Vinícola Bisson e o Espumante Envelhecido no Fundo do Mar

Por Renato Nahas

Retornei há dias da minha primeira viagem internacional após o isolamento imposto pelo Covid-19. Estive na Itália e, assim como eu, muitos estavam loucos para viajar. Como resultado, encontramos aeroportos lotados, hotéis e restaurantes se desdobrando para atender a avalanche de turistas. Sem contar o calor infernal

Mas como o objetivo desse blog são os vinhos, as viagens e afins, deixemos as agruras de lado e falemos apenas da parte boa. A partir deste, farei uma série de 4 posts, contando um pouco de quatro vinícolas que visitei. Uma na Ligúria e outras três na Toscana.

Nesse primeiro post o tema será a vinícola Bisson ( www.bissonvini.it ), localizada em Sestri Levante, e que fica a cerca de 45 km de Gênova.

Os vinhos da Ligura

Situada no noroeste da Itália, na fronteira com a França a oeste, Piemonte ao norte e Emilia-Romagna e Toscana ao leste, a Ligúria é província marcada pela onipresença do mar mediterrâneo, que influencia os vários aspectos da vida na região.

É uma das menores das 20 regiões da Itália e tem como característica marcante uma topografia marcada por 65% de montanhas e 30% de colinas e encostas. Ou seja, praticamente não há vales e nem áreas planas. Os vinhedos são localizados, portanto, em encostas ao longo do terreno acidentado.

Cerca de 70% da área cultivada é composta por vinhos brancos. Vermentino, Pigato e Bosco são as uvas brancas mais plantadas. Os vinhos brancos são geralmente frescos, com boa acidez, corpo médio e com toques salinos. Acompanham perfeitamente a culinária local, rica em fruto do mar e são basicamente consumidos pela população local e turistas que invadem as belíssimas praias da região.

A vinícola Bisson

Fim de tarde no restaurante da Vinícola

Escolhi visitar essa vinícola a partir da leitura de um artigo da Decanter Magazine. Lá era citado esse produtor como uma das principais opções de enoturismo próximo de Gênova, onde eu estava hospedado.

A Bisson surgiu em 1978, quando Piero Lugano, Professor de Artes e Sommelier, fundou a vinícola com a proposta de valorizar a tradicional região produtora de vinhos, apostando nas uvas locais, como as brancas Bianchetta Genovese,  Ciliegiolo e Cimixà.

Seguindo uma linha em que a Europa chegou atrasada, mas está correndo atrás, investiu fortemente no enoturismo. Tem um restaurante muito interessante que entrega o pacote completo de “boa comida harmonizada com vinhos razoáveis num local belíssimo”. E tudo isso a um preço razoável, o que a torna uma opção atraente para quem visita a região.

 Tem uma produção modesta em termos de volume. Seus vinhos são simples, mas muito honestos, com o mérito de serem fiéis ao local e produzidos majoritariamente a base das castas originárias da região.

Há no entanto uma honrosa exceção, um vinho doce muito especial, produzido em Cinque Terre e um espumante, muito badalado, que tem a curiosidade de ser envelhecido de forma muito pouco usual.

Sciacchetrà, o passito produzido em Cinque Terre

A paisagem espetacular de Cinque Terre

Cinque Terre é é um conjunto de vilas centenárias à beira-mar na acidentada costa da Riviera Italiana. Em cada uma das 5 cidades, casas coloridas e vinhedos agarram-se aos terraços íngremes, os portos estão repletos de barcos de pesca. É um passeio imperdível, especialmente no verão, apesar da enorme quantidade de gente por lá. Uma dica imperdível é reservar uma mesa num wine bar espetacular, com mesa com vista “de cair o queixo” chamado Nessun Dorma (www.nessundormacinqueterre.com). De preferência, vá no horário do almoço, depois de ter passeado pela área e aproveite o período mais quente do dia provando os belos vinhos da região e as “comidinhas” a base de fruto do mar que harmonizam divinamente.

A região de Cinque Terre tem uma pequena área plantada de vinhos. Além de brancos para serem consumidos jovens e que entregam o que se espera num wine bar como o Nessun Dorma, produz um vinho passito muito especial, e raríssimo de encontrar no Brasil. Foi a primeira vez que provei esse estilo, que só conhecia de artigos e livros. Experimentei a safra 2007 (90 Euros a garrafa de 500ml). É um vinho doce encantador, onde as notas amendoadas se destacam.

O espumante envelhecido no fundo do mar

Assim as garrafas dos espumantes repousam no fundo do mar

O vinho que faz a fama da vinícola é uma linha de espumantes envelhecidos no fundo do mar. Produzidos pelo método tradicional, que significa a segunda fermentação na garrafa, o espumante é elaborado com uvas autóctones da Ligúria. E tem como diferencial ser mantido no fundo do mar, a temperatura constante de 15 C°, durante todo o período de envelhecimento, numa espécie de “gaiola”, como pode ser observado na foto acima.

O livro que conta a estória da vinícola e do espumante envelhecido no fundo do mar

Interessante que há um livro a venda na vinícola contando a estória desse espumante. Provei o Metodo Classico Riserva Marina, que passou 36 meses no fundo do mar e é vendido por 60 Euros na vinícola.

Trata-se inegavelmente de um bom espumante, com notas de fruta evoluída e boa presença de aromas derivados da autólise. Tem bom colchão de boca, crocante. A acidez tartárica, porém, estava um pouco abaixo do ideai. Faz portanto um estilo de espumante mais “macio” e sua profundidade é média. Fiquei com a impressão de que a estória por trás do vinho é bem melhor do que ele é capaz de entregar na taça.

Vale a visita

Enfim, vinhos de médios para bons, mas um passeio espetacular. Vista maravilhosa, restaurante de primeira e, tudo isso, num preço razoável pelo que entrega. E tudo isso num lugar relativamente fora do radar do enoturismo.

Enfim, adorei e recomendo demais a visita

Serviço:
Website: www.bissonvini.it
Instagram: @bissonxcantinadegliabissi

Renato Nahas é Sommelier formado pela ABS-SP e Professor nos cursos de Introdução ao Mundo de Vinho e Formação de Sommelier Profissional na ABS-Campinas. Obteve a Certificação Master Level em Borgonha, pela WSG, além da  FWS, IWS, SWS, CSW e WSET3. Além disso é Formador Homologado de Jerez.

2 comentários em “Vinícola Bisson e o Espumante Envelhecido no Fundo do Mar

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