Uvas Híbridas – Parte 1

Por Ivan Ribeiro

Muito embora muitos não saibam, a realidade do mundo do vinho gira em torno do crescimento e busca pelo aperfeiçoamento genético também. Essas buscas são no intuito de se conseguir maior consistência, ou resistência, ou, quem sabe, adequação de aromas, controle de pragas e por ai afora. Temos um caminho vasto de possibilidades e opções.

Atualmente, essas conexões e tratamentos genéticos das uvas tem formado as chamadas uvas híbridas, que são oriundas do cruzamento de espécies diferentes para se obter uma qualidade ou consistência melhor do que as atuais. Trata-se de um procedimento que já é uma realidade viva, pura e que veio para fazer parte, de uma vez por todas, do mundo do vinho de forma global.

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No Brasil, temos diversos estudos e constantemente estamos nos deparando com novas castas lançadas no mercado, que são resultados de estudos genéticos na busca de cultivares que tenham uma melhor adaptação a determinados climas, solos, resistências às pragas e outras tantas condições do que se buscam. O mesmo ocorre no mundo todo e algumas das castas que estamos degustando nos dias atuais são cruzamentos genéticos e que não percebemos ou não temos conhecimento.

Seja realizado em laboratório ou por meio do cruzamento natural dos cultivares, as castas, em sua grande maioria são provenientes de cruzamentos genéticos. Como exemplos clássicos da Cabernet Sauvignon, que é o resultado do cruzamento da Cabernet Franc com a Sauvignon Blanc, um clássico exemplo de cruzamento natural. Ou, da Pinotage, uma casta que gosto muito, que foi criada através do cruzamento da Pinot Noir com a Hermitage ou Cinsault, outro clássico exemplo, mas de um cruzamento feito em laboratório.

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Assim, se formos buscar a árvore genealógica das uvas, certamente podemos nos deparar com grandes surpresas provenientes desses cruzamentos naturais. Já os cruzamentos laboratoriais, esses são diferentes, e são mais fáceis de identificarmos as suas origens.

Outros exemplos que temos desses cruzamentos em laboratório são da Marselan, uma casta que tem se adaptado muito bem no território brasileiro, e é um cruzamento de laboratório entre a Cabernet Sauvignon e a Garnacha e a Rebo, que também foi criada em laboratório, é um cruzamento da Teroldego com a Merlot.

Contudo, existe uma grande diferença entre as uvas provenientes de cruzamentos naturais ou laboratoriais de uvas Vitis viníferas e a mesma situação de uvas Vitis viníferas com outras espécies de uvas, como as americanas (Vitis labruscas), que vão originar as chamadas “uvas híbridas”.

Alguns exemplos são a uva Isabella (Isabel no Brasil) criada em 1816, a Concord (1854), ambas nos Estados Unidos, através do cruzamento de uma variedade de Vitis vinifera e uma de Vitis labrusca, e a uva Vidal, que é usada especialmente para a elaboração dos Icewines no Canadá e que vem sendo um dos destaques entre as castas híbridas. Nascida na França do cruzamento entre a Trebbiano Toscano (vinífera, conhecida também como Ugni Blanc) e Rayon D’Or (uva híbrida), em 1930.

Ainda temos as Clinton (cruzamento de uva labrusca com Riparia, em 1835), Bordô ou Ives (cruzamento da uva labrusca com a Aestivalis, em 1844) e Niagara (cruzamento da uva labrusca com Uva Vinífera, em 1872). Castas que foram de extrema importância na história dos vinhos no mundo e, em especial no Brasil, pois estiveram presentes no início da expansão da colonização do Brasil e do mundo da vinicultura dentro do País.

Tudo isso faz parte de uma história inicial, onde as uvas híbridas não vieram carregadas de concepção e estrutura para a produção de vinhos de extrema qualidade e na linha e contexto das uvas viníferas. O que levou a descrença e a não aceitação dessas uvas naquele dado momento.

Contudo, os estudos continuaram e foram cada vez mais crescentes, procurando aperfeiçoar e trazer resultados que satisfizessem ainda mais o publico consumidor, mantendo a qualidade dos vinhos e com a junção de aspectos como melhor resistência. Assim, surgiu na França a nova linha de híbridas no início do século XX, quais sejam as Baco Noir (uma casta híbrida franco-americana, muito cultivada nos EUA e no Canadá, nas cidades de Nova York e Ontário, proveniente do cruzamento da Piquepoul Du Gers (Folle Blanche) e Riparia Grand Glabre), Maréchal Foch (também muito cultivada nos EUA e Canadá, resultado do cruzamento da Millardet et Grasset 101-14 (Riparia x Rupestris) de polinização aberta com Goldriesling), Seyval Blanc (muito cultivada na Inglaterra, costa leste dos EUA e Canadá, cruzamento de duas híbridas Seibel 5656 e Seibel 4986 (Rayon D´Or)) e Vidal, já citada acima.

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Passada essa fase, tivemos um novo ciclo de eventos e criações, que são os importantes estudos implementados pelos alemães com a criação das uvas PIWI, uma abreviatura para um termo alemão, PIlzWIderstandsfähige Rebsorten, que pode ser traduzida como “variedades de uvas resistentes a fungos”, e que vem sendo muito utilizada para potencializar as uvas brancas e tintas em termos de resistência para fungos.

Uma uva híbrida criada para esse intuito de controle de praga através de um cruzamento de um cultivares vinífero e uma uva americana que tenha essa característica e resistência.

Nesse novo ciclo tivemos o aparecimento de algumas novas castas como as: Regent (criada em 1967 através do cruzamento da vinifera Diana (que é um cruzamento da Silvaner como a Muller-Thurgau com a híbrida Chambourcin), Cabernet Cortis (criada em 1982 através do cruzamento da Cabernet Sauvignon com a Solaris), Solaris (criada em 1975 através do cruzamento da Merzling seyve Villard 5276 x Riesling x Pinot Gris com a 6493Gm Severa Zarya x Muscat Ottonel), Rondo (criada em 1064 pelo cruzamento da Zarya Severa com a St. Laurent) e a Souvignier Gris (criada em 1983, que se pensava inicialmente ser um cruzamento da Cabernet Sauvignon com a Bronner, contudo era de Seyval com a Zahringer).

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Nota-se, por simples análises até agora, o quanto é vasto o mundo das uvas e suas variedades, sejam em razão das suas espécies ou decorrentes de cruzamentos genéticos naturais ou laboratoriais. Diria ser uma missão muito difícil de conhecer e analisar todos esses aspectos.

No entanto, ao escrever sobre o dia do Champagne, e perceber que as híbridas estão entrando em comunidades e setores altamente exigentes e conservadores, como as regiões de Champagne e Bourdeaux, temos a dimensão exata da importância desses estudos e dessas inovações. Conquistas que vão contribuir bastante com a vida longa e útil do mundo dos vinhos em seus aspectos gerais.

Como bem sabemos, Bourdeaux já acatou a utilização de seis variedades de uvas de fora da região, sendo elas as tintas resistentes e de clima quente: Arinarnoa, Castets, Marselan e Touriga Nacional; e as brancas: Alvarinho e Liliorila. E indicativos demonstram que a região tem locais que estão agora definidos para adotar também variedades híbridas resistentes a doenças. Essa indicação ocorre no mesmo momento que a União Europeia se prepara para redefinir sua Política Agrícola Comum (PAC), onde deve aprovar variedades de uvas híbridas para produção de vinho nos estados membros.

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Enquanto Bordeaux ainda não liberou a utilização, a região de Champagne, que é marcada  tipicamente pela produção e utilização de 3 castas permitidas na região: Pinot Noir, Chardonnay e Meunier, tornou-se a Primeira D.O. dentro da União Europeia a permitir a utilização de uma uva híbrida na sua produção.

Em meados de fevereiro desse ano, 2022, o Instituto Nacional de Origem e Qualidade Francês (INAO) validou o pedido do Comité Interprofessionnel du Vin de Champagne (CIVC) no sentido da utilização da Voltis nos cortes de espumantes elaborados em Champagne até o limite de 5% das áreas plantadas e 10% dentro dos blends. Uma uva provinda de um cruzamento de uma série de castas viníferas, uma não vinífera (a Vitis rotundifolia) e uma híbrida, a Villaris, que a tornou altamente resistente à doenças fúngicas e pragas, diminuindo a utilização de fungicidas, ajudando toda parte ambiental e qualidade das uvas e dos vinhos em si.

Em breve a segunda parte do artigo onde falaremos das uvas híbridas no Brasil.

Ivan Ribeiro do Vale Junior.
Advogado / Sommelier / Professor / Escritor
WSET / ISG / FACSUL / UFRGS
@duvalewinetasting

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