Iduna Weinert – As Mulheres do Mundo dos Vinhos

Olá,

Hoje, dia 8 de março, comemora-se o Dia Internacional da Mulher. E para celebrar essa data tão especial, trazemos uma entrevista com Iduna Weinert, diretora comercial de uma das vinícolas mais prestigiadas na Argentina, a Cavas Weinert, e mulher de grande destaque no Mundo dos Vinhos.

+ Bodega y Cavas Weinert

Iduna tem 37 anos, é brasileira e formada em comércio exterior. Trabalhou na Nespresso antes de assumir sua posição na vinícola e foi o grande destaque dos eventos on-line promovidos pelo Blog desde o ano passado. Esbanjando talento e com muito carisma, ela tem comandado a transformação da Weinert, de uma estrutura familiar, em uma empresa profissional.

Devido a distância e a pandemia, nossa entrevista ocorreu através da ferramenta Zoom, e o vídeo completo está sendo editado e será divulgado em breve em nosso canal do IGTV (no Instagram).

Iduna

Aproveito a oportunidade para parabenizar todas as nossas leitores e em especial nossas colaboradoras Jackie Javkin, Marília Fujiwara, Poetisa do Vinho (Rose White) e Ana Carolina Sitta, que contribuem com valiosos posts para nosso Blog!

Espero que apreciem!

Iduna, você sabe que você é tão carismática?
(Muitos risos) Acho que é porque eu sou brasileira. Eu acho que quando uma pessoa está feliz e contente, fazendo o que gosta de fazer, sempre é mais fácil refletir e transpassar essa alegria.

Você vem de uma família de longa história e tradição no mundo do vinho, praticamente nasceu dentro de uma vinícola. O seu contato com os vinhos foi desde criança ou veio depois?
Olha, foi desde criança. Acho que hoje seria até politicamente incorreto o que meus pais fizeram, pois nós sempre pudemos provar vinhos, desde muito criança. Se você me perguntar quando foi a primeira vez que eu provei vinho, eu não me lembro, não sei. Eu sou brasileira, carioca e nasci e me criei no Rio de Janeiro mas, a cada seis meses, a gente vinha a Mendoza (onde fica a bodega) porque a bodega é mais velha do que eu. Então eu sempre tive muito contato com os vinhos, a gente sempre passava as férias em Mendoza que naquela época ainda não era uma cidade turística. Então, não tinha muita para fazer. 
A bodega hoje está em uma área urbana mas, naquela época, era cercada por vinhedos e era muito legal esse contato com o campo que não tinha no Rio de Janeiro. Também era muito comum as crianças de Mendoza provarem vinho, principalmente misturado com soda, que é uma água com muito gás, e era o “refrigerante” da época. Então, sempre foi muito natural esse meu contato com o vinho.

Qual é sua formação?
Eu estudei comércio exterior em Buenos Aires. Eu sempre gostei muito de química, então na verdade eu comecei estudando engenharia química e depois mudei para comércio exterior, porque eu sempre fui muito dessa parte comercial, eu gosto de vendas, sou uma vendedora. Eu sempre gostei muito dessa parte comercial dos vinhos, porque não é apenas vender um produto, mas sim vender um conceito, vender a história da minha família, do porque nós viemos a Mendoza produzir vinhos.
Eu também gosto bastante da parte de exportação, e acabo viajando bastante (exceto agora em função da pandemia), para diversas feiras e eventos, em diversos países e me encanta entender a diferente relação de cada país com os nossos vinhos.

E você tem algum curso específico na área de vinhos?
Sim, em 2015 ou 2016 eu fiz, ai no Brasil, na Eno Cultura, o WSET III. Aqui na Argentina, bem lá atrás, em 2004, eu fiz o curso de Sommelier, quando o curso começou aqui e depois fiz vários cursos de capacitação e especialização. 
Mas foi quando eu estive no Brasil, entre 2010 e 2017, que pude aprimorar meu conhecimento prático devido a abertura do mercado brasileiro (em relação ao mercado argentino). No Brasil você consegue provar vinhos de qualquer parte do mundo enquanto na Argentina, raramente você consegue provar vinhos de fora do país.

Nos conte um pouco do seu crescimento dentro da Weinert, que hoje você é a Diretora Comercial. Como é hoje dividida a administração da bodega?
Hoje a gente vem em um processo de reestruturação da bodega desde 2017. Eu voltei para a Argentina em 2017 e começamos uma nova administração dentro da qual eu sou a Diretora Comercial. Junto comigo trabalha também um garoto que é super jovem e inteligente, ele tem 35 anos e faz toda a parte administrava e financeira. 
Nós percebemos que a administração da Weinert era muito centralizada. Havia uma pessoa para decidir tudo, muito característico de empresas dos anos 50, 60 de estrutura familiar, havia essa herança. Eu trabalhei muito tempo no Brasil, na Nespresso, e durante o período que estive lá, pude acompanhar o crescimento estruturado de uma empresa que tinha 10 funcionários quando eu entrei e mais de 300 funcionários quando eu sai. Foi uma grande escola.
Isso plasmado na bodega, a gente vem criando protocolos para que cada colaborador saiba qual é o objetivo da empresa (produtos, clientes e muito mais). E depois, cada setor conhecendo bem suas responsabilidades. Hoje somos uma bodega relativamente pequena, com 22 pessoas no total, desde o pessoal que cuida dos tonéis até diretores e gerentes, então é muito fácil ter essa linha de comunicação com todo mundo. Todos os dias quando eu chego na bodega eu dou uma volta pelos setores, não pra somente ver o que está acontecendo, mas para dar bom dia a todos. Muitas das pessoas aqui são funcionários antigos e me conhecem desde criança.
É muito interessante, hoje estamos em um mix de uma empresa que está se estruturando, pois essa estrutura é necessária para o crescimento que desejamos, de uma forma organizada, mas ao mesmo tempo mantendo o sentimento de família, de que todos se conhecem. Também estamos em um momento de transformação, de renovação de pessoas. Nos últimos 3 anos, cinco funcionários se aposentaram e outros estão por fazê-lo. Eles estão transmitindo o conhecimento técnico para jovens de 24, 25 anos.

A Weinert é uma das vinícolas mais tradicionais da Argentina com um estilo de vinho muito tradicional também. Como você encaixou esse seu perfil tão dinâmico dentro dessa estrutura que parece ser mais conservadora?
Eu acho que o estilo de vinificação da Weinert, seu estilo de vinhos, é o principal ativo da empresa. Isso é uma coisa que eu percebo como diretora comercial e pretendo cuidar e continuar o que foi estabelecido por meu pai junto com Don Raul de La Mota (o primeiro enólogo da bodega) e que o Hubert (o suiço Hubert Weber), que é nosso chefe de enologia há 25 anos (foi o substituto de Raul de La Mota), também mantém. Como pessoa jovem eu vejo isso como uma enorme oportunidade, vejo a Weinert como única nesse estilo na Argentina, na América do Sul. Antes de achar isso chato, velho ou tradicional eu vejo isso como a grande beleza, o ativo da bodega. 
Por outro lado, em 1977, depois de dois anos que a empresa foi adquirida, fizemos uma grande reforma no edifício que data de 1890. Mantendo toda a arquitetura original, as tradicionais cavas originais, a empresa foi transformada tecnicamente para produzir vinhos de altíssima qualidade, de perfil varietal que não existia na Argentina na época e de alta tecnologia, tornando-se na época a bodega de vanguarda em Mendoza mas para produzir vinhos de estilo europeu. Não se pode confundir estilo com qualidade, estes têm que andar juntos.
Acho que o meu dinamismo está no fato de que eu adoro escutar o mercado, não gosto de receber apenas elogios, quero receber críticas de como eu posso melhorar meus vinhos, meu trabalho. Uma crítica pra mim é sempre construtiva senão viramos uma bolha.

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Eu já ouvi de muitas pessoas que o Mundo dos Vinhos é machista. Qual sua opinião?
Olha, por sorte eu nunca tive nenhum empecilho por ser a única mulher da família. Tenho dois irmãos que não quiseram trabalhar na bodega e o fato de eu ser mulher nunca me trouxe nenhuma dificuldade tanto da parte do meu pai como de qualquer pessoa do meio. Eu nunca tive nenhuma situação de não ser escutada por ser mulher.
É certo que quando eu comecei a viajar (eu tinha apenas 22 anos), a grande maioria dos gerentes de exportações e enólogos eram homens, mas acho que isso vem mudando bastante. Eu não diria que é por um feminismo ou machismo, eu não gosto de ser extremista, acho que tudo é complementar. Eu gosto muito de trabalhar e escutar as mulheres, geralmente mais criativas e românticas, assim como os homens, que são mais de processos ou mais objetivos.
Hoje temos mulheres de destaque em inúmeras profissões e eu acho muito interessante o complemento que a mulher traz ao mundo do vinho, com essa visão mais criativa, mais sensorialmente delicada, em todas as instâncias, desde a enologia, a agronomia, a parte comercial, a sommellerie, jornalismo, etc.

Quais são os desafios para o futuro?
Estamos passando por um processo de profissionalização da empresa, não que antes não fosse profissional mas era necessária uma estrutura mais organizada para poder crescer com foco na exportação que sempre foi a força comercial da empresa. Estamos expandido para Ásia, tem novos projetos para o Brasil, e essa organização é necessária para essa expansão. Como eu sempre digo, temos que trabalhar com a cabeça e não com os pés.
Também estamos fazendo uma segunda reforma para melhorar mais os vinhos. Hoje nós temos um potencial de guarda, em piletas, para três milhões de litros mas vendemos apenas cerca de 500.000 garrafas por ano. Hoje nos trabalhamos com 17 fornecedores de uvas da região de Lujan de Cuyo. Acontece que de 40 anos para cá, Lujan de Cuyo virou sub-regiões: Vistalba, Agrelo, Drumond, Pedriel e dentro dessas fincas hoje também temos um conhecimento muito mais profundo do solo, onde dentro do mesmo vinhedo, pela características heterogênicas do solo, a parcela A seja diferente da parcela B. Então, para aproveitar essas diversidades, estamos transformando, por exemplo, uma pileta de 50.000 litros que albergava um vinhedo de um hectare em três de quase 20.000 litros cada para poder vinificar as parcelas desse vinhedo.

Pra fechar, qual foi o impacto e quais lições que a pandemia da Covid-19 tem deixado?
A pandemia é algo que eu espero dentro de pouco tempo, porque ainda estamos vivendo, considerar como um passado distante. Foi horrível, não tem outra forma de dizer. Foi uma situação de muita incerteza pois estávamos no meio da colheita em março do ano passado. Eu tinha acabado de ir para Buenos Aires e não pude voltar a Mendoza até Outubro.
Eu acho que a grande lição que eu tive nesse momento, junto com nossos clientes, produtores, colegas e colaboradores foi de você ter essa empatia, de entender o que o outro está passando e entender porque você também está passando por isso. Aqui na Argentina nós passamos por uma quarentena muito longa, eterna e cuidamos da forma de tratar as pessoas, de toda a parte psicológica, de abraçar o outro mesmo passando pela mesma situação foi muito importante.
Já em termos comerciais foi muito positivo. Parece que as pessoas passaram a cozinhar mais em casa e beber mais vinho. Eu comecei a beber muito mais vinho na quarentena e apesar de saber que isso foi positivo, não tem como dizer que a situação não foi caótica de muita incerteza.
Vamos ver o que nos espera em 2021, mas eu não vejo a hora de tudo isso terminar, de poder ver turistas brasileiros em Mendoza e principalmente de visitar o meu país. Eu estou doida para voltar para o Brasil!

E, em um clima bastante descontraído, terminamos a entrevista. Como vocês podem perceber, Iduna é uma mulher extremamente talentosa e inteligente, sem contar sua simpatia. Mais uma das grandes mulheres do Mundo dos Vinhos.

+ 25 Mulheres do Mundo dos Vinhos.

Pra nossa sorte, ela já está confirmada para uma nova degustação on-line com os amigos do Vaocubo, em abril!

Parabéns novamente a todas as mulheres e nos vemos em breve.

4 comentários em “Iduna Weinert – As Mulheres do Mundo dos Vinhos

  1. Bela entrevista! Admiro muito uma pessoa que nasceu em berço de ouro, mas que se empenha em levar o negócio adiante, inovando, mas mantendo as linhas mestras e tradicionais da vinícola. Senti muito equilíbrio e suas palavras.

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