É Varietal ou Blend?

Por Fernando Procópio

“Procópio, vamos armar um encontro para a outra semana? Você pode?”. Era o Nilton Vieira ao telefone.

Posso. Está pensando em algum tema?

“Que tal Cabernet Sauvignon argentino?”, disse Nilton.

Começamos a convidar os amigos e surgiu a primeira pergunta no grupo: Nicolas Catena Zapata 2016 é Cabernet Sauvignon?. Sei lá eu, pensei, mas é um vinhaço! Tem que entrar! Mas, o mesmo amigo que levantou a lebre inseriu a composição do vinho: 61% de Cabernet Sauvignon, 31% de Malbec e 8% Cabernet Franc. Ich!

Por via das dúvidas, resolvi me socorrer do nosso Sitta para saber qual a porcentagem de mistura de outras castas que a Argentina ainda considera como vinho varietal.

Varietal, todos sabemos, significa em enologia o vinho elaborado com uma única casta de uva. Mas, se consideram também varietais aqueles que contém uma mistura de outras castas até determinado limite, o que depende da regulamentação de cada país ou região.

Esse conceito surgiu na década de 60 nos Estados Unidos, como uma forma de fazer frente aos produtos da Europa e, de se diferenciar deles.

Atendendo ao meu pedido, Sitta foi indagar simplesmente para dois dos maiores enólogos da argentina: Alejandro Vigil, da Catena, e Karim Mussi, que prestaram a mesma informação: o varietal lá pode conter até 15% de outra(s) casta(s).

Agora, aproveitando o tema, vamos dar um giro pelos países para saber até que ponto de blend a regulamentação de cada um considera varietal:

  • África do Sul: 15%
  • Argentina, já dissemos, 15%
  • Austrália: 15%
  • Brasil: 25%
  • Chile: também 25%, mas se o vinho for para exportação no máximo 15%.
  • Estados Unidos: lá a definição é de cada estado e varia de apenas 10% para até 25%.

E aqui fica uma observação: dependendo da legislação do país de destino da exportação, o produto pode ter que se submeter aos mesmos níveis de exigência.

Trabalhar com 100% de uma casta por vezes oferece um desafio maior para o produtor. Há várias uvas que são úteis para “quebrar”, por vezes “amansar” as características da casta principal, ou ainda conferir maior equilíbrio, complexidade, acidez e cor ao vinho, como a Merlot, Petit Verdot, Syrah, entre outras.

E no Velho Mundo o que acontece? Lá é mais complicado porque os produtores preferem registrar a região de origem, muitas vezes sem mencionar castas.

Mas – claro! – há exceções em que se destaca a uva, como a Pinot Noir e Chardonnay, em Borgonha, a Sangiovese, na Toscana, a Nebbiolo, no Piemonte, a Albariño (Espanha) ou Alvarinho (Portugal) e a Riesling (Alsácia, Mosel e Reno). Sobre este último, a Alemanha permite um percentual de até 15% de outras uvas. O mesmo acontece em algumas outras regiões europeias em que o destaque é a casta.

E há ainda variações: o vinho produzido com uma única casta é chamado de monovarietal. Outros produzidos com uma só uva que são considerados blends. Nesse caso são assemblages de terroirs diferentes, de solos diferentes, como, por exemplo, um Cabernet Sauvignon-Cabernet Sauvignon, produzido com uvas de diferentes áreas.

Mas, afinal, por que importam essas diferenciações todas? A resposta está na pergunta do Nilton Vieira: “vamos focar o encontro em Cabernet Sauvignon argentino?”

Fernando Procópio
Apreciador de Vinhos

21 comentários em “É Varietal ou Blend?

  1. Aqui foi o desafio. Quando também fui convidado logo disse ao meu amigo Nilton Vieira. Argentino? Cabernet Sauvignon? Tranquilo.
    Aí veio a surpresa, tenho alguns em casa e 10% do que eu tinha indicado Cabernet Sauvignon não era “puro sangue”. Ou era varietal com seus acréscimos de merlot, sirah, malbec, Petit verdot ou cabernet Franc, ou o tal assemblage. Salvou por assim dizer pouca coisa. Já me via fora do grupo quando resolvi entrar na discussão afinal deixar de um encontro! E de Argentinos (Hermanos/ vizinhos) de onde mais compro! Um sacrilégio. E a discussão varou o dia. Para o bem todos perceberam que a Indústria do vinho é uma boa surpresa para muitos. Até os grandes entendedores, que tem seu trabalho multiplicado para melhor

    Curtido por 2 pessoas

    1. Alexsander, pois tive a mesma surpresa ao descobrir que eu, que gosto tanto de Cabernet Sauvignon argentino, fiquei sem estoque, talvez até por ter dado preferência ao escolher garrafas para abrir. Achei um monovarietal da Wienert, 2008. Ainda bem! Saúde, meu amigo

      Curtir

      1. Muito obrigado, Jarbas. Vindo de você, sinto-me lisongeado.
        Tem toda razão: pesquisar, compartilhar, trocar impressões… E, de preferência, sem tecnicidades. Afinal, é a hora de relaxarmos.

        Curtir

    1. Ellen, há uma espécie de resistência de boa parte das vinícolas européias em indicar a composição de seus vinhos. Para elas, o que importa é o produto final e de onde veio (terroir)

      Curtir

  2. Esse post me levou a encher uma taça para meditar sobre o assunto….rs
    Voltando ao que interessa (também): acho que isso é muito mais coisa da legislação e do interesse do mercado. Eu particularmente acho os cortes/blends ou assemblages mais interessantes pois nele me parece que o trabalho do enólogo se destaca bem como a impressão no paladar.
    Por outro lado, me parece que mais de 20% de outras castas já interferem bastante no resultado. Penso que o limite legal da legislação brasileira deveria ser revisto para considerar varietal pelo menos 79 ou 80% de uma casta.

    Curtido por 2 pessoas

    1. Artur, de forma geral, você tem razão: o blend é um trabalho de alquimia, que exige muita experiência e sabedoria do enólogo. Mas, é bem interessante quando ele consegue perceber as qualidades de uma casta em determinada safra e produz um belo monovarietal. Há também uma curiosidade nesse processo: algumas uvas que eram utilizadas quase que exclusivamente em blends, passaram a ser estrelas solitárias engarrafadas. Creio que um dos grandes exemplos disso é a Petit Verdot.
      Também concordo que 25% já descaracteriza a casta.

      Curtido por 1 pessoa

    1. Caríssimo Toni, interessante sua pergunta. Andei buscando por alguns sites de enologia e o registro é sempre igual: corte é o nome que recebem esses vinhos no Brasil; já assemblage é o termo francês e blend, inglês. Mas, o espaço está aberto para quem tiver alguma informação complementar.

      Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s