Jura: O Mundo do Vinho “à l’inverse”

Por Alessandro Calbucci

Jura, 80 km apenas à leste da Côte d’Or, na divisa com a Suíça e próxima a fronteira com a Alemanha.

Pequena grande região vinícola da França, cujos vinhos estão entre os mais cobiçados. E não só por que a produção é muito pequena, tendo apenas 1.400 hectares plantados, mas pela notável elaboração de vinhos incríveis.

Entre 1936 e 1937, Jura foi uma das primeiras regiões da França a ter áreas de produção classificadas como AOC (denominação de origem controlada), com o surgimento das designações Arbois AOC, Château Chalon AOC, Côtes du Jura AOC e L´Étoile AOC às quais vieram se juntar outras três designações de estilo, a saber, Macvin du Jura (1991) e Cremant du Jura (1995) e Marc du Jura (2015).

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Terra de Pinot Noir e Chardonnay de igual nível da Borgonha (para não parecer exagerado, precisa-se, da Borgonha pelo menos de muitos vinhos das denominações Village et Premier Cru, para não falar dos grandes Grand Crus). E mesmo assim o grande protagonista do Jura é o Savagnin!

Este pequeno pedacinho de terra consagrada à agricultura e produção de queijos, está sendo cada vez mais conhecida pelos enófilos. O Jura já foi por muitos definido como: “o paraíso desconhecido dos vinhos exóticos”, ou “o berço dos vinhos oxidativos”.

Do ponto de vista comercial existem poucos lugares na França, e de consequência no mundo, onde podemos encontrar vinhos com este custo-benefício.

Mas, para conhecer os verdadeiros segredos do Jura, é preciso ir pessoalmente. Além dos Domaines que estão fazendo conhecer os vinhos de Jura pelo mundo, existe uma tribo de artesãos, ou seria mais adequado chamá-los de artistas, que não tem site na internet, nem mídias sociais, mas que revolucionaram a vinicultura francesa e que só pessoalmente e com muita perseverança é possível conhecer.

Jura

Em Jura o mundo do vinho é virado de “cabeça pra baixo” em vários sentidos. Para começar, os vinhos tintos são os que abrem as degustações, seguidos pelos brancos. 

Além disso, outra inversão que surpreende. O Pinot Noir é considerado o grande vinho estruturado, que termina as degustações dos tintos. Aqui no Novo Mundo estamos acostumados a considerar o PN como um vinho leve e de entrada. Embora, no Jura, Trousseau e Poulsard são os tintos de entradas que transformam o PN no vinho encorpado e tânico da região. No mundo do vinho tudo é maravilhosamente relativo. A Trousseau, casta autóctone do Jura, se caracteriza por uma leveza única, mas não banal. Vinhos frescos e perfumados com taninos delicadíssimos. A Poulsard, segunda casta típica do Jura, se apresenta um pouco mais estruturada, com notas de especiaria além das notas frutadas.

E só depois, para quem deseja um vinho encorpado e tânico, entra em cena o Pinot Noir. Depois desta sequência de tintos delicados, que de todas formas costumam amadurecer meses ou até anos em madeiras, os brancos começam a dominar a cena. Se começa com o Chardonnay, que no Jura encontra solos e climas muitos favoráveis para produzir vinhos elegantes e complexos. E finamente entra o grande protagonista do Jura: o Savagnin, le roi! Na versão “ouillé” ou seja não oxidativo, quando as barricas são completadas para dar vida a um vinho com aromas frutados e florais, que já mostra todas a sua estrutura e consistência natural.

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O primeiro contato com a tradição oxidativa de Jura é com um vinho justamente chamado de “tradição“, corte de Chardonnay com Savagnin vinificado “sous voile”. O nariz é Já caracterizados pelos marcadores típicos dos vinhos produzidos com oxidação biológica, mas conserva o frescor dado pelo Chardonnay.

Finalmente, chega o momento do Savagnin Typé, ou sous voile, normalmente “elevage“ de 3 anos. O vinho tem o nariz típico da vinificação “sous voile” e na boca já presenta grande estrutura, uma oleosidade e persistência que  bagunçam (“boulversent”) nossos padrões e hábitos sensoriais.

Agora tudo é pronto para o “Grande Imperador” do Jura, o Vin Jaune, ou o vinho amarelo. Quem vai até o Jura, já conhece a história da origem acidental deste grande vinho. Mas é só quando degustamos que nós temos a experiência do milagre enológico na nossa boca. São 6 anos e 3 meses de criação em barricas sob um véu de leveduras, e o vinho apresenta um contraste místico entre sensações olfativas e gustativas e tácteis. O nariz é tomado de aromas oxidativos, maçã apodrecida, nozes, curry, açafrão, que geram a expectativa de provar um vinho que desagradaria na boca. Mas, ao invés disso, surpreende pelas secura e acidez acentuadas, mas equilibradas e uma consistência e maciez mágicas.

O Vin Jaune, independentemente de gostar ou não dos vinhos oxidativos, muda nossos  parâmetros da consistência e da persistência dos vinhos brancos. O critério dos 12 segundos de “caudalie” é completamente quebrado. Podem conversar minutos com este vinho na boca.

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Um Novo Amarone!?

Não só a ordem dos vinhos é invertida. O que mais surpreende nesta pequena grande região é a concentração de pioneiros, mestres, artistas e mágicos do vinho. Aqui você pode encontrar escondidos os grande revolucionários da vinicultura biológica e biodinâmica da França. Em Pupillin pode ter a sorte de encontrar Pierre Overnoy, ou mais provavelmente o seu herdeiro espiritual Emmanuel Houillon, e um pouco mais longe Philippe Bornard. Em outros micros vilarejos do Jura, se instalaram Jean-François Ganevat, Mayumi & Kenjiro Kagami, por exemplo. Em Arbois, a pequena capital juraniana, na praça principal é possível visitar a boutique de Stephane Tissot, vanguardista do Jura.

Estes “vignerons” e muitos outros que fazem parte da associação Le Nez Dans le Vert ( association de vignerons bio-Jura) fazem da cultivação biológica e biodinâmica um estilo de vida e não um moda. O “Bio” é um meio e não um fim (comercial). Muitos nem colocam o selo no rótulo, apesar de terem convertidos próprios cultivos há muito anos atrás. A vinicultura orgânica não deveria ser a exceção, mas o óbvio!

Para compreender este pequeno grande terroir, é preciso aprender a degustar os vinhos de cabeça pra baixo.

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O Jura é um laboratório para o mundo inteiro, e não por coincidência, o primeiro laboratório da história do vinho foi criado aqui mesmo, por Louis Pasteur, que na sua casa conduziu seu primeiro experimentos sobre a fermentação.  

Destaca-se além dos produtores já citados, o Domaine Berthet-Bondet. Baseado em Chateau Chalon, este Domaine bio é guiado pela Helene, filha do fundador do Domaine. Helene, com elegância e sensibilidade, se coloca na linha subtil da transmissão da tradição juraniana sem traição. Os seus vinhos revelam toda a tipicidade deste terroir em uma chave contemporânea. A vivacidade caracteriza todos os vinhos sem desnatura-los.

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Tive a sorte de degustar um delicadíssimo corte de três castas: Trousseau, Poulsard e Pinot Noir. Seguido de um elegante varietal de Pinot Noir. Depois os brancos, começando com um dos melhores Chardonnay que já provei (incluindo os da Borgonha) e um inovador Savagnin “ouillè” afinado em madeira de acácia (vinho ainda vibrante demais, mas com um belo futuro pela frente). E finalmente os vinhos oxidativos: Tradition, Savagnin e dois Vins Jaunes inesquecíveis: um Chateau Chalon 2015, com aromas típicos e um final de boca inesquecível, e um Chateau Chalon 2003, que o tempo enobreceu os aromas que se tornaram poucos oxidativos e dominados por perfume de nozes e amêndoas .

Como ensina Stephane Tissot, “ a vinificação sous voile ao invés de mascarar as tipicidade dos diferentes terroirs, acaba amplificando-as”. Confirmando, mais uma vez, aos “terroiristas” que o terroir é muito mais que o simples território.

Viva Jura!

Alessandro Calbucci
Wine Researcher and Beachtennis Ambassador

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