Degustando os “Ícones” da Serra da Mantiqueira

Por Renato Nahas

Um painel para degustar 7 vinhos ícones da Serra da Mantiqueira. Esse foi o tema da degustação organizada pela ABS-SP no dia 11/05/2022. O evento foi muito interessante por contar com a presença dos produtores apresentando seus vinhos durante a degustação.

Qual o nome da região que produz esses vinhos ?

Todos os 7 vinhos apresentados foram produzidos nos estados de São Paulo e Minas Gerais. Como ainda não há uma regulamentação formal que defina a nomenclatura, e delimitando a área geográfica e os requerimentos de produção, eles são conhecidos por vários nomes. Dentre eles vale citar:

  • Vinhos da Serra da Mantiqueira
  • Vinhos de Inverno
  • Vinhos de Poda Invertida
  • Vinhos de Dupla Poda
  • Vinhos do Sudeste

Mas qual seria a forma correta de nomear esses vinhos? Bom, não existe uma resposta correta, afinal não existe ainda uma Indicação Protegida (IP) normatizando e regulando os vinhos da região. Mas os sete produtores presentes lideram uma Associação que está buscando exatamente essa regulamentação.

+ Dupla Poda.

Mas voltando a questão dos nomes, definitivamente o nome Serra da Mantiqueira não é adequado. O próprio painel do evento comprova isso. Dos 7 vinhos degustados, havia 5 originados da Mantiqueira, além de um na Serra do Mar e outro na Serra do Cipó.

Aparentemente a escolha dos produtores é “Vinhos de Inverno”. Aliás o nome da organização criada para tratar disso é Aprovin – Associação Nacional dos Produtores dos Vinhos de Inverno.  Essa definição teria a vantagem de também incluir vinhos produzidos por esse método em outras regiões, fora do Sudeste.

Os Vinhos degustados e o preço ao consumidor

  1. Primeira Estrada Sauvignon Blanc 2021 da Vinícola Estrada Real – Três Corações MG – R$ 150
  2. Philosophia Cabernet Franc 2019 da Vinícola Goes – São Roque SP – R$ 155
  3. Gran Speciale Syrah 2018 da Casa Verrone – Itobi SP – R$ 280
  4. Brandina Assemblage da Villa Santa Maria 2019 – Vale do Baú SP – R$ 399
  5. Primeira Estrada Gran Reserva Syrah 2018 – Três Corações MG – R$ 265
  6. Erica Gran Reserva Syrah 2018 da Vinícola Maria Maria de Boa Esperança MG – R$ 278
  7. Liberdade Corte Bordalês 2019 da Casa Geraldo de Andradas MG – R$ 299

Avaliação do Painel

Não é trivial montar um painel com a ambição de apresentar os melhores vinhos de uma região. Sempre haverá questionamentos a respeito de vinhos não incluídos na relação final. E com essa lista apresentada na ABS-SP não poderia ser diferente.

Nesse contexto, causa estranheza a ausência de um exemplar da Vinícola Guaspari no painel. É difícil imaginar um painel dos melhores vinhos de inverno sem nenhum rótulo desse produtor.

Feita essa ressalva é inegável que essa região, e esse método de produção, mudaram a cara do vinho nacional e conseguiram dividir o protagonismo com o Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Além disso é também inegável a evolução obtida nos últimos anos. Definitivamente esse método de produção já conseguiu imprimir sua digital no vinho brasileiro. Hoje podemos afirmar, sem medo de errar, que há bons vinhos nacionais produzidos fora do Rio Grande do Sul e Santa Catarina.

+ Vinícola Thera.

Os destaques do painel

Sobre o painel apresentado, dois vinhos se destacaram:

Começo pelo interessante Brandina Assemblage 2019, da Vinícola Santa Maria. O produtor conseguiu um vinho com boa acidez e o único exemplar do painel em que o álcool não sobressaiu. Tem complexidade média e taninos abundantes e rugosos.

O outro vinho que agradou foi o Erica Gran Reserva Syrah 2018 da Maria Maria, que fez lembrar o estilo tradicional dos Australianos, com fruta compotada e “quente”, ou seja com uma “pontinha a mais” de álcool.

No entanto, vale o comentário de que o preço ao consumidor, quando comparado a alternativas existentes no mercado em patamares similares, está muito acima da qualidade oferecida. Esse é um enorme desafio para os produtores fincarem suas bandeiras no competitivo mercado de vinhos finos no país.

Pelotão intermediário

A Casa Geraldo, de Andradas MG, lançou no evento um corte bordalês, o Liberdade Corte Bordalês 2019, que tem a Merlot prevalecendo no blend. O que encanta nos vinhos bordaleses é o equilíbrio. Mesmo alguns dos rótulos mais simples de Bordeaux são marcados por serem vinhos harmônicos, “com tudo no lugar”. Esse rótulo, no entanto, não tem o equilíbrio esperado. Sobra álcool, as notas herbáceas são visíveis e há pouco peso em boca. Mas os taninos são finos e corpo médio. Em resumo, uma boa tentativa, mas ainda tem chão pela frente.

O Gran Speciale Syrah 2018 da Casa Verrone eu já tinha provado em outras ocasiões. Esse é outro que lembra o “old style” dos Shiraz australianos. Encorpado, com fruta compotada, suculento, mas com acidez insuficiente para garantir o equilíbrio. E achei que o álcool sobra.

Os que ficaram abaixo da expectativa

Os dois vinhos da Vinícola Estrada Real não me agradaram. O Sauvignon Blanc 2021 me fez lembrar os Chilenos de entrada dessa casta. Pouco corpo, um herbáceo marcante e ligeiro, sem contar o amargor. Já o Gran Reserva Syrah 2018, comparado com os demais se mostrou um vinho correto, mas quente e com pouca intensidade.

O Philosophia Cabernet Franc 2019 da Vinícola Góes de São Roque, repete o problema da falta de acidez e desequilíbrio. Apesar de 13,3% de álcool, na boca pareceu mais quente do que o esperado para esse patamar alcoólico.

Conclusão

Há 20 anos atrás seria inconcebível atrair quase 100 enófilos exigentes, como aconteceu no dia 11/05 na ABS-SP, para degustarem vinhos produzidos em São Paulo e Minas Gerais.

Ainda estamos no estágio inicial dessa estória. Mas a evolução obtida foi assustadoramente surpreendente. A curva de aprendizado ainda está no início e é de se esperar grandes evoluções nos próximos anos.

O preço ainda é o “calcanhar de Aquiles”. Oxalá que a evolução na qualidade que virá com o aprendizado e experiência seja acompanhada pela redução de preço.

Renato Nahas é Sommelier formado pela ABS-SP e Professor nos cursos de Introdução ao Mundo de Vinho e Formação de Sommelier Profissional na ABS-Campinas. Obteve a Certificação Master Level em Borgonha, pela WSG, além da  FWS, IWS, SWS, CSW e WSET3. Além disso é Formador Homologado de Jerez.

9 comentários em “Degustando os “Ícones” da Serra da Mantiqueira

  1. Excelente artigo! Já degustei vários vinhos desta região! A impressão que tive é exatamente a do Professor Nahas . Alguns rótulos são de boa qualidade, porém, nenhum merece o preço que é pedido! Isto é um sério entrave para concorrer com rótulos consagrado no mesmo patamar de preço! Como o Professor Nahas falou, o produtores desta região, tem um longo caminho a percorrer!

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    1. Caro Ângelo, sempre é importante lembrar que há menos de 10 anos atrás ninguém levaria a sério vinhos produzidos nessa região. É absolutamente elogiável o que essa turma conseguiu fazer. E também é inegável que há muito chão pela frente. E é um privilégio poder acompanhar isso de perto. Abraço

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  2. Visitei a Vinícola Santa Maria e gostei dos vinhos que provei, embora tenha achado o preço salgado mesmo. As demais não visitei, mas tive a oportunidade de provar os vinhos. Belo painel.

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    1. O mais legal disso tudo, Valéria, é podermos visitar tantas vinícolas legais sem precisar pegar avião. E é incrível o que essa turma já conseguiu conquistar. Abração

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  3. Vinhos nacionais sofrem muito com produtividade, e acredito que isso influencia muito com relação ao preço. A colheita ton/Hectare é muito infrerior se comparado aos nosso vizinhos. Dito isso, concordo que os vinhos vem melhorando muito ao longo do tempo. Obrigado pelas recomendações!

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    1. Perfeito Marceu. Imagino os enormes desafios enfrentados pelos produtores e acredito que conseguirão melhorar ainda mais a qualidade, diminuindo o preço, com a curva de aprendizagem e aumento no volume. E é um privilégio podermos acompanhar tudo isso “de camarote”. abração

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      1. De fato sensacional. Mas uma vez eu li (não sei exatamente os números) mas enquanto um vinhedo no Chile pode produzir 20 ton por He, e aí de acordo com a qualidade eles vão reduzindo a quantidade de cachos (se n me engano o Chadwick por ex são de 4 a 6 ton por He), um vinhedo no Brasil tem essa produtividade também!

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  4. Grande Nahas, excelentes comentários, tanto mais pela sinceridade empregada. Ninguém espera que alguns anos de experiências, ainda que parcialmente bem sucedidas, iriam resultar em vinhos que concorrem com outros com dezenas ou centenas de anos de aprendizado. E há que destacar esse aspecto dos preços muito elevados. Parabéns!

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