1956, Quando a  Malbec se Tornou mais Argentina

Por Renato Nahas

Registros históricos apontam que a Malbec surgiu na província de Quercy, no Sudoeste da França, onde está localizada a cidade de Cahors. Em 1956, um evento climático mudou dramaticamente a trajetória dessa uva em seu país de origem. Hoje a Malbec é mais associada com a Argentina do que a França. Nesse post vamos contar um pouco dessa estória.

Malbek, Cot, Noir de Pressac ou Auxerrois

Os termos acima são alguns dos sinônimos de Malbec. Historicamente, em seu local de origem, era conhecida como Auxerrois. Mas também há registros de ser chamada de Noir de Pressac entre os viticultores locais. A casta foi levada para o Medoc por Sieur Malbek (com k no final), assumindo o nome atual (com c no final). E em Graves, levada por Pierre Galet, foi apelidada de Cot (como até hoje é chamada no Vale do Loire e também no Chile).

Em Bordeaux foi plantada pela primeira vez na Margem Direita, no Château de Pressac. Para quem tiver curiosidade, vale a pena dar uma uma navegada no site da vinícola:  https://www.chateaudepressac.com/en/LeTemps

Características da Malbec

É uma uva de rendimento elevado e é relativamente menos vulnerável ao impacto negativo das geadas de primavera. Tem mais afinidade com solos frios, como calcário, o que a faz mais presente em Bordeaux em áreas da margem direita, como Bourg, Blaye e em Entre-Deux-Mers. É a uva que amadurece mais cedo entre a 7 tradicionais de Bordeaux. E tem uma casca fina, característica muito importante para contarmos a estória a seguir.

Cachos de Malbec

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O inverno rigoroso no sul da França em 1956

Devastada pela filoxera no final do século XIX e pelas consequências econômicas e sociais decorrentes das duas grandes guerras mundiais, a viticultura da França, e em especial Bordeaux, ensaiava uma recuperação em meados do século XX. Até então a Malbec era protagonista nos vinhos tintos de Bordeaux, junto com a Cabernet Sauvignon e Cabernet Franc e, em menor escala, a Merlot.

O inverno de 1956 foi totalmente atípico na Europa, com o registro da maior nevasca até hoje registrada no sul da França. Por 3 semanas a região foi assolada por ventos superiores a 100 km/h e temperaturas abaixo de 10°C, que é o limite de resistência da videira. Em Bordeaux, 75% dos vinhedos foram afetados e tiveram que ser replantados. Todas as vinhas de Malbec, uma uva de casca fina que precisa de mais sol que a Cabernet Sauvignon e Merlot, morreram.

+ Como as Geadas Afetam os Vinhedos.

Passado o inverno, tendo que decidir o que replantar, os viticultores deixaram totalmente de lado a Malbec, afinal é compreensível que o risco de novas perdas pairasse sobre a cabeça de todos. E a Merlot ocupou o espaço deixado pela Malbec. E hoje é a uva mais plantada em Bordeaux.

Desde 1956 Bordeaux passou por outros invernos rigorosos, como 2017. Mas a diferença é que hoje os agricultores contam com mais tecnologia e experiência para lidar com o tema.

Mas o fato é que a Merlot “soube” aproveitar a oportunidade e substituir totalmente a Malbec, que hoje ocupa menos de 1% da área plantada em Bordeaux. Mas é interessante notar que essa área está crescendo e há bons vinhos que levam Malbec, especialmente os produzidos em Bourg e Blaye.

Azar na França, sorte na Argentina

A trajetória de sucesso da Malbec na Argentina foi espetacular. Introduzida por Michel Pouget, um engenheiro agrônomo francês em 1868, ela encontrou, especialmente nas áreas de altitude e solo calcário de Mendoza, um lugar privilegiado para se desenvolver e se tornar a uva emblemática do país, com vinhos icônicos e celebrados internacionalmente.

Mas o sucesso da Malbec na Argentina também acarreta um problema. Talvez motivado pelo sucesso comercial, a uva foi disseminada em todo país. Isso a levou para solos e microclimas menos favoráveis, inclusive algumas partes de Mendoza, gerando as famosas “bombas de fruta e baixa acidez” que inundam o mercado.

Interessante notar que assim como Bordeaux, há uma complementaridade muito grande dessas áreas menos favoráveis para outras castas como a Cabernet Franc e Cabernet Sauvignon. Mas isso é assunto para um próximo post.

Renato Nahas é Sommelier formado pela ABS-SP e Professor nos cursos de Introdução ao Mundo de Vinho e Formação de Sommelier Profissional na ABS-Campinas. Obteve a Certificação Master Level em Borgonha, pela WSG, além da  FWS, IWS, SWS, CSW e WSET3. Além disso é Formador Homologado de Jerez.
 

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