Vinícola Casanova di Neri – Brunello di Montalcino

Por Renato Nahas

Fiz um giro recente na Itália e prometi ao meu amigo Rodrigo Sitta que faria 4 posts, sobre as vinícolas italianas que visitei.

Desta vez o tema será Casanova di Neri, um dos mais renomados produtores da DOCG Brunello di Montalcino.

A entrada da Vinícola Casanova di Neri em Montalcino

A Região do Brunello di Montalcino

Região de Brunello, no sul da Toscana

Montalcino é um vilarejo medieval localizado na parte sul da Toscana. O primeiro registro histórico dos vinhos da região data do final do século XVIII. Apenas em 1966 o Brunello di Montalcino recebeu o status de denominação de origem controlada, inicialmente como DOC e, em 1980, foi “promovida” a DOCG. Trata-se de um vinho, para os padrões europeus, relativamente recente.

O Brunello está fortemente ligado a trajetória do produtor Clementi Santi, que na segunda metade do século XIX concebeu o estilo de um vinho tinto tal qual conhecemos hoje. Em 1855 Ferrucio Biondi, neto de Clemente, se junta a vinícola, que passa a adotar o nome atual, Biondi-Santi. Em 1921 Tancredi Biond-Santi assumiu os negócios e transformou o Brunello de Montalcino num dos principais vinhos da Itália.

Importante mencionar que o regulamento que normatizou a DOC e DOCG do Brunello, na segunda metade do século 20, foi fortemente amparado nas práticas adotadas por Tancredi Biondi-Santi na produção dos seus vinhos.

O vinho Brunello di Montalcino

O Brunello é um vinho tinto produzido com uvas oriundas do município de Montalcino. É elaborado com um clone da variedade de uva vinífera Sangiovese, conhecida localmente como Brunello.

Essa variedade da Sangiovese tem o potencial de produzir vinhos mais robustos. Em alguns casos os vinhos desse clone chegam a flertar com a rusticidade. No entanto, nos melhores sites de Montalcino o microclima, aliado a outros fatores do terroir como o solo muito especial conhecido como galestro, permite uma maturação fenólica mais apropriada para a casta. Como resultado, o bom Brunello difere de outros vinhos produzidos com a Sangiovese pela estrutura e, principalmente, a carga tânica mais potente.

Mas é importante mencionar que os vinhos de Montalcino não se limitam ao Brunello. A região também produz um vinho que, usando uma nomenclatura consagrada em Bordeaux, poderia ser chamado de “segundo vinho”.

A grande diferença entre o Brunello e o Rosso é o longo período de maturação do primeiro (4 anos para a versão regular do Brunello e 5 para os Riserva). Já o Rosso, pode ser lançando no mercado em setembro do ano seguinte ao da colheita da uva. Além disso, a passagem por barrica não é obrigatória, apesar dos melhores vinhos estagiarem em carvalho, normalmente por um período inferior ao Brunello.

Quanto ao Brunello é difícil definir um único estilo pois a região é vasta e o crescimento recente a levou para além da fronteira que seria razoável. Mas essa é uma longa estória e fica para um próximo artigo.

A vinícola Casanova di Neri

No belíssimo cenário da Toscana, quem chega de carro pela estrada principal, vindo do Norte, se depara com a vinícola antes de atingir a colina onde se encontra o vilarejo medieval fortificado. Uma visão de “cair o queixo”.

A Vinicola foi fundada por Giovanni Neri em 1971, quando começou a comprar terras em Montalcino. Possui vinhedos em 4 áreas, Cerretalto e Fiesole no norte, Pietradonice e Cetine no sul. Essa terminologia é importante para entender os vinhos da casa, como veremos mais adiante.

A localização dos diferentes vinhedos da vinícola

Os Produtos da Casanuova di Neri

O portifólio de produtos inclui um Azeite Extravirgem, a Grappa di Brunello, o vinho branco IIBianco, o IIRosé, o IIRosso, um tinto sem denominação de origem, Há também 2 Rossos di Montalcino (o regular e o Giovani Neri, com uvas oriundas dos melhores vinhedos).

Além disso, a vinícola produz 4 Brunellos. Nesse post comentarei 3 deles (vide foto abaixo), que serão descritos a seguir:

Os 3 Brunellos degustados e que serão comentados a seguir

O primeiro Brunello foi o Etichetta Bianca 2017, o terceiro da esquerda para a direita. Produzido com uvas oriundas de qualquer um dos vinhedos da vinícola. A safra 2017 recebeu 94 pontos do site Robert Parker. A importadora Clarets vende a safra 2016 no Brasil por R$ 576. Na vinícola custou 32 Euros.

É um vinho de elevada intensidade visual. No nariz predominam as frutas negras e, diferente do que eu imaginava nota florais delicadas que espantaram a imagem que eu tinha de um vinho austero. A madeira bem colocada, lembrando um fino tostado, completou o bouquet de um vinho que ainda é evidentemente muito jovem e que tem muito a evoluir.

Na boca ele é equilibrado “pelo alto”, com boa acidez que balanceia bem a alta carga tânica, que tem uma granulação fina e de ótima qualidade. O corpo também se mostrou ligeiramente acima da média, sem ser encorpado. Álcool equilibrado e boa intensidade de sabor com  elevada persistência. Bom para beber já, mas que deve evoluir bem com a guarda.

O segundo Brunello foi o rótulo “clássico: da casa, o Tenuta Nova 2017. A safra 2010 desse vinho recebeu 100 pontos RP.  Essa que provei foi agraciada com 96 pontos pela crítica do site Monica Larner. No Brasil a safra 2016 é vendida pela Clarets por R$ 999,60. Na vinícola, a safra 2017 custou 75 Euros.

Eu já tinha gostado muito do anterior, o Etichetta Bianco, mas esse conseguiu se mostrar num degrau acima. O estilo da casa, assim como as características da quente e seca safra de 2017, pareceram estar presentes. Mostrou elevada intensidade visual, o predomínio das frutas negras, além dos taninos potentes, mas de ótima granulação. As notas florais também estavam proeminentes, sugerindo uma assinatura da safra. No retrogosto tinha uma calda de cereja marcante. Mas ao contrario do Etichetta Bianco que já estava “quase pronto”, o Tenuta ainda pareceu fechado e, com o tempo em taça, foi revelando novas camadas de aroma. Esse é para guardar. Abrir agora é um enorme desperdício; para não dizer que é quase um crime.

Por fim, o terceiro Brunello degustado foi o Cerretalto 2016, uma safra considerada acima da média, o que talvez torne injusto compará-lo com os anteriores. A safra 2015 está a venda no Brasil, pela Claretts Importadora por R$ 3.498,00. Na vinícola a safa 2016 custou 230 Euros. No site RP, a safra 2016 recebeu 98 pontos.

Foi possível perceber um vinho mais voluptuoso que os anteriores. A madeira estava mais aparente, a concentração de frutas enorme e a nota floral não se mostrou tão evidente. Se já era um crime abrir o Tenuta 2017, esse então poderia ser enquadrado como um ato equivalente a um delito hediondo. Esse “exige” uma longa guarda.

Vale pelo passeio e vale ainda mais pelos vinhos

A vinícola não se limita aos vinhos. Hospedar-se em um dos quartos faz a experiência de visitar a encantadora Montalcino ainda melhor. O hotel, localizado dentro da sede da vinícola, conta com poucas acomodações, café da manhã espetacular, numa vista encantadora. E os vinhos mais simples da casa são fartamente distribuídos para a degustação dos hóspedes.

Mas, por incrível que pareça, não é um lugar fácil de ser visitado para quem não está hospedado no hotel. Pode parecer incrível, mas a vinícola se dá ao luxo de menosprezar os “enoturistas” que não são hóspedes, ou que não tenham se planejado com antecedência e que tenha aberto a carteira para pagar as elevadas tarifas da visita. Coisas do “velho mundo”.

Uma pena. Mas isso não tira o brilho do lugar e o encanto dos vinhos, um dos melhores representantes da região.

Serviço:
Website: www.casanovadinerirelais.com
Instagram: @casanovadineri
Renato Nahas é Sommelier formado pela ABS-SP e Professor nos cursos de Introdução ao Mundo de Vinho e Formação de Sommelier Profissional na ABS-Campinas. Obteve a Certificação Master Level em Borgonha, pela WSG, além da  FWS, IWS, SWS, CSW e WSET3. Além disso é Formador Homologado de Jerez.

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