Mudanças nos Vinhos da Rioja

Por Renato Nahas

Em breve, novos termos começarão a aparecer no rótulo dos vinhos de Rioja. Entenda o que mudou e como interpretar os conceitos por trás dessas alterações, aprovadas a partir da safra de 2018.

Alguém poderia perguntar: “mas se mudou a partir da safra 2018, por que ainda não estamos vendo rótulos com essas alterações?“ Vale lembrar que os vinhos dessa região passam por longo processo de envelhecimento, antes de serem distribuídos ao mercado. Um Rioja Reserva, por exemplo, envelhece 36 meses na Bodega e só pode ser comercializado no início do 4o ano seguinte ao da safra. E os bons produtores, geralmente, aguardam mais tempo do que o mínimo exigido, ampliando ainda mais esse tempo. Por isso, ainda é raro encontrarmos esses termos nos rótulos disponíveis no mercado. Mas em breve eles deverão ser frequentes.

Vale dizer que, nesse post, abordaremos apenas as mudanças nos vinhos tintos da Rioja. Assim como os tintos, os brancos e espumantes também passaram por alterações, mas esses estilos não serão abordados aqui.

A Tradição dos vinhos do velho mundo

Tradição é o “nome do jogo” quando se fala em vinhos do velho mundo. Nas áreas históricas de produção, majoritariamente na Europa ocidental, a regulamentação e o rótulo dos vinhos, salvo algumas exceções, pouco mudaram ao longo do tempo.

Essas regiões são disciplinadas por regras definidas há anos. A Classificação dos vinhos da margem esquerda de Bordeaux, por exemplo, que definiu os “Grand Cru Classés” foi estabelecida em 1855.

Já na Borgonha, os Monges classificaram os vinhedos na idade média. Posteriormente, na década de 1930, essa classificação foi revisada e regulamentada, seguindo os pilares básicos definidos pelos religiosos. E estão  vigentes até hoje.

Na Espanha, porém, apesar da longa tradição, os regulamentos que definem as denominações de origem mudaram e mudam com mais frequência. A propósito, acompanhar as mudanças nas regulamentações dos vinhos desse país não é trivial. A todo instante há novidades.

Por que a legislação muda tanto na Espanha?

A história da Espanha no século 20 foi bastante tumultuada. A guerra civil, na década de 1930, dividiu o país e culminou na ditadura do General Franco que durou até sua morte, na década de 1970.

Nesse período, o país se isolou do mundo. Mas os espanhóis continuaram produzindo e consumindo bastante vinho. Apesar de ter sido estabelecido um sistema de denominação de origem no início da década de 1930, as turbulências internas fizeram com que apenas algumas regiões vinícolas fossem contempladas. A DO Ribera del Duero, por exemplo só foi criada 50 anos depois, em 1982.

Em paralelo poucos investimentos foram observados na vitivinicultura em boa parte do século 20. O foco se deu na produção de vinhos tradicionais, principalmente, os chamados “bulks wines” (vinho a granel, ou de mesa).

Foi a partir da década de 1980, com a adesão da Espanha ao Mercado Comum Europeu, que a indústria do vinho espanhol recebeu uma avalanche de investimentos. Nesse contexto, uma série de regiões foram demarcadas com denominações de origens. Começou aí um “boom” de qualidade que dura até hoje.

Dessa forma, as mudanças na legislação refletem o grande dinamismo do vinho espanhol, no final do século 20, e se desdobra até os dias atuais

Como era a legislação dos Vinhos da Rioja até 2017

Os critérios de classificação dos vinhos da Rioja, até 2017 era, basicamente o processo de envelhecimento. Eram 4 categorias: Joven, Crianza, Reserva e Gran Reserva, conforme apresentado na figura acima. E reparem que cada classificação possui uma cor específica no selo que é estampada no rótulo (Gran Reserva é azul, Reserva é roxo, etc). A definição de cada um desses grupos é a seguinte:

Rioja Joven – Vinhos que não estagiam em carvalho ou que o período de madeira é inferior a classificação crianza (12 meses). Comercializados a partir do ano seguinte ao que foram colhidas as uvas.

Rioja Crianza – Vinho que passa pelo menos 12 meses em madeira e que só pode ser comercializado após o início do 2.o ano seguinte ao da safra.

Rioja Reserva – Vinho que passa pelo menos 12 meses em madeira e mais 24 meses em garrafa (ou vice-versa) e que só pode ser comercializado no 4º ano seguinte ao da safra.

Rioja Gran Reserva – Vinho que passa pelo menos 24 meses em madeira e mais 36 meses em garrafa e que só pode ser comercializado no 6º ano seguinte ao da safra.

O que mudou a partir da safra de 2018

Antes de mais nada, vale registrar que a classificação pelo método de envelhecimento não mudou. Continuam valendo as quatro categorias anteriormente citada. Apenas o nome da categoria de entrada, que era chamada de Joven, foi alterada para Genérico. A figura abaixo ilustra como esse novo critério complementa o anterior:

A mudança se deu com a introdução de uma nova dimensão: a localização do vinhedo, que vai desde toda a região da Rioja, passando pela zona de produção, município e um vinhedo único.

Basicamente o que se busca é explicar melhor as diferenças de terroir. A pirâmide acima, teoricamente, reflete a qualidade do vinho. Quanto mais específico for a localização, mais nobre tenderá a ser o vinho. Esse é exatamente o conceito criado pelos monges religiosos que ao longo de séculos, desde a idade média, esquadrinharam e classificaram cada pedaço de terra na Borgonha. Nesse sentido, podemos dizer que o “Viñedo Singular” da Rioja tem como objetivo ser equivalente a um “Grand Cru” ou “Premier Cru” da Borgonha.

Assim, a nova pirâmide de classificação da Rioja, contempla os seguintes conceitos: “Viñedos Singulares”, “Vinos de Municipio”, “Vinos de Zona” e “Genérico”

Viñedos Singulares – o nome do vinhedo passará a constar no rótulo, como se fosse uma marca. A figura abaixo exemplifica como será o novo rótulo. Nesse exemplo, o nome do vinhedo, “Finca Carrasol” vem discriminado, indicando a originam das uvas utilizadas na elaboração do vinho. No rótulo é também apresentado o nome do município que abriga o vinhedo. No caso Cenicero, uma cidade que abriga 13 Bodegas.

Para um vinhedo ser classificado como “Viñedo Singular”, deverão ser cumpridos os seguintes critérios:

  • Se a uva for comprada de terceiros, é requerido um contrato mínimo de 10 anos entre o produtor da uva e a Bodega.
  • A vinhas devem ter no mínimo 35 anos de idade e a colheita deve ser manual.
  • O Rendimento do vinhedo deve ser, pelo menos, 20% inferior ao requerido pelo Consejo Regulador.
  • Deve ser possível rastrear a produção, desde a uva até a garrafa.

Abaixo do “Viñedo Singular” estão os “Vinos de Municipio” (os villages da Borgonha).  Vale dizer que desde 1999 já era autorizado. Porém os critérios não eram claros e foram aperfeiçoados. Tais critérios são:

  • A Bodega deve estar localizado no município que estiver no rótulo do vinho.
  • No máximo 15% dos vinhos podem vir de municípios vizinhos. Se for comprado, é exigido um contrato mínimo de 10 anos.
  • Deve ser possível rastrear a produção, desde a uva até a garrafa.

Os “Vinos de Zona” são autorizados na Rioja desde 1998. Porém, é comum ver o uso apenas da região de maior prestígio, a Rioja Alta. No bojo das alterações o nome da zona de menor prestígio, a “Rioja Baja”, aproveitou ser rebatizada para “Rioja Orientale”, numa tentativa de deixar usar um termo considerado pejorativo pelos produtores. A regra aqui é que, pelo menos, 85% das uvas sejam oriundas da Zona de levar o nome no rótulo.

Será que essa nova classificação “vai pegar”?

É comum alterações no mundo do vinho não saírem do papel. Um bom exemplo é o Chile que tentou criar três áreas vinícolas no país que deveriam constar nos rótulos dos vinhos: Costa, Entre-Cordilheiras e Andes. Salvo engano a adesão a essa nova classificação não foi integralmente adotada nos rótulos até hoje.

Mas a julgar pelo entusiasmo na região da Rioja, essa alteração deverá sim ser abraçada pelos produtores. E será muito útil para os enófilos, pois novos elementos da qualidade do vinho serão acessíveis de forma mais clara.

Mas será que que os produtores irão adotar esse novo conceito? É ver para crer. Vamos conferir nos rótulos da safra 2018 que em breve começarão a ser distribuído no Brasil.

Renato Nahas é Sommelier formado pela ABS-SP e Professor nos cursos de Introdução ao Mundo de Vinho e Formação de Sommelier Profissional na ABS-Campinas. Obteve a Certificação Master Level em Borgonha, pela WSG, além da  FWS, CSW e WSET3. Além disso é Formador Homologado de Jerez.

13 comentários em “Mudanças nos Vinhos da Rioja

  1. Sou fã dos vinhos da Rioja. Mas, quem não é? Tradição é sempre muito importante em matéria de vinhos, mas pode haver espaço para melhorar. Esse adicional agora introduzido na classificação dos vinhos de lá me parece bastante adequado e segue uma tendência que vem tomando corpo: o single vineyard e, como você mencionou, os villages. Excelente artigo, Nahas! Não tinha essa informação ainda. Além disso, ajudou a relembrar alguns conceitos dessa região espetacular. Parabéns: mais um artigo de excelência!

    Curtido por 2 pessoas

    1. Obrigado Comendador. Realmente, como não ser fã dos vinhos da Rioja? E quanto mais gostamos mais informações específicas buscamos. Acho que essa busca da região tem a ver com isso. Um grande abraço, meu caro

      Curtido por 2 pessoas

  2. Belo artigo, Nahas!! Já tratei dessas alterações no curso que ministro sobre Espanha e suas regiões. Belíssimo trabalho e comparativo com as classificações francesas. Abraços e sucesso.

    Curtido por 2 pessoas

  3. Artigo completíssimo e hiper-didático como sempre, Mestre Renato. Nitidamente é mais uma tentativa de copiar a classificação de qualidade da Borgonha, como o Mestre tão bem destacou. Porém, mais uma vez, o conceito de Viñedo Singular pode não ter o mesmo peso e relevância do que o conceito de um Cru da Borgonha. Ele é o conceito puro de Single Vineyard, com alguns enforcements adicionais de qualidade (por exemplo: idade das vinhas), mas longe daquele conceito mais completo de terroir (solo, aspecto, gradiente do terreno, altitude, clima, micro-clima, leveduras nativas, fauna, flora etc). Na Borgonha, um Cru transcende o conceito de um Single Vineyard e contempla todos esses aspectos inerentes ao terroir, que como você bem citou, foi mapeado há séculos pelos monges. Por isso, mesmo amando demais a Rioja, como eu amo, reconheço que a Borgonha é a Borgonha!!

    Curtido por 2 pessoas

    1. Perfeito Mazon. O conceito nasceu na Borgonha e nasceu há séculos. E envolve muito mais do que uma localização física, mas sim todos os aspectos que vc também ressaltou e que estão contidos no conceito de terroir. Mas, por outro lado é bom termos mais informações. Vamos ver se a partir de 2022, quando começarão chegar os bons vinhos da safra 2018 como isso estará colocado.

      abração

      Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s