Em Busca de Vinhos com Alma.

Amigos,
Voltamos a ter uma contribuição com um texto para o Blog. Desta vez, um amigo da Confraria Moóca, Reginaldo Azevedo, que se apresentou muito melhor do que eu faria, trouxe uma valiosa contribuição sobre um assunto que eu considero bastante importante. Os vinhos que tem um diferencial, uma história, que mexem com a gente. Ele resume bem em um uma palavra, Alma! Boa leitura.

Minha vida como amante do vinho começou cedo. Já aos seis anos, meus pais, minha irmã e eu tínhamos um compromisso inadiável aos domingos. Meu avô reunia todos os filhos e netos em torno da mesa para a macarronada, sempre regada a vinho. Nós, as crianças, tomávamos um copo americano de vinho de garrafão com soda. Eu esperava por esse momento durante toda a semana.

Desde essa época do vinho de uvas não viníferas, passei pelos mais diferentes tipos e níveis de qualidade. Vinho simples produzido no bairro da Mooca, onde sempre morei, os primeiros vinhos finos nacionais, como Château d’Argent e Château Duvalier, os primeiros importados do Chile, como Santa Rita, Concha y Toro e Undurraga, o aparecimento do Miolo Seleção, que mudou o conceito de vinho no Brasil, os primeiros Catena, que surpreendiam até os próprios argentinos, e os bons tempos do Real forte e do mercado aberto, quando era mais fácil tomar grandes vinhos de França, Itália, Espanha e Portugal.

Acredito que isso me trouxe a oportunidade de provar vinhos de diferentes tipos, de diferentes castas. Espumantes, brancos, tintos, doces, fortificados, tanto excelentes quanto péssimos, o que me ensinou a não julgar ou aceitar julgamentos alheios antes de provar.

Nos anos 90 e no início dos 2000, com o uso de tecnologias e práticas nem sempre recomendadas, a tendência foi de que os vinhos ficassem cada vez mais parecidos, independente do país de origem e das castas utilizadas. Eram sempre os mesmos aromas, a mesma tonalidade, o mesmo equilíbrio na boca.

“Na escola da enologia moderna se aprendeu a fazer vinho sem defeitos, mas um vinho não deve apenas não ter defeitos, deve ter alma”, disse Josko Gravner. Ele é produtor de vinho em Collio, na fronteira da Itália com a Eslovênia, e é considerado o grande mestre dos vinicultores que procuram a volta da personalidade e à essência milenar do vinho (no Brasil você encontra alguns de seus vinhos na Decanter).

Na minha busca por vinhos diferentes, que tenham alma, provei o Movia Lunar 2008 Chardonnay, que meu filho trouxe da Eslovênia por indicação do produtor.

A Eslovênia é um ótimo destino de viagem. Cercada pelos Alpes, pelo Mar Adriático e pelos Balcãs, esse pequeno país repleto de florestas, lagos, vilas medievais, parece saído de um conto de fadas. Da mesma forma que na vizinha Itália, o vinho tem sido parte integrante da cultura eslovena há séculos. Como é proibido o uso de agrotóxicos na Eslovênia, o país só produz vinhos orgânicos. Mas a Movia vai além, utilizando as técnicas biodinâmicas (o nome do vinho vem do fato de ser engarrafado na lua cheia) e o mínimo de intervenção possível, produzindo o que se chama vinho natural. A colheita das uvas é feita manualmente e de maneira tardia, para gerar caráter e álcool suficientes para um longo período de amadurecimento e envelhecimento. Após o desengaço e a seleção dos grãos, as uvas são colocadas rapidamente (no máximo 2 horas após a colheita) em barricas novas de carvalho francês de 220 litros, com uma grande tampa de aço inox que facilita a colocação do grão inteiro, sem necessidade de bombas ou mangueiras. Não é feita prensagem. A obtenção do mosto se deve à ação da gravidade (o próprio peso das uvas na barrica executa o rompimento das cascas dos grãos que estão por baixo) e a fermentação se inicia dentro do próprio bago. São realizadas remontagens manuais dos chapéus formados pelas cascas das uvas, que se mantêm em contato com o mosto até o final do processo. Após oito meses de maturação nas barricas, o vinho é engarrafado por gravidade na lua cheia, sem filtração ou adição de sulfitos. Ele é mantido na garrafa para amadurecimento por mais 6 meses. (Há um vídeo sobre a produção do Lunar disponível clicando aqui).

Ales Kristancic, proprietário e enólogo da Movia, indicou a meu filho como deveria ser feita a abertura da garrafa. Segui suas orientações, que remetem à abertura de vinhos de safras antigas:

  • Colocar a garrafa em pé uma semana antes da abertura (deixei por três dias)
  • Movimentar o menos possível a garrafa até a retirada da cápsula (sempre a mantendo na vertical).
  • Retirar a rolha lentamente, para evitar movimento dos sedimentos.
  • Usar decanter de bojo estreito para diminuir a área de contato com o oxigênio.
  • Servir o fundo da garrafa em outra taça para verificar cor, aromas e sabores dos sedimentos. O que manteve o vinho vivo com o passar dos anos – resíduos sólidos, leveduras naturais, cascas desintegradas, etc. – ficará nesta taça.

Todos os cuidados que devemos tomar ao abrir vinhos antigos vocês podem ler aqui: Cuidados ao Armazenar, Preparar e Servir Vinhos de Guarda

Assista aqui a um vídeo do procedimento.

O resultado é um vinho dourado tendendo a âmbar (que alguns chamam de laranja, mas os próprios produtores e principalmente os italianos definem como vino ambro), com ótima complexidade aromática, grande estrutura, corpo intenso e, por incrível que pareça, taninos leves, mesmo se tratando de um Chardonnay. Numa degustação às cegas em taça preta, muitos diriam se tratar de um tinto.

O Movia Lunar é maravilhoso, perfeito. Sem notas de oxidação perceptíveis, brilhante e quase totalmente límpido (eu deveria ter deixado mesmo aquela uma semana na posição vertical antes de abrir). Apresenta aromas complexos: flor de laranjeira, frutas compotadas (principalmente abacaxi), brioche, toques tostados e defumados. Mantém a presença agradável e característica da uva, com ótima acidez na boca. Não há amargor que incomode e não sobra álcool (14%). Muito encorpado, é equilibrado e tem persistência muito longa, não desaparecendo entre um gole e outro. Na taça com os sedimentos, o aroma continua agradável, porém com mais ênfase nas notas de levedura. Na boca sente-se uma textura muito rugosa, claro. Para quem gosta de pontuação de críticos, este vinho teve 95 pontos de James Suckling. (Vinho natural recebendo pontuação? Raro.)

Degustamos a garrafa em três e ficamos extasiados e surpresos com o que encontramos. Este é um caminho que vários grandes produtores já estão procurando e, em alguns casos, praticando com sucesso em seus processos. Afinal de contas, Romanée-Conti sempre foi e sempre será um vinho natural. Acho que Aubert de Villaine entende de vinho bom, não é? Não devemos ser preconceituosos na vida, e o vinho faz parte dela. Então, viva a diversidade!

Vinho Branco Chardonnay

Movia Lunar Chardonnay 2008
Produtor: Movia
Pais: Eslovênia
Região: Primorska Brda (divisa com Collio na Italia)
Graduação alcoólica: 14 GL

Serviço:

Onde comprar: A Enoteca Saint Vin Saint tem a safra 2013 (vale a pena conhecer a Saint Vin Saint, onde você encontra vinhos orgânicos, biodinâmicos e naturais de diversos países, inclusive vários produzidos no Brasil, num ambiente muito agradável e com bons acompanhamentos para os vinhos).

 

Reginaldo Azevedo é profissional pela Associação Brasileira de Sommeliers (ABS). Para entrar em contato com ele, escreva para reginaldotfazevedo@gmail.com

52 comentários em “Em Busca de Vinhos com Alma.

  1. Reginaldo é daquelas pessoas que ficamos gratos em conhecer, tenho o prazer de vonhece-lo e trocar experiências sobre vinhos e a vida, um cara com muita cultura para se conversar por dias. Excelente post, não esperava nada diferente deste blog e não esperava nada diferente do Regí.

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  2. Adoreeeiii a matéria, meu caro amigo…e que vontade deu de provar esta raridade!!! Vou te chamar para ser entrevistado no canal da moça do vinho, em breve!!! Cheersss e à sua saúde!!!

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  3. Parabéns!! Em primeiro lugar, sinto-me orgulhosa como sua irmã pela linda homenagem que fez à nossa familia logo de início. Texto muito rico em informações e acima de tudo escrito com muita Alma.

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  4. Não esperava menos do querido tio Rê.
    Suas palavras conseguiram trazer ao máximo os sentimentos, experiências e emoções proporcionadas pelo mundo do vinho. Ainda estou aprendendo sobre esse vasto e encantador ambiente e sinto-me honrado por ter o tio Rê como uma pessoa de referência no assunto.
    Parabéns pela matéria e aguardamos vc em casa para um brinde!🍷
    Saúde!

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    1. Ola Angelica. Existe sim. Se formos falar de produção de vinhos naturais, é uma prática que está voltando a ser utilizada em todos os países produtores de vinhos. Se você procurar em boas importadoras e conversar com os Sommeliers eles lhe indicarão vinhos produzidos dessa maneira.
      No final da matéria eu cito a Enoteca Saint Vin Saint, porque é um local que você pode provar vinhos naturais de vários países.
      Se tiver qualquer dúvida, me mande um e-mail em reginaldotfazevedo@gmail.com
      Abraço.

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  5. Ótima matéria Reginaldo. Um vídeo muito interessante que assistindo dá vontade de beber e, com um texto muito bacana. Parabéns e vamos aguardar mais matérias e muitos vinhos para degustar.

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  6. Tenho a sorte de ter a companhia do Reginaldo na Confraria, inspirador, bom contador de histórias e excelente pessoa. O texto traz as mesmas características, inspirador, envolvente e com ótima história. Saúde!!!

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    1. Que honra Lizete, um elogio partindo da Grande Dama do vinho natural no Brasil. Obrigado por nos receber em sua casa. Passamos uma manhã muito agradável, contando histórias e provando seus vinhos maravilhosos. Espero em breve, escrever sobre eles.

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  7. Olá Reginaldo;
    Não tenho palavras para elogiar:Fantástico,Excelente o artigo quanto ao conteúdo e conhecimento.Este artigo me faz cada vez mais apreciar um bom vinho.Quem sabe no futuro poderei adquirir 10% do seu conhecimento.
    Parabéns e um Abraço!

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  8. uau, estou estupefato pela poesia do artigo. Parabéns Reginaldo.
    Fico feliz de poder ler suas colunas, assim como ver essa vertente de Vinhos Naturais crescendo e se tornando cada vez mais notória.
    continue com esses textos inspiradores.
    Forte abraço

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  9. Reginaldo, parabéns pelo texto, muito rico. No Brasil se consome e se fala muito pouco sobre vinho branco.
    Tinha dúvida de quando for conhecer a Croácia iria incluir a Eslovênia, agora não tenho mais.
    Um abraço.

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  10. Reginaldo, fantástico texto! que delicia poder ler um belo comentário como esse.
    Não conheço esta joia, mas pela sua descrição e apresentação, o vinho merece sem dúvidas uma boa nota.
    Somos apreciadores de vinhos de boutique, de pequenos produtores, de processos artesanais, esses normalmente tem personalidade e carácter marcante do terroir, nada contra os grandes produtores, que alias produzem vinhos excelentes, mas os pequenos que conhecem e sabem a técnica colocam a própria Alma em seus produtos, e isso faz a diferença conforme você menciona. Parabéns!

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