O Terroir Gaúcho e seus Vinhos e Vinícolas

Por Ivan Ribeiro

Enfim, Rio Grande do Sul, de onde deveria ter nascido meu projeto, mas tornou-se o ponto final de pesquisas, ou diria “penúltimo”, como diz o Humberto Conti da Villaggio Conte. Exatamente por buscar os Novos Terroirs do Brasil e saber que já temos novas regiões surgindo e será um processo incansável de busca e descobertas em várias regiões. E nunca será a última região e nem o último ponto.

Mas, o mundo do vinho é assim mesmo. Não é por nada que dizem que “cada garrafa é uma história”. E que a garrafa de um vinho é “poesia engarrafada”. Poesia que encanta à todos em cada degustação e nos encanta pela própria história do vinho que se abraça com a história do mundo e suas conquistas.

E o Brasil segue no mesmo ritmo de lutas e conquistas ao longo de sua pequena história no mundo do vinho.

Uma história que se iniciou em 1552 através de Brás Cubas e veio evoluindo para a Região Sul e no Rio Grande do Sul com avanços e realizações que estão descritas no post: A Origem e a História da Produção de Vinhos no Brasil.

Desta forma vamos focar apenas nas reais conquistas e avanços do Rio Grande do Sul e sua primeira vitória em 2002 ao ter reconhecida sua Indicação Geográfica da região do Vale dos Vinhedos. E, por ele representar boa parte das IG’s do Brasil, conforme já mencionamos em outros artigos sobre o tema.

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Mas, especificamente hoje, o Rio Grande do Sul é considerada uma das principais regiões produtoras e a maior produtora de vinhos do Brasil, estando localizada nos paralelos 30º e 50º (o que, no Brasil já ficou comprovado que não define muito a qualidade do vinho em relação à outras regiões que estão produzindo vinhos no Brasil, como já comentamos em outros tantos artigos) é representado por 6 (seis) grandes regiões específicas e descritas abaixo:

– Campanha Gaúcha;

– Serra do Sudeste;

– Vale Central;

– Região Metropolitana;

– Serra Gaúcha;

– Campos de Cima da Serra.

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Dentro de cada uma dessas regiões temos diversas vinícolas que podem ser representadas de várias formas, como iremos tratar no presente estudo. Iniciando pela Campanha Gaúcha e seus vinhos e vinhedos.

Campanha Gaúcha:

A região da Campanha Gaúcha é uma área que se estende pela fronteira do Uruguai e Argentina com o Brasil, indo de Itaqui a Bagé, passando por Uruguaiana, Dom Pedrito e São Borja. Uma região que teve seu período de baixa em produção, mas vem numa retomada vertiginosa e com grandes e premiados vinhos.

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Com clima seco e quente no inverno, tem se tornado uma região com potencial para uvas tintas como: Syrah, Marselan, Temperanillo e Tannat, com produção de vinhos de extrema qualidade.  Sendo um registro histórico de bebidas, já que existem relatos que por lá já plantavam desde a época dos jesuítas.

Dentre todas as castas produzidas na região, além das que citamos acima, temos também as tintas: Cabernet Sauvignon, Merlot, Touriga Nacional, Alfrocheiro, Tinta Roriz, Teroldego, Malbec, Carmenere, Cabernet Franc. As castas brancas principais são: Chardonnay, Gewürztraminer, Pinot Grigio, Sauvignon Blanc. 

O solo é arenoso de boa drenagem e baixa acidez, e altitude que variam de 100 à 300 metros acima do nível do mar.

Vale Central:

O Vale Central é uma região de destaque dentro do Rio Grande do Sul, localizada entre a Serra e a Campanha, abrangendo os municípios de Santa Maria e Itaara, e é formada por diversos vales, com altitude e planícies que resultam num local perfeito para o cultivo de uvas e produção de excelentes vinhos.

Conhecida como o coração do Rio Grande do Sul, o vale central vem dando vazão à produção de vinhos com as castas italianas, como: Sangiovese, Nebbiolo e Montepulcino, bem como, as castas internacionais Cabernet Sauvignon, Merlot, Chardonnay e Pinot Noir, por exemplo. Para produção de vinhos e espumantes temos as castas: Chardonnay e Pinot Noir.

Por lá, além de pousadas, pontos históricos e muita cultura enraizada, temos dois pontos que se destacam, a Quinta dos Teixeiras  e a Vinícola Velho Amâncio:

A Quinta dos Teixeiras é uma pequena propriedade rural, localizada no município de Itaara, e que é comandada pelos irmãos Cláudio e Francisco. Por lá eles cultivam as uvas italianas, Sangiovese, Nebbiolo e Montepulcino, além de Rebo e Syrah, que são utilizadas para blends. Os vinhos podem ser degustados no espaço específico para almoços harmonizados, onde pode ser saboreado todo sabor e encanto do local, degustando desde o espumante da propriedade Dona Laurentina, até o limoncello produzido por eles, que vem dos limoeiro ao lado da vinícola. 

A Vinícola Velho Amâncio, comandada atualmente pela bisneta de Amâncio, a engenheira agrônoma e enóloga Aline Fogaça, é pioneira na elaboração de vinhos da região. De origem portuguesa, o velho Amâncio, produz vinhos há mais de 30 anos na região. A vinícola tem se concentrado no aumento de produção de espumantes, inclusive pelo método Champenoise, o que vem fazendo dos mesmos ponto de referência de produção, além de toda as linhas de vinhos tranquilos produzidos pela vinícola e que podem ser saboreados através de degustações realizadas nos fins de semana. Agende e conheça.

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Região Metropolitana:

Essa região fica dentro de Porto Alegre! Isso mesmo, tem vinhedos dentro de Porto Alegre. A Capital tem história com a Festa da Uva na Vila Nova desde a imigração dos açores. E tem vinhedos de uvas finas, que inclusive são exportados para os Estados Unidos.

Além da Capital, Barra do Ribeiro, Mariana Pimentel e arredores também estão apostando no cultivo das uvas para elaboração de vinhos.

Sudoeste do Estado:

A Serra do Sudeste vem despontando de forma vertiginosa e despertando interesse de muitos viticultores por terras ainda inexploradas naquela região. Abarcada pelos municípios de Encruzilhada do Sul e Pinheiro Machado, todo esse processo de produção de vinhos decorre da década de 90 para a atualidade, com diversidade de videiras tintas e brancas na produção de vinhos tranquilos e de espumantes, muito em breve.

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As castas que vem se destacando na região são a Pinot Noir e a Chardonnay. Mas podemos destacar os plantios da Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc, Teroldego, Marselan, Gamay, Merlot, Tempranillo, Tannat, Touriga Nacional, Alicante Bouschet e Ancelotta, além das brancas, Sauvignon Blanc, Grewurztraminer, Malvasia de Cândia, Riesling  e Pinot Grigio.

Toda essa produção, antigamente, era enviada para Serra Gaúcha de onde eram produzidos os vinhos. Contudo, essa realidade vem mudando com pequenas vinícolas que estão surgindo na região com projetos sensacionais.

De 2012 para cá podemos contar com o surgimento da Bodega Czarnobay e a Brocardo Vinhos e Vinhedos, em Encruzilhada do Sul, e a TerraSul, que fica em Pinheiro Machado. Sem considerarmos outros tantos projetos que estão crescendo na região e que serão evidenciados no momento exato, por conta de toda a produção e qualidade das terras, região, solo, clima e amplitude térmica. Fatores fundamentais para produção de grandes vinhos.

Campos de Cima da Serra:

A região dos Campos de Cima da Serra, que engloba a cidade de Vacaria e arredores (Muitos Capões e Monte Alegre dos Campos), tem se destacado com uma grande área de produção de vinhos do Rio Grande do Sul. Com excelente amplitude térmica e região de plantio de várias frutas como maçã, mirtilo, morango e framboesa, tem nas uvas um grande e vitorioso resultado.

Com altitude que variam de 850 à 1100 metros acima do nível do mar, destaca-se para a produção de vinhos de inverno. Um pouco abaixo, em termos de altitude, que os vinhedos localizados na Serra Catarinense.

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Dentre as castas que se destacam na produção da região, temos as tintas: Ancelotta, Cabernet Franc, Cabernet Sauvignon, Merlot, Tannat e Pinot Noir, e as brancas: Chardonnay, Moscato Branco, Glera (Prosecco), Trebbiano e Viognier.

Algumas vinícolas da região já são bem famosas pela produção de vinhos de extrema qualidade. Destacam-se: Aracuri Vinhos Finos, Vinhos Sopra, Vinícola Sozo, Vinícola Campestre, Vinícola Fazenda Santa Rita (atualmente denominada Família Lemos de Almeida) e Vinhos RAR (cuja vinícola pertence ao empresário Raul Randon, que foi um dos pioneiros em cultivar uvas nessa região, tendo começado com as castas Cabernet Sauvignon e Merlot e depois despertou outros investidores para as uvas Sauvignon Blanc e Pinot Noir).

Serra Gaúcha:

A Serra Gaúcha fica localizada no nordeste do Rio Grande do Sul, e representa uma das grandes áreas da viticultura do Brasil, com diversos produtores de extrema qualidade, com um volume grandioso e vinhos primorosos.

A principal cidade dessa região é Bento Gonçalves, que fica situada o Vale dos Vinhedos. Ainda temos Garibaldi, Flores da Cunha, Pinto Bandeira e Farroupilha. Que são cidades muito próximas umas das outras. Podemos descrever como uma região onde respira-se vinho, vinhedos, turismo, produção com dedicação e amor ao mundo do vinho. São regiões “obrigatórias” para visitação em viagens para o Rio Grande do Sul.

Com clima e condições geoclimáticas ideais para o melhor desenvolvimento de vinhedos, costuma sofrer com o excesso de chuvas próxima a época das colheitas, o que acaba prejudicando muitas vezes uma maturação completa das uvas, já que o período próximo à colheita é o período crucial para que a uva complete seu ciclo de maturação plena.

Mas, é uma região que tem registrado grandes safras e excelentes vinhos, como as safras de 1999, 2002, 2004, 2005, 2006, 2012, 2018 e 2020. Tem uma altitude que varia de 400 à 700 metros acima do nível do mar, solo areno-argiloso ácido e média pluviométrica de 1.800mm/ano.

Vale dos Vinhedos:

Uma das principais e mais desejadas regiões de visitação do mundo da viticultura no Brasil, fica localizada junto à cidade de Bento Gonçalves, na Serra Gaúcha.

Uma região marcada por descendentes de imigrantes italianos, que foram pioneiros da viticultura nessa região e no Brasil. Tendo chegado por lá nos idos de 1875, encontraram nessa localidade clima e temperaturas ideias para produção de vinhos de qualidade, que foram incentivados pelo avanço tecnológico implementado na viticultura da região, possibilitando o crescimento e a melhoria da qualidade dos vinhos produzidos por lá.

Dona da primeira certificação do Brasil, o Vale dos Vinhedos é a primeira região vinícola do Brasil a obter Indicação de Procedência de seus produtos, podendo exibir o Selo de Controle em vinhos e espumantes elaborados pelas vinícolas que fazem parte da Aprovale (Associação dos Produtores de Vinhos Finos do Vale dos Vinhedos), criada em 1995 com o propósito de alcançar uma Denominação de Origem, conquista alcançada em 2001, quando foi recebida o selo de Denominação de Origem.

Por lá temos a Angheben, Don Laurindo, Miolo, Casa Valduga, Dom Bernardo, Vinícola Buffon e tantas outras que trataremos em assuntos posteriores onde iremos descrever com maiores detalhes essas vinícolas.

Pinto Bandeira:

Localizada à 12 quilômetros de Bento Gonçalves, esta região está em fase final de se tornar a primeira denominação de origem para espumantes do Novo Mundo, cujo processo já está em andamento junto ao INPI. Fato mais do que merecido, para chancelar o que pode ser comprovado pela qualidade dos vinhos e espumantes produzidos nessa região.

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Vinícolas como a Família Geise e seus fabulosos espumantes, a Don Giovanni, que tem tradição na produção de vinhos e espumantes há mais de 30 anos, a Vinícola Valmarino e seus vinhos sensacionais produzidos pela uva Cabernet Franc, inclusive os vinhos e espumantes produzidos em parceria com a Churchill, dentre tantas outras que podemos citar da referida região.

Garibaldi:

Outra cidade que se destaca é Garibaldi. Com forte tradição italiana, é conhecida como a capital nacional do espumante e é a maior produtora da bebida no Brasil. Lá encontramos uma das primeiras produtoras de espumantes do Brasil, a centenária vinícola Peterlongo, que tem grandes espumantes, uma produção e receptivo fantástico e dona do primeiro Champagne do Brasil, cuja autorização foi concedida para carregar essa chancela.

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No centro da cidade temos a Cooperativa Garibaldi, uma cooperativa de produtores de vinho que tem mais de 80 anos de experiência e oferece vários programas aos visitantes, como a degustação às cegas, constituindo essa região em mais um ponto fundamental de visitação dentro de uma viagem para o Rio Grande do Sul.

Flores da Cunha:

Flores da Cunha, conhecida também como Altos Montes, é uma região que podemos descrever como sendo um pedaço da Itália na Serra Gaúcha.

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Cercada por grandes vinícolas e detentora de um enoturismo fantástico, por lá podemos degustar os vinhos produzidos por ótimas vinícolas, como a Luiz Argenta, Família Bebber e Viapiana, dentre tantas outras que podemos encontrar na região.

Farroupilha:

Farroupilha é uma cidade localizada na Serra Gaúcha e foi, em 2019, declarada como Capital Nacional do Moscatel, que se une ao titulo de IP Farroupilha de 2015, dando maior margem e peso para as vinícolas e grandes vinhos produzidos na região. Possui uma área de vinhedos de 540 hectares, onde mais de 213 hectares são cultivados com Moscato Branco, sendo a maior área de cultivo dessa casta dentro do Rio Grande do Sul e também a maior área de produção dessa casta do Brasil.

Tradição desde de 1930, o cultivo de Moscato Branco dentro de Farroupilha representa mais de 50% de toda a produção dessa casta no Brasil. Tendo dentro da IP Farroupilha, ganhado maior status para os vinhos produzidos na região com a uva Moscato.

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Dentre as variedades autorizadas na IP temos: Moscato Branco (tradicional); Moscato Bianco; Malvasia de Cândia (aromática); Moscato Giallo; Moscatel de Alexandria; Malvasia Bianca; Moscato Rosado e Moscato de Hamburgo, sendo que os vinhedos devem possuir limites de produtividade.

Para ter direito de utilizar a certificação da IP Farroupilha, os vinhos somente podem ser elaborados com as uvas das variedades moscatéis autorizadas, incluindo os estilos de vinhos como: moscatel espumante, vinho fino tranquilo branco moscatel, frisante moscatel, licoroso moscatel, mistela e brandy de moscatel com uvas produzidas na área delimitada e determinada pela IP.

Todo o processo de elaboração, o engarrafamento e o envelhecimento dos vinhos são feitos na origem (espumantes e frisantes podem ser engarrafados nos municípios limítrofes da IP), devendo o controle ser feito pelo Conselho Regulador da IP, que atesta a conformidade dos produtos em relação aos requisitos do Regulamento de Uso. Realizando análises sensoriais e analíticas dos vinhos.

Dentre as principais vinícolas da Região temos a Cave Antiga, Casa Perini, Vinhos Cappeletti, Cooperativa Vinícola São João, Vinícola Slomp e dentre tantas outras opções de visitação e para se deliciar no local.

Maria Fumaça:

O que não pode faltar ao visitar o Rio Grande do Sul e a Serra Gaúcha, é o famoso passeio de trem de Maria Fumaça.

Um passeio delicioso que percorre 23 km e passa pelas cidades de Bento Gonçalves, Garibaldi e Carlos Barbosa, deliciando-se por numa festa que é conduzida por atrações típicas italianas, gaúchas e teatro. Bem como, conhecer lugares incríveis nessas cidades, como out-lets, parque temático e degustação de geleias, vinhos, sucos e muito mais.

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Vá conhecer o Rio Grande do Sul e se deliciar nessas sub-regiões sensacionais de produção de vinhos e espumantes de altíssima qualidade. Deixamos de falar sobre algumas vinícolas que serão objeto de estudos específicos de cada sub-região aqui citada.

CONSIDERAÇÕES FINAIS:

E assim falamos sobre Terroir do Rio Grande do Sul e suas 6 (seis) sub-regiões, com seus encantos, costumes, solos, climas, castas, altitudes, alguns diversos produtores e muito assunto ainda para descrever.

Claro que falamos de modo sucinto e resumido. No entanto, buscamos englobar tudo de interessante e principal de cada região desse universo do vinho, aqui mencionado. Em breve, detalharemos cada sub-região, falando mais sobre todas vinícolas localizadas em cada uma delas e seus vinhos produzidos.

Ivan Ribeiro do Vale Junior.
Advogado / Sommelier / Professor / Escritor
WSET / ISG / FACSUL / UFRGS
@duvalewinetasting
@novosterroirsbrasil

2 comentários em “O Terroir Gaúcho e seus Vinhos e Vinícolas

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