Vinhos de Portugal 2022 – Degustando Rótulos Raros

Por Renato Nahas

Para mim há dois momentos distintos numa Feira de Vinhos. O primeiro é no salão, com os expositores servindo vários rótulos, provamos um pouco de tudo, encontramos amigos, nos divertimos muito, fazemos bons contatos e retomamos o tão importante convívio social que foi tão afetado pelo período de isolamento imposto pela pandemia do Covid-19. Enfim, nos divertimos muito.

Por outro lado, há sempre a oportunidade de provarmos alguns poucos e selecionados exemplares nos eventos paralelos, que alguns chamam de Masteclass ou simplesmente Sala de Provas. Nestas ocasiões é possível, num ambiente mais adequado, prestar a devida atenção ao vinho.

E é exatamente sobre uma dessas provas, que tinha como tema “Vinhos Raros” e que aconteceu no dia 09/06 na Feira de Vinhos de Portugal, que vamos abordar neste post.

Vinhos raros e seus mistérios

A degustação foi impecavelmente organizada por Dirceu Vianna Junior MW, aliás o único brasileiro que conseguiu essa certificação até hoje. Estava acompanhado por Luís Sottomayor, enólogo responsável pelo Barca Velha, Camilo Leite e o enólogo da Adega Cantanhede, Osvaldo Amado

Os vinhos degustados foram:

– Bacalhôa Moscatel Roxo Rosé 2020
– Boas Quintas Opta Alfrocheiro 2018
– Casa Ferreirinha Castas Escondidas Tinto 2018
– Marquesa de Alorna Grande Reserva 2016
– Niepoort Poeirinha Garrafeira 2015
– Adega Cantanhede Marquês de Marialva 65 anos Garrafeira 2001

O painel escolhido foi muito feliz. Conseguiu fugir do lugar comum e apresentar uma face dos vinhos portugueses menos badalada, mas incrivelmente interessante. E rótulos raros de serem encontrados. Enfim, uma daquelas experiências que faz palpitar o coração dos enófilos mais exigentes.

Os vinhos degustados

Vinho 1 – Bacalhôa Moscatel Roxo Rosé 2020, da vinícola do mesmo nome.

Um Rosé totalmente inusitado. Essa uva, a Moscatel Galego, conta com baixíssima área plantada no mundo e é mais conhecida pelo Moscatel Roxo, um vinho doce elaborado na Península de Setubal.

Este Rosé é um vinho que promete uma coisa no nariz mas entrega algo completamente diferente na boca. E ambos agradam muito. No nariz as características esperadas da Moscatel, como floral, frutas cristalizadas, casca de laranja e mel. O aroma é tão marcante que o cérebro dispara um comando para a boca esperar receber um vinho doce. Mas na boca ele é seco, com uma acidez espetacular, um corpo relativamente maior do que é usual para os vinhos de uvas da família moscatel vinificados a seco e, o que mais me surpreendeu, sem o amargor típico da casta. E as frutas no aroma de boca são mais frescas do que no nariz. Fiquei sonhando com um prato de comida oriental para acompanhá-lo

Vinho 2 – Opta Alfrocheiro 2018 da Boas Quintas.

Nunca tinha provado um varietal de Alfrocheiro antes. Aliás poucos devem ter provado, pois ela é usada no blend, especialmente na região do Dão. Tem uma coloração intensa, geleia de frutas marcantes, além de uma intensa presença de especiarias como cominho e pimenta síria. Elevada acidez, mas o final é curto, com taninos marcantes. Esse valeu mais pela curiosidade e para entender o papel dele no blend.

Vinho 3 – Casa Ferreirinha Castas Escondidas 2018

De acordo com Luís Sottomayor, esse vinho nasceu de uma iniciativa da Sogrape, de produzir um vinho diferente do usual. Para tanto, foram utilizadas uvas que geralmente não são protagonistas. O blend é composto por 18% de Vinhas Velhas (várias misturadas) 18% de Tinta Amarela, 15% de Tinta Fêmea (que popularmente é conhecida em Portugal como “Brasileira”), 14% de Tinta Francisca, 12% de Tinto Cão, 10% de Touriga Nacional (não poderia faltar!), 9% Touriga Franca, 2% de Marufo Tinto e 2% Bastardo.

É um vinho de elevada intensidade aromática, com muita fruta vermelha madura, notas florais, baunilha e lavanda. Suculento, encorpado e com taninos macios. De fato, um vinho diferente do estilo da casa.

Vinho 4 – Marques de Alorna Grande Reserva Tinto 2016

A composição das uvas do blend desse vinho é um mistério. Não se sabe se é ferramenta de marketing ou mero desconhecimento pelo fato de o vinhedo misturar diferentes variedades. Mas o fato é que esse vinho da região do Tejo chama atenção pela opulência, muito bem escoltadas pela acidez e taninos elevados. Um vinho que pareceu ter sido aberto muito jovem e que merece mais tempo, pois parece ter um enorme potencial para evoluir com a guarda.

Vinho 5 -Niepoort Poeirinho Garrafeira 2015.

Produzido com 100% da variedade Baga. Oriundo de vinhas velhas, não é feito todos os anos e o rendimento é baixíssimo, com muita pouca extração.

Com apenas 11,5% abv, o vinho é extremamente delicado, com acidez marcante e taninos poderosos, mas de ótima qualidade, com pouco corpo, mas sabor intenso de morango maduro e notas terrosas no retrogosto.

Um vinho excelente e que me surpreendeu. O único problema desse vinho é que, depois dele, veio um “monstro” que prejudicou a comparação. Brincadeira a parte esse vinho mostra como a Baga é capaz de produzir vinhos maravilhosos, apesar de não ser tão valorizada e badalada.

Vinho 6 – Marques de Marialva 65 anos Garrafeira 2001 da Adega de Cantanhede.

Francamente, antes mesmo de provar esse sexto vinho, o “ingresso já estava pago”. Mas esse Marques de Marialva 65 anos “fez o chão tremer”. Foi uma lição prová-lo na sequência de outro ótimo vinho mais jovem dessa mesma casta.

Apesar dos mais de 20 anos, o tanino ainda é marcante, mas com uma qualidade excepcional. Acidez também lá em cima, mostrando ainda uma boa fruta e notas balsâmicas, terrosas e cogumelo. E foi muito bacana provar esse vinho ouvindo os comentários do simpático Osvaldo Amado, enólogo responsável por essa obra prima.

Baga, a estrela do painel

Os 6 vinhos servidos foram muito bem escolhidos. Todos raros e com qualidade acima da média, provando mais uma vez que o potencial dos vinhos portugueses é enorme. E no meio de tantas estrelas os dois vinhos da Bairrada, produzidos com a uva Baga, se destacaram.

Renato Nahas é Sommelier formado pela ABS-SP e Professor nos cursos de Introdução ao Mundo de Vinho e Formação de Sommelier Profissional na ABS-Campinas. Obteve a Certificação Master Level em Borgonha, pela WSG, além da  FWS, IWS, SWS, CSW e WSET3. Além disso é Formador Homologado de Jerez.

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