O Piemonte Além do Barolo e Barbaresco

Por Renato Nahas

Barolo e Barbaresco são, inegavelmente, as grandes estrelas do Piemonte, região localizada no noroeste da Itália e que ocupa um lugar de destaque no coração dos enófilos mais exigentes. Mas seria injusto restringir uma região tão diversa e com tantos atrativos a estes dois grandes vinhos. Há muito mais para explorar e se encantar em terras Piemontesas. Esse é o tema que iremos tratar nesse post.

Fonte: https://pxhere.com/pt/photos?q=piemonte

O Piemonte no cenário vinícola da Itália

O Piemonte tem uma longa tradição na produção de vinhos. No entanto, no início do século XX, as condições da vitivinicultura local eram precárias.

Na segunda metade do século XIX, a região foi o epicentro da revolução industrial italiana. Como decorrência, o êxodo rural esvaziou a população do campo e resultou em vinhedos abandonados. Ironicamente outras regiões da Itália, como o Vêneto, sofriam com a falta de empregos que geraram uma forte onda de imigração no período. Não cabe aqui nos alongarmos sobre esse ponto, mas vale lembrar que o país passava por conflitos internos decorrentes do Risorgimento, ou reunificação, que resultaram em um quadro de distúrbios e convulsões sociais.

Além disso, nesse mesmo período as doenças fúngicas, oriundas do continente europeu, como o míldio e oídio, sem contar a filoxera, devastaram os vinhedos e comprometeram praticamente toda a área plantada. E a primeira metade do século XX não foi menos desafiadora para a Itália, com a devastação econômica e social decorrentes das duas guerras mundiais.

A recuperação só veio na segunda metade do século XX. Vale lembrar, a guisa de ilustração, que a DOC Barolo só foi regulamentada apenas em 1966 (a DOCG veio ainda mais tarde), muito depois das mais prestigiadas apelações francesas.

Porém, a partir de 1950 a recuperação foi forte e consistente. Hoje o Piemonte conta com uma área plantada de 45 mil hectares e 59 Denominações de Origens (DOC ou DOCG) regulamentadas, o maior número na Itália.

Diferente das principais regiões vinícolas do mundo, no Piemonte as chamadas “castas internacionais”, como Cabernet Sauvignon e Merlot, não são as protagonistas. No Piemonte, as uvas autóctones, oriundas da região são as que prevalecem.

Uma análise cuidadosa da distribuição das uvas plantadas na região, mostra também dois pontos interessantes. A Nebbiollo, uvas do Barolo e Barbaresco, e normalmente conhecida como a mais expressiva do Piemonte, representa “apenas” 9% do total da área plantada.

Quem for à uma Trattoria Piemontesa, um daqueles restaurantes típicos locais, e pedir o “vinho da casa tinto” muito provavelmente consumirá uma bebida  elaborado com Barbera ou Dolcetto. No dia a dia essa é a base dos vinhos locais espalhados em diferentes apelações. Barbaresco e Barolo são reservados para dias e ocasiões especiais. E, também, para exportação.

No Piemonte predomina o vinho tinto. Apesar da Moscato Bianco representar 21% do total da área plantada na região, o consumo de vinhos brancos tranquilos é relativamente baixo. Vale lembrar que a Moscato Bianco é usada na elaboração do Asti, o famoso espumante local, companheiro ideal para o Panetone (o original, como frutas cristalizadas e não as “aberrações” que encontramos por aqui, com “gotas de chocolate).

As Apelações de destaque no Piemonte

A região abriga 59 DOC/DOCG’s . Normalmente são agrupadas em 3 subregiões, conforme apontadas no mapa:

O Alto Piemonte, área mais ao norte, concentra 5% dos vinhedos da região e, até o século 18, produzia os vinhos de maior prestígio do Piemonte.  Os vinhos tintos são elaborados com a Nebbiolo, aliás Spanna, que é o nome local dessa uva que, em função do clima mais frio, apresentam menos corpo e cor e mais acidez do que as do Langhe. Ghattinara DOCG e Gheme DOCG são as principais apelações locais e oferecem ótimas alternativas em termos de preço vis-à-vis Barolos e Barbarescos.

Asti, Monferrato e Leste concentram o grande volume da região. Vinhedos dominam a paisagem e a área é o local de origem de várias uvas nativas do Piemonte.

 Barbera d’Asti DOCG abriga os melhores sites para a produção dessa uva. A área é uma continuação de Barbaresco, com solos mais argilosos. Mas é uma área extensa e com vários produtores. Portanto, bastante heterogênea. Nizza DOCG era uma antiga zona de produção e foi promovida a apelação própria em 2014. Com requerimentos de produção mais restritos e envelhecimento mínimo de 18 meses (mínimo 6 meses em barrica), produz ótimos vinhos a base de Dolcetto.

A região de Asti produz dois estilos de vinhos efervescentes, ASTI DOCG é um espumante produzido em tanque, com a uva Moscato Bianco, com 7 a 9% de álcool e 5 a 6 atm de pressão. Altos volumes produzidos e produtores com larga escala caracterizam a DOCG. Moscato D’Asti DOCG, por outro lado é um vinho levemente efervescente, com baixo teor alcoólico (5 a 5,5% abv) produzido em baixa escala, safrado e ótima opção para acompanhar sobremesas mais leves.

Gavi DOCG, localizada no leste da região produz o vinho branco mais popular da região. Utilizando 100% da uva autóctone Cortese, produz vinhos leves e frescos, com notas cítricas e caráter mineral.

As colinas de Roero produz vinhos brancos e tintos. Roero DOCG tinto é produzido com 100% Nebbiolo, enquanto o branco é um varietal da casta autóctone Arnéis. Comparado com os Nebbiolos do Langhe, o Roero tinto tem menos intensidade de cor e corpo, sendo mais macio e menos tânico. São vinhos mais acessíveis quando jovens e boas alternativas de preço. Já os brancos são, talvez, os mais interessantes do Piemonte. São vinhos fresco e delicado, com aromas de pêssego e notas amendoadas.

Ao contrário do que o nome sugere, Dolcetto, a segunda uva tinta mais plantada do Piemonte, produz vinhos secos com coloração intensa, acidez de média para baixa e taninos marcantes. Há dois estilos. Um mais simples e “easy-drinking” e outro mais sério, encorpado, estruturado e complexo. Os produtores de Barolo e Barbaresco adoram essa uva, pois elas amadurecem mais cedo e em lugares frios e mais altos, onde a Nebbiolo sofre para amadurecer.  Dogliani DOCG produz os vinhos mais interessantes da casta.

Langhe DOC funciona como uma espécie de apelação regional. Uma válvula de escape para produtores que desejam escapar das regras de uma DOC. Por exemplo, uma das principais vinícolas da região, a Pio Cesare , produz um vinho a base de Nebbiolo com Pinot Noir, um blend capaz de chocar os mais tradicionalistas. É, portanto, uma região extremamente heterogênea, mas que esconde muitas preciosidades.

Por fim, Alta Langa DOCG produz espumantes pelo método tradicional de alta qualidade. No mínimo 90% do blend deve ser composto com Chardonnay e Pinot Noir. Produzido em pequena quantidade é uma raridade no Brasil e um objeto de desejo dos enófilos mais exigentes.

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Piemonte, um roteiro obrigatório

Enfim, com 59 apelações, foi difícil nesse espaço selecionar algumas para destacar. Fica, portanto, claro que o Piemonte vai muito além de Barolo e Barbaresco. E com uma culinária riquíssima, com ingredientes únicos e especiais é, sem dúvida um dos roteiros mais fascinantes para os amantes do vinho e da boa comida.

Renato Nahas é Sommelier formado pela ABS-SP e Professor nos cursos de Introdução ao Mundo de Vinho e Formação de Sommelier Profissional na ABS-Campinas. Obteve a Certificação Master Level em Borgonha, pela WSG, além da  FWS, IWS, SWS, CSW e WSET3. Além disso é Formador Homologado de Jerez.

4 comentários em “O Piemonte Além do Barolo e Barbaresco

  1. Belíssima matéria Renato,está aí uma região que preciso explorar. Muitos dizem que a Nebbiolo é uma uva tão difícil de se trabalhar quanto a Pinot, e vendo a matéria o Piemonte tem muito mais coisas.

    PS: nunca comi um panetone típico italiano, e nos que vemos por aqui eu prefiro os com gotas de chocolate hahahaahahha

    Abraço!

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    1. Obrigado Marceu. Sem dúvida o Piemonte tem muito a ser explorado. Quanto aos panetones …. bem …. cada um tem sua preferência ahahahahahah. abraço

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  2. Muito interessante, e aí notamos como a Itália é diversificada em vinhos, somente nesta região os mais cometados estão resumidos a uvas plantadas em apenas 9% do total, é de se interessar e muito em conhecer este mundo fantástico, e degustar. Eu sou um admirador das autóctones até porque esta experiência do algo diferente e que deu certo, pra mim nesta explosão de sabores que as uvas podem carregar me fascina. Ótima matéria. Vou guarda-la para o roteiro que estou construindo para uma provável longa viagem por lá.

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