Uvas Híbridas – Parte 2

Por Ivan Ribeiro

Na primeira parte deste Post, falamos de uma maneira geral sobre as uvas híbridas e sua utilização na indústria vitivinícola. Nessa segunda parte vamos falar sobre as uvas híbridas no Brasil. Se você ainda não leu a primeira parte, o link está a seguir: Uvas Híbridas: Parte 1.

No Brasil com toda história que reúne a Isabel e a Niágara que fizeram contexto de todos os momentos do crescimento e evolução do mundo da vitivinicultura do Brasil, temos também a Uva Goethe, que é uma variedade de uva branca, híbrida com aromas e sabores adocicados, característica do grupo Moscatel. Surgiu do cruzamento entre duas espécies Vitis vinifera e Vitis labrusca.

A Uva Goethe foi desenvolvida nos Estados Unidos em 1850, é um híbrido que reúne a rusticidade das videiras americanas ao rico e delicado sabor das uvas européias, com base na Moscato de onde atrai maior parte dos seus aromas. A uva se adaptou muito bem em Urussanga, na região de Santa Catarina, onde hoje existe o Vale da Uva Goethe, com direito a IP (Indicação de Procedência) e tudo mais.

Essas uvas americanas ou híbridas brancas tem um grande destaque no Brasil e vem ganhando projeção cada vez maior. Segundo estudo da EMBRAPA hoje temos de plantio: Niagara – 2.694,15 ha cultivados no RS (6,68% do total da região); Moscato Embrapa – 469,85 ha cultivados no RS (1,16% do total da região); Lorena BRS – 402,93 ha cultivados no RS (1% do total da região). Fora as demais regiões do País que temos cultivares em grande projeção. Não só das uvas viníferas como das uvas para produção de suco de uva e vinhos de mesa, que também fazem parte dos estudos de melhoramentos realizados pelos órgãos federais.

E temos a novíssima uva BRS Bibiana, que foi desenvolvida por um dos grandes Órgãos que é parceiro do mundo do vinho, a EMBRAPA Uva e Vinho e que desenvolve importante papel na história do vinho nacional, tornando evidente a crescente das uvas híbridas e demonstrando que são uma realidade em ascensão e cada vez mais forte e presente em diversas regiões do mundo.

A BRS Bibiana é marcada pela sua alta produtividade, adaptação e facilidade de manejo, sendo uma excelente oportunidade de inovação para as vinícolas. A casta foi lançada em 2019 e já começa a gerar os primeiros vinhos disponíveis no mercado, desenvolvidos por três vinícolas familiares da Serra Gaúcha: Casa Zottis, Vinícola Cainelli e Vinícola Buffon, pelo programa de melhoramento genético “Uvas do Brasil” da Embrapa.

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Uma casta que apresenta alta produtividade e requer menos tratamentos fitossanitários, gerando mais sustentabilidade ambiental e economia ao produtor. Com excelente potencial enológico e é adaptada às condições do clima subtropical úmido da Serra Gaúcha. Uma uva branca, resistente às podridões de cacho, com cachos soltos e não compactos. Dando espaço para vinhos de perfil sensorial similar às uvas europeias com nível de açúcar, na maturação, em torno de 21 graus Brix e acidez variando de 100 a 120 (mEq) por litro.

Uma casta com uma versatilidade enológica interessante, que pode ser utilizada tanto para vinhos brancos tranquilos como frisantes, além de ser uma opção para cortes com outras variedades. Em particular, destaque para o frisante elaborado por Anderson Buffon, que afirma que: “o vinho tem um sabor de frutas tropicais, como maracujá, manga e abacaxi. A partir do método tradicional.” Ele fez vários testes e optou por elaborar um frisante Demi-sec pelo método Champenoise, e confesso que ficou um espetáculo.

A Bibiana é uma variedade resistente cuja constituição genética é bastante complexa, composta por 68,2% de Vitis vinífera e 31,8% de outras espécies do gênero Vitis, incluindo Vitis rotundifolia, Vitis simpsonii e Vitis rupestris, entre outras. Foi obtida a partir do cruzamento entre ‘CNPUV 149-456’ X ‘BRS Lorena’, e demais cruzamentos como mostra a imagem abaixo:

Dentro de outro contexto, e conhecedor de uma evolução bem interessante dos vinhos nacionais. Temos a grata surpresa referendada pelo licoroso de Lorena que foi elaborado pelo Fabio Góes da Vinícola Góes. Um vinho comemorativo, que tive o prazer de degustar antes do seu lançamento, ainda em tanque de Inox depois de ter passado 10 anos em maturação, sendo 08 anos em barricas de carvalho de 4°, 5° e 6° uso e depois em tanque de inox, totalizando a produção de apenas 3.000 garrafas, bem exclusivo.

Um vinho diferenciado, que apresenta notas de castanha, nozes, mel, avelã e altamente untuoso. Em boca é fantástico, que recebeu medalha de bronze da Decanter. Uma reunião de elementos que fazem desse vinho uma obra de arte. E, vindo de uma uva híbrida, a Lorena, que inclusive faz parte do conjunto genético da composição da Bibiana.

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Esse é um pouco de todo o universo das uvas híbridas e um pouco mais sobre esse vasto mundo do vinho e principalmente dos vinhos brasileiros, os quais tenho muito orgulho de estudar, divulgar e me aprofundar cada vez mais. Que venham mais uvas e mais melhoramentos genéticos de todas as espécies para que tenhamos cada vez mais melhores produtos e com maior qualidade.

Desta forma, e em linhas gerais, seriam essas sistemáticas aplicadas para o melhoramento da vitivinivultura do Brasil e do Mundo. Que os estudos continuem avançando, através da EMBRAPA Uva e Vinho e demais pesquisadores no mundo inteiro, sempre na busca do aperfeiçoamento de modo geral.

Ivan Ribeiro do Vale Junior.
Advogado / Sommelier / Professor / Escritor
WSET / ISG / FACSUL / UFRGS
@duvalewinetasting

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