Os Premier Crus da Borgonha Que São Quase Grand Crus

Por Renato Nahas

Conhecida por produzir alguns dos vinhos mais aclamados e icônicos do mundo, a Borgonha é complicada, confusa e muito complexa. Mas é apaixonante!

Nesse post iremos abordar uma sutileza da classificação dos vinhos da região; alguns Premier Cru, categoria que teoricamente está abaixo dos Grands Crus, mas que são considerados por muitos (e precificados) acima de muitos Grands Crus.

A região concentra menos de 4% da área plantada de vinhedos na França e é extremamente fragmentada. Prova disso são as 84 Apelações de Origem Protegidas (AOP) que representam 23% de toda a França. É uma quantidade enorme de pequenas Apelações, o que por si só já se constitui num enorme desafio de memorização. E tudo fica ainda mais complicado porque muitos dos nomes são compostos, com sufixos misturando o nome de uma vila com vinhedos, numa grafia estranha a quem não domina a língua francesa.

Uma boa forma de nos guiarmos pela Borgonha é usar a classificação dos vinhos, instituída em 1936 e que define 4 níveis, teoricamente, escalonados por qualidade. Mas como veremos ao longo desse artigo, mesmo essa classificação esconde armadilhas. Definitivamente a Borgonha não é para amadores.

+ Os Villages “Menos Caros” da Borgonha.

Classificação dos Vinhos na Borgonha

O critério para classificação dos vinhos da Borgonha é a localização do vinhedo. Esse é um conceito totalmente diferente do usado em Bordeaux. Enquanto na Borgonha, todos os vinhos produzidos num vinhedo específico compartilham a mesma classificação, independente do produtor, em Bordeaux é o contrário:  todos os vinhos de um produtor compartilham a mesma classificação, independente do vinhedo onde é produzido. Simples, não? Bem-vindo à França!

Essa é a pirâmide que apresenta a classificação dos vinhos da Borgonha. A qualidade dos vinhos, teoricamente, caminha de baixo para cima, começando nos Regionais, supostamente os mais simples e escalando até os Grands Crus. No meio desses dois extremos encontram-se a classificação Village e Village Premier Cru.

Colocada dessa forma, a classificação parece ter sido feita com base em critérios científicos, mas não é bem assim. Apesar de conceitos gerais, como a localização do vinhedo, terem guiado a classificação, não se pode descartar o fator humano nas escolhas feitas.

Na Borgonha há mais de 1.200 parcelas de terrenos, os chamados climats. Todo esse registro dos vinhedos e terrenos foi iniciado pelos Monges na idade média. Os Monges obviamente não dispunham dos conhecimentos de geologia disponíveis hoje. Eles não faziam ideia que estavam numa paisagem fraturada, gerada durante a última elevação continental que criou os Alpes e que, por conta disso, tinham diante de si um solo extremamente diverso.

Mas o que importa é que eles reconheciam que parcelas de terrenos diferentes produziam uvas que geravam vinhos diferentes e, pacientemente, classificaram os terrenos, de acordo com a qualidade da uva produzida. E é espantoso que, séculos depois, o avanço da ciência, especialmente na área de geologia, comprovou o acerto do mapeamento feito pelos Monges séculos atrás.

Em 1936, seguindo os passos da implantação das denominações de origem na França, os produtores da Borgonha se reuniram para formalizar quais vinhedos seriam agraciados com o status de Village, Premier Cru e Grand Cru.  A base para isso foi todo o legado deixado pelos séculos de experiência dos produtores da região, principalmente os monges cistercienses e beneditinos e critério objetivos como a localização dos vinhedos, incluindo as várias dimensões do terroir.

Mas numa reunião entre produtores, com diversos interesses envolvidos, da vaidade até questões puramente econômicas, é fácil supor que nem sempre os critérios racionais prevaleceram. É o caso desses dez vinhedos que foram classificados como Premier Cru, e que se encontram nesse patamar até hoje, mas que são reconhecidos e precificados como se fossem Grand Crus.

Os dez Premiers Crus “quase” Grands Crus

Geralmente classificados como “Top Tier Premiers Crus”, ou “primeira linha de Premiers Crus”, apesar de não existir oficialmente tal classificação, esses vinhedos possuem sempre uma estória interessante por trás. Vamos a elas:

Gevrey-Chambertin “Les Clos St-Jacques”. Tem preço e prestígio superiores ao de alguns Grand Crus desse Village, como Mazoyères-Chambertin só para ficar num exemplo. Em 1936, quando foi definida as classificações da AOC, o vinhedo pertencia ao “esnobe” Conde de Moucheron que, segundo consta, decidiu não pleitear nenhuma classificação. O Conde vendeu o vinhedo em 1955 e hoje 5 produtores possuem parcelas, incluindo o grande produtor da AOC Armand Rousseau.

Chambolle-Musigny “Les Amoureueses”. Nesse caso há uma razão técnica (discutível) para não ser classificado como Grand Cru. Pela sua localização está mais sujeito às variações de safra. Isso contraria um dos princípios de um Grand Cru que é a consistência. Mas nas boas safras, esse vinhedo encanta a ponto dos conhecedores o colocarem em pé de igualdade com o aclamado Musigny.  

Vosne-Romanée “Aux Malconsorts”: Faz fronteira ao norte com um vizinho ilustre, La Tache. Duas razões são apontadas como decisivas para não ter sido escolhido como Grand Cru. A primeira está relacionada a história. Somente no século 16 passou a ser cultivado. Antes era dominado por um campo de espinhos e por isso estava fora do radar nos tempos mais remotos. A segunda, e talvez mais decisiva, é que são vinhos que demandam pelo menos 15 anos de guarda para atingirem o ponto ideal de consumo. É curioso que são vinhos relativamente acessíveis quando jovens, mas que mudam de patamar de preço quando atingem a maturidade.

Nuit-Saint-Georges “Les Saint-Georges”: Esse vinhedo goza de enorme prestígio, especialmente no mercado americano. Qualidades não faltam. Mas o motivo para ele não ter sido promovido a Grand Cru tem a ver com os princípios éticos de um homem. Henri Gouges, proprietário de parcelas no vinhedo, presidiu a Comissão em 1936 que definiu as AOCs. Constrangido por classificar um vinhedo no qual era proprietário, simplesmente retirou-o da lista.

Pommard-Rugiens: Ao contrário dos vinhedos mencionados acima, não uma razão histórica, ou mesmo pitoresca, como o esnobismo do Conde esnobe, ou do produtor humilde. O fato é que esse vinhedo é reconhecido (e precificado) como um “Vrai Grand Cru”.

Volnay “Les Caillerets”: Esse vinhedo tem todos atributos (localização no meio da encosta), qualidade, consistência, reconhecimento e, “last but not least” preço de Grand Cru. Mas não é. O Village de Volnay é “suis generis”. Historicamente era uma propriedade da nobreza, não do clero. E metade do village é classificado como Premier Cru. Numa área tão nobre assim, diz a lenda que não foi fácil escolher, entre vários candidatos, um ou dois para receberem o status de Grand Cru. E nenhum foi escolhido!

Meursault “Les Perrières”: O caso aqui é ilustrativo da complexidade da Borgonha. O vinhedo é composto por 3 partes: Perrières-Dessus, Perrières Dessous (a grafia não está errada. É muito parecida com a anterior) e Clos de Perrières.  Essa última, Clos de Perrières é monopólio de uma família, os Bardet e os vinhos são engarrafados como Domaine Albert Gruvault. É esse climat que se destaca e está em fase avançada para se tornar um Grand Cru

Puligny-Montrachet “Le Cailleret”: É a extensão norte do icônico vinhedo de Montrachet e se beneficia de características similares de solo. Porém um pequeno detalhe topográfico provoca a inclinação do vinhedo um pouco mais para orientação leste, ao invés do sudeste, observada em Montrachet e considerada ideal. Isso teoricamente prejudica o amadurecimento em safras ruins. Porém nas safras boas, o prestígio dos vinhos produzidos se equipara aos do vizinho ilustre.

Pulligny-Montrachet “Les Pucelles”: A situação é muito parecida com o vinhedo anterior, “Le Cailleret”. O “pequeno detalhe” aqui tem a ver com a composição do solo, que é mais fundo e pedregoso que os vizinhos ilustres. Com isso há menos presença de calcário no solo. Apesar de esse ser um argumento técnico defensável, de acordo com o aclamado crítico e autor especializado em Borgonha, Remington Norman, “Les Pucelles pode ser facilmente confundido com o Grand Cru Bâtard em degustações às cegas”.

Borgonha, complexa mas apaixonante

Enfim, como foi dito na introdução desse texto, a Borgonha é complicada, confusa, repleta de sutilezas, como o caso desses Premiers Crus, e muito complexa. Mas é apaixonante. Desvendar a Borgonha talvez seja uma das mais prazerosas aventuras que um enófilo pode aspirar.

Renato Nahas é Sommelier formado pela ABS-SP e Professor nos cursos de Introdução ao Mundo de Vinho e Formação de Sommelier Profissional na ABS-Campinas. Obteve a Certificação Master Level em Borgonha, pela WSG, além da  FWS, IWS, SWS, CSW e WSET3. Além disso é Formador Homologado de Jerez.

2 comentários em “Os Premier Crus da Borgonha Que São Quase Grand Crus

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