Retomando as Viagens – Vinhos de Santa Catarina, a Primeira Parada

Por Renato Nahas

Durante o período mais agudo da pandemia da Covid-19, fui um daqueles que se isolou em casa e, só depois de tomar a segunda dose da vacina e observar o arrefecimento dos casos, me aventurei a voltar a viajar.

Retomando a rotina de viagens, visitei a Serra de Santa Catarina, há alguns dias atrás e, nesse post, gostaria de dividir com os amigos do blog minhas impressões sobre a região e uma vinícola em especial, a Thera, que será tema de uma próxima matéria.

Vale destacar que no emergente e vibrante cenário dos vinhos finos do Brasil, Santa Catarina ocupa lugar de destaque. Em 2019, Santa Catarina era o quarto estado em área plantada com uvas no Brasil, mas ocupava o sexto lugar na produção de uvas. Ainda assim, era o segundo estado produtor de vinhos, demonstrando sua vocação para a vitivinicultura.

+ O Terroir Catarinense e seus Vinhos e Vinícolas.

A história da Vitivinicultura em Santa Catarina

Assim como no Rio Grande do Sul, o primeiro registro de produção de vinhos no estado se deu com a chegada dos imigrantes açorianos, no século 18. Porém essa primeira tentativa não prosperou.

Em 1878 chegaram, de forma organizada, os primeiros imigrantes italianos e foi criada a colônia de Urussanga. Os imigrantes oriundos na sua maioria da região de Trento no norte da Itália tinham uma relação muito estreita com a vinha e o vinho, e logo plantaram a uva e fizeram o vinho. Rapidamente os colonos descobriram que as variedades, que tão cuidadosamente foram trazidas da Itália, não se adaptavam ao clima do Brasil e quando colhiam alguma uva, o vinho produzido era de baixíssima qualidade.  Como seria inadmissível viver sem vinho, passaram a vinificar as uvas locais, de origem no continente americano, especialmente a Niágara e a Isabel. Nascia assim o vinho colonial.

Esse cenário se manteve sem alterações em Santa Catarina até o final do século XX. A produção local era primordialmente consumida na região.

O impulso que veio do vizinho Rio Grande do Sul

Enquanto Santa Catarina produzia vinhos para consumo local, o Rio Grande do Sul a partir da década de 70 trilhou um caminho diferente. A chegada de empresas multinacionais e as pesquisas lideradas pela Embrapa criaram as bases para o estabelecimento de uma produção significativa de vinhos finos.

A partir da década de 90 a produção gaúcha se tornou significativa. Foi nesse contexto que veio o impulso para Santa Catarina trilhar o mesmo caminho.

O salto de qualidade na vitivinicultura foi fomentado por pesquisas conduzidas pela Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina – Epagri. E desde o início da década de 2000 o Meio-Oeste Catarinense se tornou o epicentro com o plantio em escala comercial de vinhedos de castas viníferas. Em 2006 eram trinta e três produtores, que até 2005 tinham plantado aproximadamente 106 hectares.

As pesquisas desenvolvidas pela EPAGRI, identificaram as variedades de uvas viníferas que melhor se adaptam às condições naturais da região, gerando conhecimento importante para subsidiar os agricultores no cultivo das videiras e elaboração dos vinhos finos. É de se ressaltar a importância da iniciativa de alguns empresários da região, que, apesar da forte tradição da região na produção de vinhos elaborados com variedades americanas, iniciaram o cultivo de uvas viníferas.

Cabernet Sauvignon – uma aposta equivocada

Eu acho a Cabernet Sauvignon um erro na Serra Catarinense. É o que diz a teoria, e foi isso que ouvi de enólogos e sommeliers com quem conversei. Variedade de ciclo longo, a Cabernet Sauvignon demora para amadurecer. E quando não amadurece perfeitamente, um de seus principais compostos, a pirazina, com seus aromas que lembram o pimentão verde, tomam conta do vinho. As chuvas frequentes, acompanhadas das intempéries típicas do clima da região favorecem as uvas de ciclo curto, ou aquelas que amadurecem num intervalo de tempo menor.

Hoje é fácil criticar. Mas o fato é que os pioneiros tinham que escolher uma variedade e a Cabernet Sauvignon, talvez pelo seu sucesso comercial, foi a aposta. Hoje ocupa a maior parte dos vinhedos. Replantar outra variedade em seu lugar seria economicamente inviável.

Porém, a cada novo plantio a Cabernet Sauvignon está sendo deixada de lado e nos últimos anos estamos assistindo ascendência de novas castas. E esse é o lado mais interessante de acompanhar na região. A foto abaixo ilustra isso perfeitamente. Trata-se de um vinhedo da Vinícola Thera (nosso próximo tema) com diversas variedades plantadas. Algumas em pequena quantidade e ainda em fase de teste. E registre-se que essa vinícola não tem nenhuma videira de Cabernet Sauvignon plantada. E isso não é à toa.

A grande área plantada de Cabernet Sauvignon (CS) obriga os produtores a se desdobrarem e usá-las como podem, por exemplo em Espumantes e Rosés de qualidade duvidosas. Alguns poderão dizer que há sim alguns vinhos a base de CS de boa qualidade. Verdade. Em algumas boas safras, como foi 2020, e alguns bons produtores, são capazes de administrar bem o processo de amadurecimento. Mas o fato é que muitos consumidores (eu inclusive) associam CS de Santa Catarina com pimentão verde.

É nesse contexto que outras variedades tintas, notadamente algumas de origem italiana vêm se destacando. Provei vinhos de Sangiovese e Montepulciano da Thera que me agradaram bastante. Há uma outra vinícola na região, a Leone de Venezia fazendo coisas muito legais. Mas para não me alongar muito aqui, deixarei os comentários sobre a Leone para um outro post

Com relação aos vinhos brancos, apesar de muitos dizerem que a Sauvignon Blanc é a grande uva da região, há outras boas alternativas a serem exploradas. A Chardonnay é um caso muito especial. Variedade de brotação precoce, sua produção é fortemente afetada pelas geadas da primavera, quando ocorre a brotação. Tornando curta uma longa estória, o clima prejudica a produção em larga escala. Apenas em poucas safras a Chardonnay consegue realmente vingar. Mas quando consegue, produz o que, para mim, são os melhores vinhos brancos da região. Há também muita experimentação com outras variedades na região, mas francamente nada me encantou. Na Thera, apesar da ênfase comercial no Sauvignon Blanc, o que mais me agradou foi o Chardonnay, especialmente um da safra 2017, indisponível para venda que o Sommelier da vinícola gentilmente abriu para provarmos.

O que esperar da Serra Catarinense

Seria muita pretensão da minha parte querer apontar o caminho da região baseado numa visita curta e tendo passado por apenas 6 vinícolas. Mas, me encantou o clima de experimentação e novidades. Novas castas sendo testadas. Vinhos diversos que marcam uma região em busca de sua identidade. E numa região tão bela, e ao mesmo tão carente de infraestrutura, observar a incrível evolução do enoturismo é promissor.

+ IP Santa Catarina – Vinhos de Altitude

Enfim, vale muito a visita.

Renato Nahas é Sommelier formado pela ABS-SP e Professor nos cursos de Introdução ao Mundo de Vinho e Formação de Sommelier Profissional na ABS-Campinas. Obteve a Certificação Master Level em Borgonha, pela WSG, além da  FWS, IWS, SWS, CSW e WSET3. Além disso é Formador Homologado de Jerez.

4 comentários em “Retomando as Viagens – Vinhos de Santa Catarina, a Primeira Parada

  1. Renato, outra vinícola que tem um feito um trabalho bem legal e “fora do radar” é a Villaggio conti, que está fazendo um vinho laranja muito bom (Arancione o nome, sendo um blend das uvas Ribolla Gialla, Grechetto, Vermentino e Malvasia) e inclusive eles têm planos de tentar produzir como o Gravner (em ânforas de barro). O varietal de Ribolla Gialla deles também é sensacional! O Foco está em uvas italianas….vale a pesquisa!!! Também gostei do Cabernet Franc REERGUIDA, feito pela Villaggio Grando para angariar recursos para construir novamente a parte de eventos sociais da vinícola, que foi destruída por um tornado que passo.

    Grande Abraço.

    Curtido por 1 pessoa

  2. Oi Marceu, bom saber. Não tive oportunidade de visitar essa vinícola. Mas seu comentário está bem em linha com o post. Há muita novidade e experimentação na região. Uvas não usuais por aqui sendo testadas, assim como estilos de vinificação, como o vinho laranja (provei o da Leone de Venezia e gostei). Obrigado pelo comentário e pelas dicas. abração

    Curtido por 1 pessoa

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