acompanhadas de pratos com ingredientes variados nos levam para brancos mais estruturados, como bons Alentejanos e, claro, os Chardonnays elaborados “a la Borgonha”, com toques amendoados e amanteigados, fruta com perfil de clima temperado e sabores intensos. Aqui também cabe os Rosés de sangria, como o Tavel, do Rhône Sul e tintos com menos estrutura, como os Pinot Noir do novo mundo.

E para sobremesa, o desafio é dobrado. Minha sugestão é o vinho de sobremesa mais versátil, o Moscatel de Setúbal, que apesar de enfrentar alguma dificuldade com o chocolate, não fará tão feio como outras opções e irá bem com as demais opções.

Recomendação final

A ceia de natal é acima de tudo uma celebração. Seja o motivo religioso ou então por estar com pessoas queridas, não é o momento de fazer análises detalhadas sobre os aromas e eventuais complexidades do vinho. Quem fizer isso vai acabar sendo um “enochato”. Por isso mesmo, não acho que é o momento de levar aquele vinho super, mega especial adquirido numa viagem diretamente na vinícola, guardado na adega por muito tempo. Deixe esse vinho especial para uma ocasião mais apropriada. A ocasião é de confraternização. O vinho não é o protagonista da noite. Não se trata do encontro de uma confraria.

 E não deixe de refletir sobre a importância da data e tudo que ela representa. Independente de suas convicções religiosas. Um bom natal a todos e espero que em 2021 possamos ter um ano muito melhor que esse que se encerra. Um grande abraço a todos amigos ! E Feliz Natal a todos!

Renato Nahas é Sommelier formado pela ABS-SP e Professor nos cursos de Introdução ao Mundo de Vinho e Formação de Sommelier Profissional na ABS-Campinas. Obteve a Certificação Master Level em Borgonha, pela WSG, além da  FWS, CSW e WSET3. Além disso é Formador Homologado de Jerez.

8 comentários em “Qual Vinho Levar para a Ceia de Natal

  1. Belíssimo texto e recomendações impecáveis, como sempre. É um desafio mesmo harmonizar essas ceias e almoços natalinos, mas você propôs um leque de opções muito bem pensadas e testadas. Parabéns, Renato! Artigo muito útil, daqueles para serem arquivados na “caixa de ferramentas” de todos os enófilos. E parabéns ao blog por mais essa utilíssima veiculação … abraço.

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  2. Segue os meus mais efusivos parabéns a esse craque do vinho que é o nosso Mestre Renato Nahas! Um belíssimo artigo, muito bem escrito e de grande utilidade! Parabéns Renato pela pena e também ao Sitta por nos possibilitar ler algo tão precioso!

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  3. Muito feliz no texto e esta versatilidade mais clarificada para a hora de escolher o vinho, sem duvida meus espumantes para dar entrada nos serviços já estão dispostos. Os outros depois do texto me deixou mais tranquilo para as escolhas. Mas enfim, o texto tem um aspecto muito interessante quando olho para trás e vejo o ano mais difícil da minha vida e agora estamos aqui para comemorar, feliz por termos aquela bendita frase, nada melhor do que um dia após o outro. E desejo a todos também um feliz Natal e que possamos estar juntos, nos jantares, mas confrarias o ano que vem, e também nas reuniões on line promovida pelo Blog, foi muito bom, preencheu um baita vazio. Abraços a todos. Parabéns Nahas e Sitta.

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