A Diversidade dos Vinhos Doces de Bordeaux

Por Renato Nahas

Quando se fala sobre vinhos doces de Bordeaux, imediatamente o primeiro nome que vem à mente é Sauternes. E não é à toa. A AOC Sauternes produz algum dos vinhos doces mais celebrados do mundo, incluindo o icônico Château de Yquem.

Porém a produção de vinhos doces bordaleses vai muito além de Sauternes. Esse é o tema que iremos explorar neste post: os vinhos doces de Bordeaux produzidos fora de Sauternes, e que merecem a atenção de quem aprecia o estilo, pela qualidade relativo preço menor do que o nome mais famoso da região.

O que diz a regulação de vinhos doces em Bordeaux

O regulamento da Apelação de Origem Controlada de Bordeaux define dois tipos de vinhos doces, de acordo com o teor de açúcar residual:

  • Liquoreux: quando o açúcar residual é superior a 45 gramas por litro, ou acima de 4,5% do vinho.
  • Moeulleux: entre 12 e 45 g/l, ligeiramente inferior ao liquoreux.

O peso dos vinhos doces no total produzido em Bordeaux

Como pode ser observado no gráfico abaixo, elaborado com dados de 2016 e fornecidos pelo CIVB, os vinhos doces representam 3% do volume produzido pela região de Bordeaux.

Mas houve um tempo, no período anterior a 2ª Guerra Mundial, em que os vinhos doces chegavam a representar impressionantes 35% do volume total da região. Notadamente a categoria de vinhos doces apresenta a mesma tendência de queda em todas as regiões produtoras, por motivos que não iremos abordar aqui, mas que lamentamos profundamente. Encerrar uma refeição com um vinho doce acompanhando uma sobremesa ou queijos, é um hábito que vem se tornando cada vez menos frequentes. Especialmente no Brasil, onde é raro encontrar restaurantes que sirvam doses em taças. E um cenário em que as importadoras oferecem cada vez menos opções desse estilo em seus portfólios. Uma grande pena!

As AOCs produtoras de vinhos doces em Bordeaux

No mapa abaixo (fonte Wine Scholar Guild) são destacadas as 10 Apelações de Origens Controladas, em Bordeaux, que produzem vinhos doces. Poderíamos também incluir a AOC Monbazillac que apesar de muito próxima não pertence a Bordeaux, mas sim a uma outra região vinícola da França, Bergerac.

O primeiro ponto interessante a observar é que todas as 10 AOCs são próximas umas das outras. E isso não uma mera coincidência. Tem a ver com o mesoclima da área, que é uma unidade climática intermédia, inferior ao macroclima, e ao clima regional, e acima do clima local e do topoclima.

Essa região fica localizada numa área que abrange Graves e Entre-Deux-Mers. Nessa região o clima é relativamente mais frio, com a formação de neblinas nas madrugadas e início da manhã, seguidas de tardes com climas mais quentes e secas. Naturalmente tais condições climáticas não se repetem todos os anos. Robert Parker em seu livro “Bordeaux” estimou que em uma década, apenas 3 anos oferecem as condições climáticas ideais para se produzir Sauternes.

Quem é quem entre as AOCs de vinhos doces de Bordeaux

Sauternes e Barsac concentram o maior volume e produzem os vinhos mais renomados e qualificados. Constituem a elite da categoria vinhos doces, os mais conhecidos e, como não poderia deixar de ser, os mais caros.

Ao norte de Barsac, Cérons produz dois tipos de vinho doce: um meio seco que normalmente é engarrafado como Graves Supérieur e os doces, rotulados como Cérons AOC.

As demais apelações são pouco conhecidas, produzem pouca quantidade, não se limitam a vinhos botrytizados e, geralmente, os produtores são pequenos e pouco conhecidos. Um prato cheio para abrigar “tesouros escondidos”. Essas regiões encontram-se na mesma altitude de Sauternes e Barsac, climas semelhantes, mas os solos são diferentes. O relevo é acentuado e as vinhas são plantadas normalmente em encostas.

Sainte-Croix-du-Mont é reputada por produzir o melhor vinho doce da margem direita. Situada exatamente em frente a Barsac e Sauternes e da confluência dos rios Garonne e Cirons. (vide mapa), o relevo prejudica o desenvolvimento da Botrytis quando comparado aos vizinhos ilustres

Nas AOCs Loupiac e Cadillac o desenvolvimento da podridão nobre é ainda mais desafiadora. Com isso, os percentuais são menores e os vinhos são menos encorpados e concentrados. Tendem a ser mais frutados e se caracterizam pela elegância.

No mundo do vinho, fugir do lugar comum pode render ótimas experiência sem pesar exageradamente no bolso. Apesar da baixa disponibilidade de rótulos no Brasil, quem curte vinho precisa explorar as outras apelações de Bordeaux.

Renato Nahas é Sommelier formado pela ABS-SP e Professor nos cursos de Introdução ao Mundo de Vinho e Formação de Sommelier Profissional na ABS-Campinas. Obteve a Certificação Master Level em Borgonha, pela WSG, além da  FWS, IWS, SWS, CSW e WSET3. Além disso é Formador Homologado de Jerez.

5 comentários em “A Diversidade dos Vinhos Doces de Bordeaux

  1. Parabéns Mestre Renato, como sempre uma grande aula. E, como disse a Tati, provar o Sauternes com Foie gras é um experiência única. Aconselho, inclusive, uma combinação com torta de nozes, é de comer e beber de joelhos. Abraços amigo.

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