O Impacto das Safras no Alto Maipo e Borgonha: o que as Taças Revelaram.

Por Renato Nahas

Na última semana tive a oportunidade de participar de duas verticais, que é como são conhecidas as degustações de um mesmo vinho, mas de safras diferentes. As provas se deram com vinhos de duas regiões, o Alto Maipo, no Chile e o Village Nuits-Saint-Georges, na Borgonha. Nada foi combinado e aconteceram em grupos diferentes. Sorte minha! Foi uma oportunidade única, afinal são dois lugares em que as variações de safras, de ano para ano, se comportam de forma diferente. Numa delas varia muito. Na outra, nem tanto.

E será que a variabilidade da safra realmente impacta o vinho? Esse é o tema desse post.

Os vinhos provados

Na primeira vertical os vinhos eram da Borgonha, mais especificamente da apelação Nuits-Saint-Georges. Já na segunda, os vinhos vieram do Chile, a Região do Alto Maipo. Confira nas fotos abaixo, os vinhos e safras.

Considerações sobre o impacto da safra sobre os vinhos

A vitis viníferas, espécie do gênero vitis, é a uva considerada nobre para produção de vinhos de qualidade. Estudos apontam que surgiu na bacia mediterrânea, na região de fronteira entre Europa e Ásia, onde hoje estão localizadas a Geórgia, Armênia e Azerbaijão. De lá, se espalhou pela Europa, sofreu mutação e cruzamentos e resultou no atual plantel de aproximadamente 2.000 variedades que conhecemos hoje, como a Merlot, Chardonnay e Cabernet Sauvignon.

Tendo sua origem na bacia mediterrânea, é razoável supor que a vitis vinífera apresente uma aptidão para se desenvolver melhor em condições climáticas similares àquelas observadas por lá. Naturalmente, ao longo do tempo, com as mutações e cruzamentos, ela foi capaz de se adaptar a outras regiões, mas fundamentalmente podemos afirmar que ela se dá melhor em condições similares ao do clima mediterrâneo, a saber verões secos, ensolarados e  com baixa ocorrência de intempéries (geadas e granizo principalmente).

Obviamente outros fatores como solo, topografia, insolação, dentre outros, também afetam. Mas, para efeito da discussão desse post, vamos nos restringir a questão do verão seco, ensolarado e baixa incidência de intempéries.

Alguns aspectos dos climas do Alto Maipo e Borgonha

De uma forma extremamente despretensiosa, sem querer esgotar o assunto, há dois aspectos importantes que diferenciam o clima das duas regiões.

O Alto Maipo é assim conhecido por situar-se no sopé da Cordilheira dos Andes, o que o diferencia de outras sub-regiões do Vale do Maipo. Por conta disso, os vinhedos são plantados numa altitude mais elevada, com boa amplitude térmica, o que garante a produção de tintos mais encorpados e elegantes, especialmente os elaborados com a Cabernet Sauvignon. Além disso, observa-se uma baixa precipitação, cerca de 300 mm/ano. E, o mais importante, essa chuva raramente se concentra no período crítico de maturação, que é o verão.

Já a Borgonha, está localizada numa latitude mais ao norte. A incidência de intempéries como geadas e granizo são mais frequentes. Além disso, chove mais ao longo do ano e, algumas vezes também durante o verão.

Por conta disso, é crível afirmar que as safras na Borgonha variam mais do que no Alto Maipo.

O aprendizado das duas verticais

Numa vertical há dois grandes aspectos a serem observados:

1. Como o vinho de um mesmo produtor, elaborado a base de uvas de um mesmo vinhedo em anos diferentes, evoluiu ao longo do tempo.
2. O impacto que safras diferentes no vinho.

E o que as taças revelaram não foi surpresa. Enquanto os 4 vinhos do Alto Maipo mostraram uma tipicidade enorme, os vinhos de Nuit-Saint-Georges variaram bastante, a depender da qualidade da safra.

Nos vinhos do Alto Maipo, a idade fez a diferença. Meu preferido foi o 2003, o mais antigo. Mas mesmo no mais jovem, foi possível observar elementos que, com o tempo, o tornarão parecidos com o mais antigo.

Já nos vinhos de Nuit-Saint-Georges, as melhores safras se destacaram. No caso, o 2010 e 2015, não a toa safras melhores pontuadas, agradaram mais e sugeriram estar num patamar superior das demais. A safra 2011, um ano difícil na região, produziu um vinho diferente dos outros. Havia uma erva verde que não faz parte da tipicidade da Borgonha. O palpite é que o produtor foi forçado, pelas condições climáticas desafiadoras observadas no ano, a fazer uma colheita precoce. O vinho parecia ter sido produzido com uvas que não tiveram condições de obterem uma maturação fenólica plena

Conclusão

Apesar de parecer “chover no molhado”, safra é sim um dos itens fundamentais para se abordar a qualidade do vinho. Mas o impacto da safra entre diferentes regiões não é o mesmo.

Levando em conta apenas os aspectos mencionados nesse post e sem entrar no mérito da qualidade dos vinhos, podemos afirmar que podemos arriscar safras diferentes no Alto Maipo, sem grandes sustos. Já na Borgonha, a variabilidade pode ser tão grande que vale a pena pesquisar antes de comprar.

Renato Nahas é Sommelier formado pela ABS-SP e Professor nos cursos de Introdução ao Mundo de Vinho e Formação de Sommelier Profissional na ABS-Campinas. Obteve a Certificação Master Level em Borgonha, pela WSG, além da  FWS, IWS, SWS, CSW e WSET3. Além disso é Formador Homologado de Jerez.

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